CEZAR CANDUCHO

segunda-feira, 13 de julho de 2015

AFINAL, VAI TER GOLPE OU NÃO VAI?



" Os aviões chegaram de surpresa, cruzaram o céu cuspindo suas bombas destruidoras. Ao final, o rápido ataque havia destruído 21 navios, 347 aviões, matado cerca de 403 pessoas e ferido outras 1178. Depósitos de combustível e outras instalações voaram pelos ares enquanto militares marchavam em terra e a costa estava cercada por porta-aviões e canhões apontados para as cidades....
Esta é a imagem que a maioria tem em mente quando se fala em golpe no Brasil, mas é apenas uma mistura do que ocorreu em Pearl Harbor (1941) temperada com um pouco de imaginação. Manobras espetaculares e cinematográficas há décadas deram lugar às ações de inteligência. Mesmo a ocupação do Iraque ocorreu sem tiros, com as tropas de Sadan Hussein batendo em retirada antes da entrada do exército americano. Golpe de Estado não é sinônimo de guerra, mas da tomada de um poder constituído por outro em ações antidemocráticas.
Golpes de Estado, hoje em dia, ainda ocorrem com sangue, morte e dor, mas de outra natureza: Sangram empresas, sangram empregos, sangra a saúde, sangra a educação, sangra a justiça, sangra o estado de direito... e quem sofre a dor são os empresários que assistem a lenta agonia até a morte de seus negócios, trabalhadores que perdem seus empregos e a condição de sustento da família, servidores públicos que veem morrer as perspectivas de carreira e jogam a toalha em planos de demissão voluntária, os prestadores de serviços e profissionais liberais sem ocupação...
Poucos prestam atenção ao noticiário quando o assunto é Economia. De janeiro ao final de abril, as obras paradas, governo federal com pagamentos em atraso, cortes no FIES, atraso de repasses a universidades, alta de juros, suspensão de financiamentos via BNDES, CEF... eram traduzidos nas manchetes como o começo do armagedon. INCRIVELMENTE, pessoas que se julgam bem informadas, economistas, empresários, não faziam relação com as notícias (ok que eram sempre discretas) sobre as exigências do Congresso para liberar o Orçamento da União.
Sem a liberação, que deveria ocorrer em dezembro passado, o dinheiro ficou retido, deixou de circular, o que piorava dia a dia com a arrecadação de impostos que retirava cada vez mais os recursos de circulação. Ações evitam e revertem crises, mas são em número infinitamente maiores e mais fáceis aquelas com o poder de criar crises.
Quem promove a sangria atual do mercado? Aqueles que estão a salvo de seus efeitos, que nada perdem, os que só tem a ganhar. Observe como vive um deputado ou senador: Moradia, saúde, combustível, material de politicag... ops.... material de trabalho, altos salários, décimo terceiro e décimo quarto garantido, auxílio paletó...
Para esses o cinto nunca aperta. O Brasil tem o Congresso mais caro do Planeta, com 7,5 Bilhões de reais jorrando nos gabinetes anualmente, faça chuva ou sol.
Nosso judiciário, também um dos mais caros do planeta, criou no ano passado o auxílio moradia com a finalidade de abrigar inclusive juízes já muito bem abrigados em suntuosas moradias próprias. Somente esse benefício consome 1 bilhão de reais anualmente. Não é muito se comparado à estrutura que atende apenas 11 ministros (STF) e custa mais de meio bilhão de reais ao país.
Já a imprensa... esse é um assunto que demanda um livro, impossível descrever num mero artigo. Mas como rápida pincelada, as anomalias brasileiras são ocultadas por aqueles que, em tese, deveriam revela-las. Sobretudo as anomalias da imprensa, um emaranhado de empresas de nomes diferentes que no final reproduzem as palavras de um número de famílias que daria para contar nos dedos da mão, sem usar todos eles.
Palavras impressas ou transmitidas por ondas, formadoras de “opiniões próprias” que na verdade são fincadas pela repetição infinita de inverdades que se tornam verdades incontestáveis, rendem no Brasil mais do que minério, gado, agronegócio, ouro... Os Marinho, só para ficar num exemplo, fizeram da opinião o produto mais rentável do país, tornando-se a maior fortuna dentre os 200 milhões de trabalhadores e produtores brasileiros, uma fortuna sabidamente oriunda dos cofres públicos.
Como se pode notar, o jornal custa pouco, somente algumas moedas. Caro mesmo são as informações que inventam ou escondem, sempre ao gosto do freguês que vence o leilão.
Enfim... Haverá ou não um golpe no Brasil?
O andar da carruagem não deixa dúvidas de que a alta esfera do judiciário e Legislativo já têm justos e contratados os termos do acordo, ocupando-se agora dos retoques nas cláusulas, como quem fica com qual fatia do poder e do erário. Mas o final de toda história é sempre imprevisível, pois é o imponderável que escolhe onde quer entrar para brincar de surpresinhas, muitas vezes surpresinhas macabras.
Ainda que boa parte da população, e sobretudo dos que traçam os acordos para o pós-golpe, não tenham ainda se dado conta das consequências, bom lembrar que onde há golpe há sempre risco de contragolpe. Na tentativa de vencer a guerra política que pintam de diversos matizes para o público, a oposição pode acabar tornando uma mentira contada mil vezes numa verdade, e o golpe que começa pela direita pode vir a terminar como um golpe consolidado pela esquerda.
De todo modo, empresários e trabalhadores é que deveriam exigir do Congresso o fim da sangria, pois enquanto assistimos o desenrolar de uma guerra política pelos noticiários, não reparamos que nada muda no cenário de poltronas acolchoadas dos salões do poder, e sabemos bem que nem é esse o propósito. Por lá o cafezinho continua quente e bem servido.
A única mudança de fato acontece nas vendas das nossas empresas, nos nossos saldos bancários, na baixa registrada em nossas carteiras de trabalho, nas viagens que deixaremos de fazer com a família, no carro velho que deixaremos de trocar pelo novo. Porque, afinal, ninguém é ingênuo de pensar que esse repentino levante de políticos tradicionais tem algo a ver com o país ou com o povo.
Ao fim e ao cabo, somos os soldados que tombarão no campo de combate armado por um imperador decidido a recuperar seu trono, o cetro, o poder e a vida suntuosa, despreocupada e bem servida que sempre teve. Somos os milhares que tombarão pela glória e ambição de poucos. Somos apenas soldados cada vez mais rasos. Só isso, e nada mais."
Míriam Moraes - Jornalista política, autora do livro Política - Como entender o sistema de poder no Brasil e não ser passado para trás.

(Edição de domingo, jornal Diário da Manhã) 

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