CEZAR CANDUCHO

terça-feira, 28 de julho de 2015

Cunha enfrenta denúncias com a galhofaria dos irresponsáveis.

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O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) está para ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República. Todavia, descarta possibilidade de se afastar do cargo mesmo se for encaminhado à Justiça por envolvimento na Operação Lava Jato.
“A eventual denúncia, se ocorrer, terá de ser apreciada pelo plenário do STF. Não cogito qualquer afastamento”, disse Cunha em entrevista ao jornal Folha de São Paulo.
No primeiro dia útil desta semana, o presidente da Câmara foi alvo de protesto em frente a um hotel da capital paulista, onde participava de evento com empresários do país.
Os manifestantes portavam uma faixa com a inscrição “Fora Cunha”, pedindo o afastamento do deputado federal da presidência daquela Casa Legislativa.
Cunha tem apanhado de todo lado. Grandes jornais, uma miríade de blogs políticos, centenas de milhares de pessoas nas redes sociais e até os próprios pares do deputado atropelam-se para ver quem bate mas em uma figura que representa como poucos a esperteza, os conchavos e a impunidade de setores da classe política.
Contra o deputado pesa uma tonelada de ações judiciais acumuladas ao longo de sua vida política, mas, nos últimos dias, surgiram denúncias de delatores da operação Lava Jato no sentido de que o presidente da Câmara pediu/exigiu e recebeu ao menos 5 milhões de dólares de propina.
Cunha está preocupado? Não parece. No dia em que a denúncia dos 5 milhões ganhou destaque ele apareceu na televisão e no rádio, em rede nacional, falando dos feitos de sua gestão espantosamente reacionária e irresponsável, que brinca com as contas públicas no exato momento em que o país precisa ajustá-las a qualquer preço.
Na semana passada, apesar de a Casa Legislativa que preside estar em recesso, estava lá fazendo sua lição de casa política.
Presente quase todos os dias na Câmara dos Deputados, o peemedebista está aproveitando os dias de calmaria na Casa para testar sua popularidade. Entre uma saída e outra de seu gabinete vem sendo abordado por turistas e atendendo a todos os pedidos para tirar fotos.
Ao mesmo tempo, Cunha apresentou reclamação ao Supremo Tribunal Federal contra o juiz Sérgio Moro, responsável pela investigação do esquema de corrupção da Petrobras, na qual é suspeito, e levou: o STF proibiu Moro de julgar Cunha antes de aquela Corte deliberar sobre seu caso.
E, como excelente comunicador que é, Cunha decidiu, simplesmente, não falar mais sobre a denúncia de que recebeu US$ 5 milhões de propinas em negócios da Petrobras: “Não falo mais sobre [operação] Lava Jato por orientação do procurador Antonio Fernando de Souza [seu advogado]. Ele acha que eu falo demais”.
Panelaço contra seu pronunciamento na TV, Cunha tira de letra: “Vai ser um aplausaço”.
Apesar de sua aparente autossuficiência, a situação não anda boa para o presidente da Câmara. Segundo a Revista Época, a Procuradoria da República já tem uma “bala de prata” contra ele.
Quando os Investigadores da Lava Jato afirmam ter encontrado a “bala de prata”, aludem a apelido dado a conjunto de provas capaz de sustentar solidamente uma denúncia.
O que mais agrada à Procuradoria é o depoimento do ex-diretor de informática da Câmara Luís Eira. Ele foi ao Ministério Público informar que requerimentos supostamente usados para pressionar uma empresa a manter o pagamento de propina ao PMDB saíram do computador de Cunha.
A versão de Eira corrobora informações do doleiro Alberto Youssef.
Como se não bastasse, antipetistas históricos como o deputado do PMDB pernambucano, Jarbas Vasconcelos, provavelmente um dos maiores antipetistas de Pernambuco, e também peemedebista Pedro Simon, que nunca perdeu uma onda antipetista, unem-se inclusive a tucanos para reprovar o presidente da Câmara.
E, no caso dos peemedebistas, o que se pede é que deixe o cargo.
Enquanto isso, Cunha atua em todas as frentes com desembaraço, confiança e até grandes doses de fanfarronadas. Faz piada. Diz que se a Polícia Federal quiser revistar sua casa terá que chegar após uma hora previamente estipulada de forma a não acordá-lo.
Alguns dirão que oxalá os petistas tivessem a coragem de Cunha, sua cara-de-pau, sua verborragia, sua audácia. Em vez disso, apanham calados, esquivam-se da imprensa, encolhem-se.
O drama é que, além de sua postura pessoal – que se pode ignorar com uma expressão de asco –, Cunha usa a pauta da Câmara dos Deputados para torpedear o governo. Com as contas públicas enfrentando problemas, propõe simplesmente mais aposentadorias para todo mundo. Um verdadeiro liberou geral.
As pautas-bomba de Cunha prometem dificultar ainda mais a governabilidade do país e, de quebra, a vida de cada um de nós, entre os quais a quem ache o máximo sabotar o governo petista, como se cada brasileiro não tomasse na cabeça quando se usa o Estado para guerrilhas políticas.
Enfim, por mais que, politicamente, seja eficaz a forma como Cunha enfrenta seus acusadores devido à sua espantosa capacidade de chegar à galhofa diante dos questionamentos – inclusive recusando-se a fazer o que é obrigação de todo homem público, que é explicar-se – que lhe são feitos, todos sabemos que homens públicos como ele são uma ameaça à sociedade.
As pessoas que se constrangem e até se calam diante de acusações graves até podem ser culpadas – assim como podem ser inocentes, pois não existe culpa prévia –, mas ao menos demonstram compostura.
Cunha adota uma postura profissionalmente marqueteira diante de acusações graves que deveria tratar de explicar com sobriedade. O profissionalismo dele é comum àqueles que sabem muito bem o que querem e estão se lixando para o interesse público.
A postura galhofeira do presidente da Câmara dos Deputados é uma afronta ao país e um desrespeito ao Judiciário, ao Ministério Público e a todos aqueles que o questionam enquanto o investigam. Se ele não quer se dar ao respeito, que ao menos nos respeite.
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