CEZAR CANDUCHO

domingo, 26 de julho de 2015

Luiz Fernando: 'Vemos grandes ladrões chamando o PT de corrupto' - "Temos de conversar com a base e achar uma forma de reagir, porque o que está em jogo é o nosso projeto de Brasil", diz deputado estadual de SP, representante do ABC paulista.

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Luiz Fernando diz que para oposição ter acesso a informações do governo Alckmin é preciso estar nas frentes parlamentares.


São Paulo – O deputado estadual Luiz Fernando (PT), representante do ABC paulista, estreou na Assembleia Legislativa em uma legislatura marcada pelo aumento da bancada de apoio ao governador Geraldo Alckmin (PSDB). De 24 deputados anteriormente, o PT agora tem apenas 14. Quatro meses após a posse, ele diz que a única forma de a oposição ter acesso a informações importantes na casa é pela participação em frentes parlamentares, com objetivo de exercer o papel de fiscalização, "que é a prerrogativa que um deputado tem como membro".
Nesta entrevista à repórter Karen Marchetti, do ABCD Maior, o deputado analisa que o governo e o PT passam por uma crise porque o capital e a elite nunca aceitaram a chegada da classe trabalhadora ao poder, com a eleição do ex-presidente Lula, e critica a onda conservadora no país: "Se a direita puder escravizar os negros e índios, vai fazer".
Lembra que no julgamento do mensalão (Ação Penal 470), prenderam petistas sem nenhuma prova e que não houve reação do partido e do governo. "Erramos aí, e a nossa comunicação é ruim. Somos bom de governar e ruim de nos comunicar."
Sobre uma possível candidatura para a eleição municipal de São Bernardo em 2016 não descartou estar no páreo, mas garantiu que não haverá prévia na cidade. Apoiará o atual secretário de Serviços Urbanos, Tarcisio Secoli: "Se o Tarcisio for escolhido candidato, vou coordenar a campanha dele, se eu for escolhido, o Tarcisio deverá coordenador a minha campanha. Somos amigos e o quero muito bem".
O sr. está no primeiro mandato como deputado estadual. Já é possível realizar alguma avaliação desses primeiros meses na Assembleia Legislativa?
Assumi numa bancada diminuta, pois o PT tinha 24 deputados, o que foi reduzido para 14 parlamentares após as eleições de 2014, diante de uma bancada amplamente governista. Isso nos fez trabalhar com a lógica da qualidade e, por isso, tenho a preocupação de qualificar o meu mandato. Tenho a bandeira da defesa da criança e do adolescente, além da segurança pública, investindo mais em esporte, cultura e educação, o que, com certeza, reduzirá os índices de violência. Durante a campanha, destaquei que se fazia importante termos deputados da região (ABC paulista), pois sempre conquistamos representantes de cidade, mas nunca tivemos parlamentares que pensem regionalmente, como o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. Óbvio que sou de São Bernardo, tenho como líder o prefeito Luiz Marinho (PT), porém, tenho combinado essa ação regional.
E o trabalho nas frentes parlamentares?
Estou em três frentes parlamentares, entre elas, a Frente do Transporte da Região Metropolitana. O grande interesse nessa questão é debater a Linha 18 do Metrô, que atenderá à capital e também São Bernardo, além dos trens, que passam por Santo André e Mauá. Atuar dentro das comissões é a única forma que a oposição tem para ter acesso às informações importantes, com objetivo de exercer o nosso papel de fiscalização, que é a prerrogativa que um deputado tem como membro. Também estou na Frente Parlamentar para discutir a situação do Jardim Pantanal, uma região da zona leste de São Paulo que ano após ano, a gente vê pessoas perdendo a vida, porque é uma área abandonada da capital e tive votos importantes lá, o que me faz debater de forma ímpar na Assembleia Legislativa as ações dos governos federal, estadual e municipal. E, por último, estou na frente parlamentar, que estamos em vias de lançar, para discutir a situação do futebol no estado. Estou em outras frentes parlamentares, sou membro das comissões de Transportes, Segurança e Assuntos Penitenciários, Desportos e da Fiscalização e Controle.
Recentemente, tivemos uma greve de professores em São Paulo e a qualidade de ensino na rede estadual novamente entrou em pauta. A Educação também não é uma prioridade?
Lanço a partir de setembro uma importante ação na Educação, quando iremos buscar um debate junto à sociedade sobre a aprovação automática. Atualmente, o estado de São Paulo educa menos que outros estados do país. O PSDB está sucateando a Educação, os professores ficaram 92 dias em greve e o governador nem sequer os recebeu, dizendo inverdades à imprensa.
Ainda sobre a Educação, tivemos alguns casos de movimentos contrários ao combate à homofobia nas salas de aula, previsto nos planos municipais de Educação. O debate já chegou à Câmara de São Bernardo, e o prefeito Luiz Marinho defende publicamente a diversidade. Como tratar a questão no ABC e também no estado?
Acho que foi um equívoco e tenho uma opinião isolada dentro do PT sobre este debate de ideologia de gênero, pois tenho assistido no país um detrimento dos planos municipais de Educação. Religião não se discute com Educação. Como cristão, sou uma pessoa contra a intolerância religiosa. Hoje esse debate está se acirrando de tal forma na questão da homofobia, que é um absurdo que haja apologia a essa prática, e isso passou a se misturar à religião. Tenho certeza que isso é um equívoco e, como cristão, diria que o meu Deus veio ao mundo e amou. Então, é função do cristão amar o homossexual e amar ao seu próximo. Mas acredito que no caso do Plano Municipal de Educação, esse tema veio errado, num momento inoportuno.
Outro tema que entrou em pauta no Brasil, diante da escalada conservadora, é a redução da maioridade penal. Este tema passa pela Assembleia Legislativa?
Primeiramente, quero dizer a respeito dessa tramoia que ocorreu em Brasília, já que esse assunto foi debatido exaustivamente na Câmara dos Deputados e, democraticamente, os deputados federais rejeitaram a diminuição da maioridade penal. Contudo, você pega um absolutista como (o presidente da casa) Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que perdeu na votação e fez alguns arranjos para colocar a pauta novamente em votação. Defendo que o Brasil não chegue a esse ponto. Agora, o sistema prisional do Estado de São Paulo já está falido. Para se ter uma ideia, em São Bernardo, temos um CDP (Centro de Detenção Provisória) e o Ministério Público mandou soltar ou transferir presos, pois está superlotado. Então, imagine colocar jovens nesse cenário.
Já nas últimas eleições, o PT teve dificuldades no estado de São Paulo, com redução da bancada. Como organizar o partido para as próximas eleições municipais?
Em São Paulo, perdemos a eleição em todos os níveis. Perdemos a eleição para presidente, para governador, perdemos a nossa vaga no Senado e perdemos dez deputados federais e outros dez deputados estaduais. A grande verdade é que desde que um operário e trabalhador virou presidente da República houve uma inversão de valores. A classe trabalhadora chegou ao poder, mas o capital e a elite nunca aceitaram isso. O presidente Lula vem e faz uma grande distribuição de renda por meio da valorização do salário mínimo com participação direta do prefeito Luiz Marinho, na época como ministro do Trabalho, e quem pagou foi a elite. No entanto, hoje vemos grandes ladrões chamando o PT de corrupto. No mensalão (ação penal 470), prenderam companheiros nossos sem nenhuma prova e o partido não reagiu; o governo não reagiu. Erramos aí e a nossa comunicação é ruim. Somos bom de governar e ruim de nos comunicar. Temos de conversar com a base e achar uma forma de reagir, porque o que está em jogo é o nosso projeto de Brasil. Se a direita puder escravizar os negros e índios, vai fazer.
E a disputa municipal no ABC paulista?
Queremos retomar Diadema e, ao mesmo tempo, manter o PT em São Bernardo, Santo André e Mauá. Em São Caetano, queremos reeleger o prefeito Paulo Pinheiro (PMDB), pois temos sido parceiros do governo dele. Vamos debater Ribeirão Pires, se teremos candidatura própria, e em Rio Grande da Serra temos um nome forte, que é o Claudinho da Geladeira, mas o PT precisa analisar nessa cidade como vai se comportar. Há poucos dias tivemos uma reunião chamada pelo prefeito Luiz Marinho com os nossos prefeitos do ABC. Este não é momento de prévia e vontades pessoais, já que o que está em jogo é o modelo de município em 2016 e temos de estar juntos para não repetirmos erros que cometemos em algumas cidades.
E como está a definição do candidato do PT em São Bernardo?
Até o momento, só há um nome na disputa, que é o do Tarcisio Secoli (secretário de Serviços Urbanos de São Bernardo). Não existe qualquer possibilidade de haver prévia em São Bernardo, pois o meu candidato é o Tarcisio. Então as coisas convergem. De qualquer forma, não haverá crise em São Bernardo. Se o Tarcisio for escolhido candidato, vou coordenar a campanha dele, se eu for escolhido, o Tarcisio deverá coordenador a minha campanha. Somos amigos e o quero muito bem.

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