CEZAR CANDUCHO

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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Documentos comprovam política deliberada de assassinatos na ditadura militar.


Sônia e Osvaldão

Jornal GGN - Documentos do acervo da Câmara dos Deputados, mantidos como confidenciais até 2010, revelam que o Comando da Marinha determinou previamente a morte dos integrantes da Guerrilha do Araguaia. Os papéis, de setembro de 1972, são os primeiros registros encontrados da política deliberada de assassinatos, nunca admitida pelos governos do regime militar.
Na lista de mortos na Guerrilha do Araguaia está Osvaldo Orlando da Costa, o famoso Osvaldão. Líder carismático, o negro de 1,98m era ex-campeão carioca de boxe. Os militares o executaram em janeiro de 1974 e penduraram seu corpo em um helicóptero para mostrá-lo aos povoados da região. O corpo foi enterrado em local desconhecido. Outra desaparecida é Lúcia Maria de Souza, conhecida como Sônia. A jovem largou os estudos na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, no 4º ano, para aderir a luta armada. Em outubro de 1973 caiu em uma emboscada na região entre Marabá e Xambioá. Antes de atirarem nela os militares perguntaram seu nome e como resposta escutaram a frase que tornou sua morte célebre: "Guerrilheira não tem nome, seu filho da puta, eu luto pela liberdade!". 
Repórteres MARIA CLARA CABRAL; RANIER BRAGON; JOÃO CARLOS MAGALHÃES; MATHEUS LEITÃO - DE BRASÍLIA
Documentos escritos pelo Comando da Marinha revelam que havia a determinação prévia de matar os integrantes da Guerrilha do Araguaia, e não apenas derrotar o maior foco da luta armada contra a ditadura militar.
Os papéis, de setembro de 1972, relatam a preparação da Operação Papagaio, uma das principais ofensivas das Forças Armadas contra o grupo criado pelo PC do B entre Pará, Maranhão e a região norte de Goiás, que hoje é o Estado do Tocantins.
A documentação a que a Folha teve acesso faz parte do acervo da Câmara dos Deputados. Era confidencial até 2010, mas foi liberado para consulta pública.
"A FFE [Força dos Fuzileiros da Esquadra] empenhará um grupamento operativo na região entre Marabá e Araguaína para, em ação conjunta com as demais forças amigas, eliminar os terroristas que atuam naquela região", afirmam duas "diretivas de planejamento".
Uma delas é assinada por Edmundo Drummond Bittencourt, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais. A outra foi escrita pelo contra-almirante Paulo Gonçalves Paiva. Nas duas, a ordem de "eliminar" os guerrilheiros surge no item "conceito das operações".
Os textos também dizem que seriam feitas ações para "impedir os terroristas que atuam na margem daquele rio de transporem-no para a margem leste, eliminando-os ou aprisionando-os".
A oposição entre "eliminar" e "aprisionar" confirma que o primeiro se refere à morte dos militantes, disse o historiador Jean Rodrigues Sales, autor de "A Luta Armada Contra a Ditadura Militar" (ed. Perseu Abramo).
"No episódio de repressão à militância armada, a política deliberada de assassinatos jamais foi admitida de forma oficial", disse Sales.
Segundo Criméia Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira e estudiosa do conflito, "realmente [ainda] não havia registro disso [determinação prévia para matar]".
Relatório do Exército de 1974, quando quase todos os militantes do PC do B na região haviam sido mortos, fala na "eliminação" das "forças guerrilheiras", mas não de seus integrantes.
Para Taís Morais, coautora com Eumano Silva de "Operação Araguaia" (Geração Editorial), "militar não escreve ordem que não deve ser cumprida".
As "diretivas" corroboram relatos de testemunhas do conflito, segundo as quais, nos anos seguintes, comunistas foram mortos mesmo depois de serem presos.
Em um dos papéis a que a Folha teve acesso, a Marinha fala em oito guerrilheiros mortos "em combate" durante a Operação Papagaio --argumento que sempre foi usado pelas Forças Armadas para justificar mortes de resistentes na região.
Ainda não foi produzida uma narrativa oficial sobre a luta armada durante a ditadura --um dos objetivos da Comissão da Verdade, que o governo quer instituir.
Procurado na terça-feira, o Ministério da Defesa afirmou que, por não ter tempo de encontrar os documentos, não os comentaria.


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