CEZAR CANDUCHO

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Gran Circo de Brasília volta a se apresentar - Bons tempos aqueles em que deputados apresentavam bizarrices inofensivas. Afinal, era só dinheiro público jogado fora. Agora, o jogo é bem mais pesado.

Antonio Cruz / Agência Brasil


Eric Nepomuceno

Na verdade, nem era para haver recesso algum. Mas como dessa atual legislatura pode-se esperar qualquer coisa, suas excelências foram descansar. Retomarão as sessões semana que vem. Será a volta do espetáculo que vem sendo apresentado desde o início do ano parlamentar, em fevereiro passado: não há nem houve, desde a retomada da democracia, memória alguma de um Congresso tão, digamos, bizarro.

É verdade que existem antecedentes. Em 1959, por exemplo, a cidade de São Paulo votou, para vereador, na rinoceronte Cacareco (tinha nome masculino, mas era fêmea) estrela do zoológico local. Cacareco obteve 100 mil votos, ficando num tranquilo primeiro lugar. O segundo candidato mais votado mal passou dos 95 mil.

Já o Rio de Janeiro teve como candidato a prefeito, em 1988, o Macaco Tião. Menos afortunado que sua colega paulista, mesmo porque tentou de saída um objetivo mais elevado – pretendeu a prefeitura, em vez de uma tranquila vereança –, o chimpanzé amealhou apreciáveis 400 mil votos em sua primeira disputa eleitoral. Ficou num honroso terceiro lugar, com 10% dos votos. 

Há, evidentemente, uma diferença abissal entre as votações de Cacareco e do Macaco Tião e as que levaram à atual composição do Congresso Nacional. 

Para começo de conversa, Cacareco não assumiu sua vaga na Câmara de Vereadores de São Paulo. Já o Macaco Tião preferiu voltar ao zoológico, mantendo seu profundo péssimo humor: tinha por hábito jogar excrementos nos visitantes, e uma de suas maiores glórias foi ter sapecado consistente quantidade de merda no mesmo Marcelo Alencar que o derrotou nas eleições de 1988. À sua revelia, tornou a ter seu nome postulado em outras eleições, mostrando sempre um excelente desempenho. Com a implantação da urna eletrônica, em 1996, sua carreira política chegou ao fim (antes, os eleitores anotavam o nome do candidato na cédula eleitoral). Morreu no dia 23 de dezembro de 1996, vítima de diabetes. A prefeitura da cidade do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias.

Levando em consideração essa diferença – nem Cacareco assumiu sua vereança, nem o Macaco Tião foi eleito – o que vemos hoje no Congresso Nacional pode tranquilamente ser considerado como algo muito mais daninho e nocivo ao país.

No Circo armado tanto na Câmara de Deputados como no Senado, as bizarrices assombram. Se votar numa rinoceronte e num chimpanzé foram considerados votos de protesto, como considerar, por exemplo, que o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro seja um mentecapto do calibre de Jair Bolsonaro? E o que dizer de São Paulo ter dado a maior votação a um cidadão chamado Paulo Salim Maluf, que se sair das fronteiras brasileiras será imediatamente preso pela Interpol?

Deixando de lado estultícias inofensivas (quem se dedicar a estudar os projetos de lei de suas excelências correrá o risco de sufocar entre ataques de riso: os nobres parlamentares não têm o menor temor ao ridículo), há declarações e iniciativas que deveriam alarmar o eleitorado. 

Não se trata apenas de constatar o insólito de as duas casas do Congresso estarem presididas por notórios sacripantas – ambos, aliás, sob investigação policial. Demonstrando não dispor sequer de um vestígio de ética e compostura, tanto Eduardo Cunha como Renan Calheiros (este, com experiência anterior: quando se descobriu que uma empreiteira – sempre as empreiteiras... – pagava a pensão de uma filha que ele teve com uma sagaz apresentadora de televisão, renunciou à mesma presidência que agora, levado por seus pares, volta a ocupar) não se sentem nada vexados por continuar ofendendo o país com sua insistência em não se dar por aludidos.

Seus sequazes se esmeram para nivelar-se aos dois. Agora mesmo o nobre deputado Laerte Bessa, do PR (Partido da República!!) do Distrito Federal, fiel sabujo de Cunha, defende que se desenvolvam pesquisas científicas para que seja possível, mais cedo que tarde, detectar ainda no feto abrigado no útero materno eventuais ‘tendências criminosas’. Quando isso ocorrer, a mãe não terá permissão para dar à luz. É ou não é o sonho dourado da eugenia tão buscada por luminares como Adolf Hitler? Não por acaso, Eduardo Cunha o nomeou relator do projeto de lei que reduz a maioridade penal. Se pudessem, tanto um como outro certamente reduziriam essa maioridade a zero, tal como sonha Laerte Bessa...

Com iniciativas que seriam estapafúrdias se não fossem tão absurdas, com parlamentares de semelhante estatura intelectual e moral, Eduardo Cunha promete, na nova temporada do Gran Circo Brasília, uma atuação, sob seu comando, ainda mais trepidante. Reitere-se: a atual legislatura é a mais retrógrada desde a retomada da democracia, há trinta anos. É uma formidável e espantosa reunião de aberrações, comandada pela maior delas. 

Bons tempos aqueles em que deputados se revezavam na apresentação de bizarrices inofensivas, como decretar o dia do carteiro canhoto ou do açougueiro albino. Afinal, era só dinheiro público jogado fora. 

Agora, o jogo é bem mais pesado – e o país parece alheio ao que ocorre nesse circo de horrores, onde não há anões fazendo pilhéria. O que há é um nutrido bando de anões morais.

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