CEZAR CANDUCHO

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

“Paulinho da Força” quebra decoro com apoio a Cunha no Conselho sem Ética.

cunha capa

É um escândalo, leitor. O que está acontecendo na política brasileira é felliniano, bizarro, digno de um Teatro do Absurdo. À luz do dia, sem um mínimo de pudor, grupos políticos promovem barbaridades como a que se ensaia, neste momento, no Conselho de Ética da Câmara.
Revisemos enredo que um Federico Fellini não engendraria melhor.
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, foi denunciado ao STF (Supremo Tribunal Federal) por suspeita de ter recebido US$ 5 milhões em propina do esquema investigado pela operação Lava Jato – ele teve seu nome ligado a contas secretas na Suíça. Em seguida, aparecem provas de que ele realmente tem essas contas.
Para conhecer melhor os detalhes das provas contra Cunha, clique aqui
No último dia 13 de outubro, Deputados do PSOL e da Rede entregaram ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados representação contra Cunha, pedindo sua cassação por quebra de decoro parlamentar.
No dia 5 de novembro, deputado de primeiro mandato Fausto Pinato (PRB-SP), 38 anos, foi anunciado como relator do processo de cassação de Cunha (PMDB-RJ) sob escrutínio daquele Conselho. O parlamentar foi escolhido em uma lista tríplice pelo presidente do órgão, deputado José Carlos Araújo (PSD-BA).
Na semana passada, os partidos indicaram seus representantes para a investigação contra Cunha no Conselho de Ética. O partido Solidariedade (SD) indica o deputado federal Wladimir Costa (SD-PA). Uma semana depois, Costa renúncia “por motivo de saúde” e o Solidariedade indica, para seu lugar, o mais ferrenho aliado de Cunha, Paulo Pereira da Silva, o “Paulinho da Força”, de São Paulo.
Na manhã desta terça-feira (11/11), “Paulinho” dá entrevista tão revoltante à Rádio Jovem Pan que até um antipetista fanático como o dublê de historiador Marco Antonio Villa e sua colega Silvia Poppovic (os entrevistadores) se revoltaram.
Villa e Poppovic se mostram visivelmente perturbados com a fala de “Paulinho”. Sem uma réstia de pudor, sem se preocupar em parecer golpista, ele diz, escancaradamente, que, violando os princípios básicos que devem nortear os membros do Conselho de Ética (impessoalidade e distanciamento), atuará como “defensor” de Cunha.
O deputado paulista diz, na cara-dura, que as provas a favor de seu amigo são “contundentes”. Perguntado por Villa se acredita na inocência de Cunha, cala-se. Ante a insistência dos entrevistadores, “Paulinho” torna-se agressivo e chega muito perto de insultá-los.
Na prática, o amigo – e, proximamente, julgador – de Cunha diz que participará do Conselho de Ética não para analisar o que a lei exige que ele analise como participante daquele Conselho (a culpa ou inocência do investigado), mas para defender o investigado como estratégia para “derrubar” Dilma Rousseff – ele não fala em impedir, mas em derrubar, um termo que remete a golpismo.

É um acinte, um escândalo, uma afronta à lei, à tal “ética” que, supostamente, deveria ser o objetivo daquele Conselho. O objeto desse colegiado deixa de ser a busca REAL da culpa ou da inocência de Cunha e passa a ser a absolvição do investigado antes mesmo da análise de seu caso.
Com essa entrevista de Cunha à Jovem Pan, o Conselho de Ética passa a ser um Conselho sem Ética, voltado para aliviar para o investigado à revelia de qualquer prova de sua culpabilidade, o que conspurca inapelavelmente a imagem não só da Câmara dos Deputados, não só do Congresso Nacional, mas do Poder Legislativo brasileiro.
É exigível e urgente, pois, não apenas a destituição de “Paulinho da Força” do Conselho de Ética.
Além disso, “Paulinho” deve se tornar alvo desse Conselho por clara, insofismável, escandalosa quebra de decoro parlamentar, pois as palavras dele, que o leitor acaba de ouvir, dizem, “apenas”, a enormidade de que tal Conselho é uma farsa.
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