CEZAR CANDUCHO

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O tempo e o vento no tempo - Enquanto a Operação Lava Jato continua atrás do governo e do PT, o presidente da Câmara continua sentado incólume em seu trono.

José Cruz / Agência Brasil


José Carlos Peliano


Sim, tomei emprestado o título de Érico Veríssimo, depois de manuseá-lo e obter um outro. Mas o espírito da coisa pode ser o mesmo, dependendo de como se lê e como se imagina.


A ideia é destacar o princípio do aqui e agora, da urgência, em consonância com o princípio da câmera lenta, do escoamento. Um nos impele a não perder tempo, o outro a ver o tempo passar do jeito que for.


Depois dos 50 ou dos 60 anos quando a gente toma consciência, de fato, de que o tempo vale tempo, a vida nos pede urgência, mas também câmera lenta. Uma contradição em termos que em seus termos deixa de ser contradição.


A urgência é para superar etapas já percorridas mas encostadas em nós por outras demandas que não as nossas. A câmera lenta é para desfrutar do que ainda não percorremos e está a nossa porta para começar a caminhar.


Há que se levar um saco de paciência junto para superar os transtornos e um bom vinho de insuperável safra para brindar com outros como convém a comunhão de interesses, ideias, ideais, momentos.


Não querendo estragar o texto, mas já estragando, vamos aos fatos. Enquanto a Operação Lava Jato continua atrás do governo e do PT, pois é isto que se depreende das decisões e se lê todos os dias em matérias imbecis ou requentadas, o presidente da Câmara continua sentado incólume em seu trono carregado de ações, denúncias e que tais, e nada.


Ou por outra, enquanto a mídia em sua rotineira “comídia” continua a defenestrar o governo e o PT, de novo por manchetes chulas e desavergonhadas, ela vende gato por lebre, espalha pessimismo, abismo, ajuda a derrubar as ações e levantar o dólar, barateando ainda mais a riqueza do país, e nada com ela acontece. Onde orbita o Ministério Público?


Nada acontece mesmo porque, por exemplo, a dívida da Rede Globo com a Receita, estimada hoje em modesto R$ 1 bilhão, continua do mesmo jeito que estava quando foi autuada anos atrás, parada em alguma gaveta. Até na tardança da Justiça os ricos levam a melhor.


Pois, então, esses fatos apenas tumultuam ainda mais nossa urgência em tentar resolver essas idiossincrasias brasileiras o mais rápido possível. Não tem cabimento, diria minha avó, um país assim, como esse, entregue ao vento. Se ventar muito esparrama mais sujeira para todos os lados.


E todos nós depois dos 50 e 60 que já buscamos uma rede debaixo de um coqueiro, sem o próprio fruto evidentemente para não desprender lá de cima em cima de nós, ou debaixo de uma boa varanda, na praia, ou na montanha, acabamos ficando sem a rede, o coqueiro, a praia e a montanha.


Porque os coxinhas, os globelezas, os midiáticos, os assacadores, enfim toda essa fauna grotesca, não nos deixam relaxar, tomar um vento com tempo ou sem tempo. Temos que voltar às trincheiras para defender o estado democrático de direito, não de delações sem eira nem beira.


Um trecho de um poema meu diz assim: os que veem inverno e primavera verão outono. Será que nós, cinquentinhas e sessentinhas, teremos a devida e merecida paciência em câmera lenta para ver as estações nos seus devidos ritmos e apogeus?


Digo isso porque do jeito que a coisa anda, já faz um ano, parece que estamos vivendo uma prolongada subestação do tempo, não uma das clássicas estações, mas a lameira. Lama para todo o lado, verdadeira ou não. Como pode um país ficar assim por tanto tempo?


Depois querem cobrar ação do governo para impulsionar a economia, como? Se as armas da oposição, da mídia e de vários procuradores estão apontadas contra o governo eleito ou seus apoiadores? Como limpar a barra da recessão sem um mínimo de conversa com eles se o presidente que eles queriam não ajuda em nada, pelo contrário não fez nada em um ano a não ser reclamar, ameaçar e espernear.


Aliás, desde a míngua em que se encontra as bravatas do impedimento da presidenta que o presidente deles está quieto, não diz palavra. Ou tramando outra ou arrumando suas coisas para não sobrar alguma para ele.


Rola uma certa desesperança no ar por conta da subestação lameira em seu apogeu porque ela sempre existiu acobertada nos corredores, gabinetes, redações e pastas rosas. O ar está poluído por gente que não tem pressa em retirar as manchetes de lama, ou as denúncias, ou as delações ou a estratégia de vingança. Sangrar com lama a dignidade da nação.


Dia desses um Juiz da Vara de Execuções Penais de Pernambuco me disse que o estado geral das penitenciárias é igualmente um lamaçal. Há muito dinheiro num fundo destinado à recuperação das penitenciárias mas nada.


Pois bem, esse Juiz me contou uma triste estória. Um condenado por tráfico de drogas, bagrinho, foi solto por bom comportamento depois de um certo par de anos. Um belo dia volta ao gabinete do Juiz para falar com ele. O magistrado se espantou pelo inusitado.


O indigitado diz que estava há 6 meses procurando emprego, mas nada conseguiu porque não lhe cediam vaga por ser ex-presidiário. Como era pobre, de família idem, sem recursos fora biscates, não via alternativa a não ser voltar às drogas. Tinha que comer, pagar aluguel e demais despesas. Despediu-se dizendo até daqui uns dias meu Juiz!


O próprio Juiz reconheceu a gravidade do fato, compadeceu-se, mas não teve o que dizer. Apesar de se juntar a outros juízes para ver como reverter esse quadro caótico dos presídios e dos libertados.


O tempo e o vento no tempo ainda não tem ajudado a nós dos 50 e 60. Se a esperança venceu o medo anos atrás, agora o medo mina a esperança. É lama muita para todo lado. Haja limpadores de ruas, faxineiras e que tais para ajudarem a tornar a nação mais limpa.


Uma coisa é certa: na atual conjuntura não há nada certo. Conseguiram desacreditar jovens, irritar adultos e desesperançar velhos. Há que continuarmos pelo menos indignados que é uma forma de não nos curvar ao rolo compressor. A indignação é a nação digna indignada.


Como nos lembrou o saudoso Manoel de Barros é preciso repetir, repetir, até ficar diferente, repetir é o dom do estilo. Pois é isso, indignar, indignar, até encontrar uma alternativa de derrubar a visão única dos privilegiados. Principalmente os que mamam nas tetas do governo atrás de benesses e favores mas se gabam de estarem na iniciativa privada! E ainda assim falando mal do governo.
 
*colaborador da Carta Maior

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