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quarta-feira, 16 de março de 2016

Delação Delcídio: Versão unilateral com um rastro que leva à era FHC - A delação premiada do senador Delcídio do Amaral, homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (15), é um depoimento repleto de retalhos. Ao que tudo índica, ele falou mais do que foi perguntado. E esse depoimento excedente pouco importou para os investigadores, reforçando as críticas que acusam a Lava Jato de seletividade.

 


Por Dayane Santos



Diferentemente da linha de investigação, o depoimento de Delcídio deixa diversas pontas em aberto. Assim como em outros depoimentos de delatores presos, Delcídio reafirma fatos que até agora não foram apurados pela Lava Jato que, definitivamente, se transformou numa investigação contra o PT.

Delcídio cita diversos partidos e personalidades políticas. Confessa que a porta de entrada para o esquema na Petrobras foi a indicação para a diretoria de Gás e Energia da estatal, durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, período esse em que era filiado ao PSDB. Foi também nesse período que conheceu Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras e delator da Lava Jato.

Cerveró era funcionário de carreira da estatal. Entrou na empresa por meio de concurso público em 1975. Em 1998, ele coordenava a assessoria de Novos Negócios e Parcerias da estatal e, em 1999, passou a ser gerente de Projetos em Termelétricas, área sob forte influência de Delcídio.

No depoimento, o senador disse que “foi convidado para ser Diretor de Gás e Energia pelo então Ministro de Energia Rodolpho Tourinho”, ainda no governo FHC. Tourinho, falecido no ano passado, foi ministro de Minas e Energia de 1999 a 2001, quando também exerceu a presidência dos Conselhos de Administração da Petrobras, Petrobras Distribuidora e Eletrobras.

Ele conta que deixou a diretoria da Petrobras em 2001, portanto às vésperas de um ano eleitoral, para assumir um cargo na Secretaria de Infraestrutura do Estado do Mato Grosso do Sul, no governo de Zeca do PT, pois tinha pretensões de sair candidato a uma vaga do Senado, em 2002. Ou seja, durante todo o governo de FHC, Delcídio permaneceu na diretoria da Petrobras, tendo Cerveró como seu braço direito.

Quando se elegeu senador, Delcídio manteve Cerveró na diretoria da Petrobras, agora como diretor da área Internacional. O senador admite que o diretor foi mantido no cargo por uma ação dele.

“Que o depoente atuou, junto com Zeca do PT e a bancada do PT no Mato Grosso do Sul, na nomeação de Nestor Cerveró para a Diretoria Internacional da Petrobras”, disse ele na delação, afirmando ainda que numa reunião com o ex-presidente Lula defendeu o nome de Cerveró para o cargo.

Cerveró é apontado como o cobrador de propina de vários contratos com a Petrobras. Ele já afirmou que Delcídio teria recebido repasses de US$ 10 milhões sobre contrato de turbina de US$ 500 milhões, em 2001, ou seja, durante o governo FHC. Ele disse que o pagamento foi feito pela Alstom – mesma investigada pelo esquema do trensalão tucano em São Paulo – por conta da compra de turbinas para uma termoelétrica, a TermoRio, no contexto do apagão que ocorreu no governo de FHC entre 2001 e 2002.

Cerveró disse que ele também recebeu suborno da Alstom na compra das turbinas por meio de pagamento em uma conta na Suíça, que foi uma das causas da abertura de um processo criminal naquele país. Cerveró fez um acordo com procuradores suíços e pagou multa.

Quem é o pai de Cerveró

Delcídio disse que não é o pai da criança. Disse que “sabe que um dos maiores escândalos envolvendo a BR Distribuidora foi a aquisição ilícita de etanol no período de 1997 a 2001”.
De acordo com ele, o principal operador desse esquema foi João Augusto Henriques, ex-diretor da BR Distribuidora preso e processado por corrupção na Petrobras, no governo Fernando Henrique Cardoso.

O senador disse que Henriques fazia “operações” na BR Distribuidora para conseguir recursos a partir da variação do preço do etanol nas usinas.

“A forma de obtenção de recursos ilícitos nas operações consistia na manipulação das margens de preço do produto, estabelecidas pela assim chamada ‘Escola de Piracicaba’, ligada à área de agronomia”, diz o termo de delação.

Delcídio também relata fatos ocorridos antes da sua chegada à diretoria da Petrobras. No anexo 11 de sua delação, o senador fala do que chama de “ilegalidades” na gestão de Joel Rennó, que presidiu a estatal de 1992 a 1999, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Ele afirma que tais fatos demonstram que “as ilegalidades nas contratações da Petrobras não são novidades, ou seja, ocorrem há muito tempo”. “Já na época de Joel Rennó ocorriam casos de ilicitudes, em alguns casos para enriquecimento pessoal como também para financiamento de campanhas políticas”, diz o senador.

Um dos episódios relatados por Delcídio diz respeito a contratos entre a Marítima, do empresário Germán Efromovich, e a Petrobras. De acordo com o senador, a Marítima era, no início dos anos 1990, “apenas uma pequena empresa” e, em pouco tempo, teve um crescimento vertiginoso – em boa parte, graças ao fornecimento de sondas e plataformas para a Petrobras.

No caso da P-36 – aquela de naufragou em 2001 durante o governo FHC – seria usada no Campo de Marlin, e foi contratada por US$ 400 milhões. A Marítima atrasou a entrega da plataforma e o valor chegou a US$ 500 milhões.

A mesma manobra foi feita para elevar o valor da contratação nas plataformas P-37 e P-40, gerando um prejuízo total de US$ 270 milhões para os cofres da Petrobras.

No total, a delação de Delcídio tem 254 páginas de depoimento em que ele fala sobre quase tudo, cita diversos nomes, mas é possível verificar que no caso das questões relacionadas ao governo FHC pouco se perguntou.

E apesar do conteúdo extenso, o depoimento de Delcídio segue o roteiro de delações da Lava Jato: uma versão unilateral das conversas supostamente havidas e acusações com base no “me disseram” ou “eu tinha a informação”.
 

Do Portal Vermelho

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