CEZAR CANDUCHO

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TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA., MG, Brazil

sábado, 26 de março de 2016

'Podem investigar o que quiserem, não vão encontrar nada' 'Ou Lula vem como ministro ou vem como assessor, isso ninguém poderá impedir. Nós vamos trazer o presidente Lula para que ajude o governo', declarou Dilma.

Roberto Stuckert Filho/ PR

Darío Pignotti, de Brasília para o Pagina/12


Na noite de sexta-feira, dia 18 de março, após encabeçar um ato diante de centenas de milhares de pessoas em São Paulo, que o ratificou como o dirigente brasileiro com maior capacidade de convocação, Luiz Inácio Lula da Silva foi informado de que sua posse como ministro havia sido suspendida pelo juiz Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.
 
O desembarque de Lula como chefe do gabinete pode servir como um dínamo para um governo sitiado por uma escalada golpista.
 
Na próxima semana, o pleno do Tribunal máximo da Justiça brasileira deverá se pronunciar sobre a suspensão ou autorização para que Lula assuma como ministro chefe da Casa Civil. É óbvio que essa incerteza ajuda a oposição, que busca inabilitar o líder petista.
 
Dilma Rousseff recebeu nesta quinta-feira (24/3) em seu escritório, no Palácio do Planalto, seis correspondentes estrangeiros, entre eles um do Página/12. Na entrevista, anunciou que se o STF não confirmar a nomeação de Lula como ministro, ela o designará como assessor, para que assuma, de uma forma ou de outra, um papel protagonista no governo.

“Ou ele (Lula) vem como ministro ou vem como assessor, isso ninguém poderá impedir, virá de uma forma ou de outra. Nós vamos trazer o presidente Lula para que ajude o governo”.
 
“Lula é, sem sombra de dúvidas, o maior líder do Brasil depois de Getúlio Vargas… eu convidei o presidente Lula para participar do governo há muito tempo, ele sempre foi meu conselheiro…trabalhamos juntos durante seis anos, quando eu era ministra da Casa Civil, mas agora eu quero que ele ajude o governo neste momento de crise.”
 
Golpe institucional e ditaduras
 
“É muito triste lembrar este 24 de março, quando se completam 40 anos do golpe de Estado na Argentina, mas ao mesmo tempo devemos estar felizes de que agora os argentinos tenham um sistema democrático. Os golpes mudam suas características com o passar do tempo. Se hoje houvesse um golpe neste Brasil democrático, seria um tipo de golpe institucional”.
 
Essa foi a primeira resposta da presidenta Dilma Rousseff durante uma entrevista de quase 100 minutos, na ampla mesa de madeira circular do terceiro andar do Palácio do Planalto. Dilma e o ministro das Comunicações, Edinho Silva, se sentaram próximos a uma parede branca onde se vê o brasão da República. Ela pede para ligar o ar condicionado, enquanto os garçons oferecem suco de laranja natural. É uma manhã de calor, típica do outono no cerrado brasileiro: o atípico é que, até o início do encontro, não se viram grupos hostis ao governo e à democracia, acampados em frente ao Palácio, os que aparecem quase todos os dias, para protestar em favor do impeachment, e alguns inclusive pedindo intervenção das Forças Armadas”.
 
“Nós tivemos golpes militares na América Latina, nos Anos 60 e 70, eu sei o que aconteceu na Escola de Mecânica da Marinha (campos concentração usado pela ditadura, em Buenos Aires)… agora não se dão mais golpes como aqueles, a estratégia agora, como neste caso brasileiro, é romper o delicado tecido democrático… alimentam a intolerância… buscam quebrar o pacto (social) baseado na Constituição de 1988”. Ela afirma que “não se pode derrubar um presidente da República legitimamente eleito, a não ser que se prove que ele cometeu crime de responsabilidade. Se não há provas contra mim (para sustentar o impeachment) isso é um golpe, um golpe contra a democracia”, reforçou a mandatária, durante o encontro no qual também participaram jornalistas do The New York Times, Le Monde, El País, The Guardian e Die Zeit.
 
“Esta é uma democracia e temos que reagir de forma democrática. Vamos recorrer a todos os instrumentos legais para deixar claro as características deste golpe. Mas eu recomendo que se perguntem quem está se beneficiando desta situação, muitos dos quais ainda estão escondidos por trás do cenário principal dos fatos”.
 
Enquanto subimos do segundo ao terceiro piso do Palácio por uma rampa helicoidal – projetada pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer, a mesma pela qual Lula e Dilma desceram há 8 dias, quando ele pretendia assumir o cargo de ministro –, um assessor fala do carácter “aguerrido” da presidenta, que se incrementa a medida em que o cerco se fecha sobre o Planalto.
 
Muito mais magra, graças a baterias de exercício em bicicleta todas as manhãs, e pelo estresse de enfrentar uma conspiração por dia, Dilma não tem o semblante de quem está abatida. Talvez o contrário. Sóbria, vestia uma blusa de cor bordô e negra, combinada com um colar dourado, pouca maquiagem, pintura nos lábios, mas não nas unhas.
 
Quando indagada sobre a possibilidade de renunciar, ela alça a voz e responde olhando com firmeza a um dos correspondentes.
 
Renunciar jamais
 
“Querem que eu renuncie? Por que? Por ser uma mulher frágil? Não, eu não sou uma mulher frágil. Minha vida não foi isso. Pedem que eu renuncie para evitar a vergonha de ter que derrubar de forma ilegal a uma presidenta eleita democraticamente”.
 
Ela assegura que os inimigos do governo subestimam sua capacidade de enfrentar as adversidades. “Eles pensam que eu estou completamente afetada, pressionada, desestruturada, e não estou. A verdade é que não estou. Tive uma vida muito complicada. Eu tinha 19 anos (início dos Ano 70, época em que ela militou numa organização armada de resistência à ditadura) quando fui presa, e estive presa por três anos.
 
Aqui, a prisão não era nada leve, era muito difícil, talvez similar ao que houve na Argentina, embora o caso argentino tenha tido o agravante de ter sido mais generalizado que aqui em termos de assassinatos de pessoas. Mas no Brasil também houve mortes. Eu lutei naquela época, em condições muito mais duras que as de hoje, que estamos em democracia. Esta situação de hoje é mais segura. Eu vou lutar, não vou renunciar, para me tirar daqui vão ter que provar (que houve crime de responsabilidade). Por isso digo que temos que reagir, por isso a consigna daqueles que me apoiam é `não vai ter golpe´”.
 
Dilma lembra que o mentor do processo de impeachment contra ela é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dono de várias contas comprovadas na Suíça, nas quais foram depositados cinco milhões de dólares, fruto de possíveis esquemas de suborno para mediar contratos na Petrobras.
 
Dilma contrasta a situação de Cunha, sobre quem as investigações não avançam, com o fato de que desde que começou o seu segundo governo, em 2014, foi criada o que ela considera uma campanha para derrubá-la, com acusações insustentáveis. “Eu fui investigada devida e indevidamente pela imprensa e por todo mundo. Podem investigar o que quiserem, não vão encontrar nada”.
 
Ela considera o impeachment “muito frágil em termos legais”, e recorda: “esse processo surgiu quando o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, disse que se não votássemos contra uma investigação contra ele, colocaria o processo de impeachment na pauta”.
 
“Não tenho sentimento de culpa. Aqui no Brasil, você pode ser preso por ter cachorro ou por não ter, então não sei qual é a resposta correta. Sei que me criticam por não estar deprimida. E eu tenho dormido muito bem. Me deito às 22h e me levanto às 5h45”.
 
Palácio sitiado
 
Segurança reforçada, agentes colocados em pontos estratégicos da Praça dos Três Poderes, no centro da cidade, controles de metais mais rigorosos para a entrada à sede de uma administração que, sitiada, se torna trincheira da defesa da democracia. “Não passarão”, garante a chefa de governo, assumindo que o gigante sul-americano está diante de uma eventual guerra política de desfecho incerto.
 
Tanto ela quanto seu companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, “o maior líder político” do país, chegaram à conclusão de que o campo opositor – juízes, meios de comunicação, banqueiros e partidos conservadores – desde o começo de março, passou a agir para desestabilizar o país, combinando manobras de obstrução no Congresso com denúncias espalhafatosas e sem fundamento, um golpismo sem rodeios.
 
Junto com esse crescimento das forças pró-impeachment, também surgiu o protagonismo do juiz Sérgio Moro, uma espécie de templário contra a corrupção e adversário jurado de Lula.
 
No dia 16 de março, esse magistrado de primeira instância interceptou uma ligação de Lula e Dilma, e poucas horas depois entregou o conteúdo à opositora Rede Globo de Televisão.
 
Segundo Moro, a presidenta e seu correligionário fizeram um acordo antecipar a nomeação de Lula, para que ele, como ministro, tivesse foro qualificado, e pudesse burlar a Justiça.
 
Fascismo
 
Dilma Rousseff discorda do juiz Moro. Ela sustenta que o grampo telefônico e sua posterior divulgação foram uma forma de alimentar a ira dos opositores, que voltaram a ocupar as ruas no mesmo dia 16.
 
Segundo ela, alguns setores que aproveitam a efervescência do público para “estimular a violência, a agressão aos ministros (em restaurantes e aviões), aos deputados, e isso tem um nome, isso se chama fascismo”.
 
Membros do gabinete consideram que essa intercepção telefônica difundida por Moro não foi somente uma estratégia para excitar as hordas. Com ela, o juiz também buscou impedir que Lula assumisse o cargo de ministro, no dia seguinte.
 
Após o incêndio causado pela divulgação dos grampos, e as críticas que eles receberam de vários juristas, Moro ensaiou uma justificativa polêmica, ao comparar o ocorrido no Caso Watergate, nos Estados Unidos, nos Anos 70 – quando o então presidente Richard Nixon acabou renunciando ao seu cargo.
 
A comparação do juiz foi refutada por Dilma. “Alegar que o antecedente norte-americano justifica essa ação é ridículo, porque naquele caso, o grande invasor das conversações era o presidente da República (Nixon), que grampeava quem entrava (na Casa Branca), enquanto aqui o que aconteceu foi que um juiz de primeira instância grampeou a presidenta da República”.
 
“A atitude correta (de Moro) deveria ser o envio da gravação ao Supremo Tribunal Federal” que é o único órgão que tem competência para julgar uma chefa de Estado.
 
Sem mencionar o nome do juiz, Dilma criticou o magistrado federal do Paraná, dizendo que comunga da estratégia pregada pela oposição, do “quanto pior melhor”.
 
A interceptação telefônica é algo inaceitável, afirmou a presidenta, e logo arrematou “o juiz tem que ser imparcial, não pode jogar com as paixões políticas”.
 
Trump e Berlusconi
 
Dilma fala sobre os recentes protestos multitudinários contra e a favor do seu governo, ambos mostrando grande capacidade de mobilização. Ela aceita que houve multidões nas ruas, mas que, ainda assim, os mobilizados não chegaram “nem a 2% da população brasileira”.
 
Uma das curiosidades desta rebelião “neocon” é que os protestos contra o governo também registram hostilidade contra a maioria da dirigência partidária opositora. No ato com o maior número de pessoas, realizado no dia 13 de março, quando 500 mil pessoas foram ao centro de São Paulo, os manifestantes revoltados, a maioria gente branca de classe média ou da elite da cidade, não se limitaram a exigir a queda de Dilma Rousseff, e descarregaram sua raiva nos “presidenciáveis” da oposição, o senador mineiro Aécio Neves e o governador paulista Geraldo Alckmin, ambos dos PSDB. Os dois foram impedidos de discursar no evento, sob vaias e gritos que os qualificavam como “corruptos”.
 
O único personagem celebrado na Avenida Paulista foi o juiz Sérgio Moro, que diz pretender realizar no Brasil um processo similar ao da Operação Mãos Limpas, que aconteceu na Itália, nos Anos 90.
 
O advogado e deputado federal do PT, Wadih Damous opina que Moro na verdade a implosão do sistema político para projetar a si mesmo como uma espécie de “salvador da pátria”, ao estilo Silvio Berlusconi, o magnata que emergiu da queda do modelo político italiano após a Operação Mãos Limpas”.
 
Depois de abordar o “clima das ruas” e o que elas dizem, Dilma mostrou que aceita o ambiente onde o Brasil exibe um empate entre as forças democráticas e as destituintes. A presidenta sugere que uma forma de romper esse impasse seria una negociação com a oposição, mas sem chantagens.
 
“Qual é a solução que defendemos? Que se abra o diálogo… mas esse pacto não pode ser realizado por fora da cultura democrática, tem que ser feito dentro do marco democrático. O que isso quer dizer? Que não pode haver tentativas impeachment infundadas. Nesse pacto, é preciso discutir qual é a saída democrática para a crise. Vamos discutir mudanças no sistema político? Vamos combinar o (atual) presidencialismo com um parlamentarismo? Estamos dispostos a discutir a quantidade de partidos que temos, creio que catorze ou mais, e eu acho que deveríamos ter até cinco.”
 
“O mais grave desta crise é essa desconfiança na política, que é estimulada pela oposição, plantando um clima de caos, e depois se cria um `salvador da pátria´. Essa é uma solução autoritária e trágica”.
 
São cerca de 12h30, Dilma encerra a entrevista com um “até aqui chegamos com as perguntas”, e se dirigiu até a saída do seu escritório. Sorridente, ela conta que é um costume que o anfitrião abra a porta, como gesto de que deseja que os convidados regressem.
 
Em meio às despedidas, perguntamos: você falou do fantasma da antipolítica, acha que o Brasil corre o risco de que surja um Donald Trump ou um Silvio Berlusconi?”.
 
“Ai querido, não me faça essa pergunta. Por ser presidenta, eu não posso falar do que acontece em outros países… quando terminar o meu mandato, ou respondo e te digo exatamente o que penso disso”.
 
Tradução: Victor Farinelli

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