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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Haddad e Erundina: um pacto progressista para São Paulo - A batalha por São Paulo não está decidida. Se a esquerda agir, pode afrontar o seu desfecho, e reinventar o do país.

Ricardo Stuckert e Antonio Cruz/Agência Brasil


por: Saul Leblon


A esquerda já governou São Paulo três vezes desde a redemocratização.

Candidaturas progressistas estiveram no comando da cidade em 12 dos cerca de 26 anos desde que a capital voltou a escolher seus prefeitos pelo voto popular, em 1989.

Erundina (1989-2003); Marta (2001-2004) e Haddad (2012-2016) venceram os mais graúdos e emblemáticos porta-vozes da direita paulistana.

É um mito que São Paulo representa o bunker inexpugnável da reação.

O capital tem aqui as suas mais qualificadas fortificações.
 
Mas o trabalho também.
 
O retrospecto mostra que não há favoritismo nesse embate.
 
A cidade concentra cerca de 11,5% da riqueza do país.
 
O dinheiro aqui exerce um poder descomunal: 1% dos paulistanos detém 20% da riqueza da cidade (13% há uma década).
 
Mas nesse moedor vivem  12 milhões de pessoas e quase 7% dos eleitorado brasileiro, um poder político não negligenciável.
 
Existe em São Paulo um aparato ideológico que credencia a capital como a mais importante caixa de ressonância dos movimentos pelo impeachment. 
 
Mas ela sedia também a maior fatia da inteligência brasileira de esquerda, está cravejada de  movimentos artísticos e culturais e rodeada de bairros operários e periferias conflagradas.
 
O emprego industrial que qualificava e organizava as famílias paulistanas assalariadas viajou para a China ou mudou para o interior.
 
Um exército fragmentado de jovens trabalhadores da área de serviços ocupou esse vazio sem  tradição sindical, sem articulação partidária, sem mídia que os explicasse e interligasse. 
 
Dependurados  na história pelo celular.
 
Mas foram eles que sacudiram as ruas de São Paulo nas jornadas de 2013, são eles que tem forte presença nos ‘movimentos de ocupa’ (ocupa terrenos, ocupa cultura, ocupa escola etc), vem deles o vigor que hoje exibem coletivos e trincheiras sociais, a exemplo do MTST.
 
A batalha por São Paulo não está decidida.
 
O colapso do PT e o golpe contra Dilma compõe a narrativa previsível de uma vitória conservadora em outubro.
 
Mas São Paulo reúne forças vivas com peso e desassombro suficientes para abater a direita em pleno voo golpista de suas elites. 
 
Se é verdade que a metrópole condensa a encruzilhada brasileira, não necessariamente deve replicar seu desfecho.
 
Na verdade, pode afronta-lo e assim embaralhar o conjunto.
 
A  aposta que pode  fazer de São Paulo uma alavanca para o Brasil depende de um requisito: o desassombro e a capacidade de aglutinação criativa  das candidaturas progressistas
 
Vale lembrar: separados, Haddad (9% das intenções) e Erundina (11%) estão arriscados a perder a vaga do segundo turno para a dobradinha Marta/Matarazzo (13%). 
 
Juntos, porém, o atual prefeito e a candidata do PSOL somam 20% dos votos na largada.
 
Não tão longe assim dos  30% do líder Russomano, espécie de Trump do arrabalde, que inclui entre as suas propostas erguer um muro policial para segregar a Cracolândia do Brasil.
 
Independente do desfecho  do impeachment, portanto  --que deve ocorrer antes do escrutínio  em São Paulo--  o confronto entre golpe e democracia, entre arrocho e repactuação do desenvolvimento, entre a cidade murada e a cidade democratizada invadirá a disputa pela prefeitura da capital e prosseguirá para além dela.
 
A decisão do Senado será simbolicamente importante.
 
Mas insuficiente para desarmar a radicalização das contradições derivadas do esgotamento de um ciclo de expansão do capitalismo por aqui.
 
Até ao contrário. Uma eventual legitimação do golpe poderá até aprofunda-las.
 
O Brasil vive aquilo que Celso Furtado denominava de ‘as provas cruciais na vida de uma nação’.
 
Talvez as mais cruciais desde o suicídio de Vargas, em 1954, do ponto de vista político.
 
E as mais estratégicas desde o golpe militar, em 1964, do ponto de vista das escolhas do desenvolvimento.
 
A qualidade do material político que o conservadorismo já indicou à apreciação eleitoral dos paulistanos  antecipa no plano municipal a regressão embutida nas iniciativas tomadas e prometidas pelo golpe no plano federal.
 
É dessa matéria prima que a direita brasileira pretende extrair uma candidatura vencedora para fazer da disputa municipal uma plataforma de disparo  ao posto máximo da nação, dois anos depois.
 
Uma tarefa dessa envergadura atribuída a personagens da qualidade de um Dória (leia-se, Alckmin-2018) ou da dupla Marta/Mata (leia-se, Serra-2018) suscita justificáveis apreensões com o que se reserva ao país na etapa seguinte do percurso.
 
Embora antecedida de uma campanha curta e pobre, eleição de outubro em São Paulo caminha para ser um divisor de águas.
 
A ideia de que uma metrópole capitalista desse calibre possa ser administrada pelo livre curso dos interesses privatistas, como preconiza a lógica intrínseca a Dória e Marta/Mata, é o que de mais próximo se pode conceber em termos de barbárie.
 
A mesma com a qual a agenda golpista de um arrocho (em plena recessão) ameaça o país.
 
O conjunto causa certa prostração.
 
Mas o que se desenha não ocorrerá  se as candidaturas progressistas souberem construir acima de suas divergências um ponto de referência ontologicamente ausente do repertório político dos seus adversários.
 
Por exemplo?
 
Uma carta compromisso aos paulistanos para democratizar o poder na cidade.
 
São Paulo não pode mais ser predominantemente um mosaico de ‘zonas livres de democracia’, para usar a expressão feliz de Yanis Varoufakis.
 
Ou ela se tornará a mais pura e convulsiva replicação daquilo que o golpe preconiza para o Brasil: a opressão neoliberal.
 
Para que não seja uma réplica do capital sem lei em concreto, a São Paulo do século 21 precisa de canais mais arejados de participação do que apenas eleger vereadores a cada quatro anos. Ou renovar regularmente o ocupante da cadeira do prefeito.
 
Ainda que isso seja importante, é insuficiente.
 
Uma carta compromisso das candidaturas progressistas poderia incluir, por exemplo, um pacto de consultas e plebiscitos para a cidade deliberar sobre questões decisivas do seu presente e do seu futuro: o espaço do coletivo e do individual no sistema de transportes, com definições assertivas para o eclipse do automóvel; o pagamento da mobilidade dos cidadãos numa trama colapsada pela incúria da especulação; a contribuição do sistema financeiro que aqui tem a sua mais rentável rede de agências  para uma revolução na educação...
 
Etc etc etc 
 
Durante quase toda a sua história, São Paulo foi administrada na contramão dessa lógica.
 
A urbanização caótica que a define, a segregação que a corrói, é a mais perfeita expressão daquilo que os mercados são capazes de produzir, deixados ao próprio arbítrio, como o golpe pretende no resto do Brasil.
 
Não existem panaceias para reverter esse processo.
 
De nada adiantará zerar a tarifa, por exemplo, se o ônibus não andar, retido pela supremacia paralisante do automóvel –como ainda acontece, embora Haddad tenha iniciado uma corajosa ampliação de corredores e faixas exclusivas para ônibus.
 
Ir além de forma ainda mais abrangente e acelerada não é uma escolha de natureza técnica.
 
Ela encerra apostas políticas sérias.
 
Essas e outras que a cidadania deve ter o direito de avaliar e assumir em consultas periódicas e tecnologicamente avançadas.
 
Nada disso acontecerá sem uma rede de comunicação municipal ecumênica, criativa e ancorada em alta tecnologia para resgatar a conversa entre os moradores, hoje abduzida pelo  monólogo da mídia oligopolizada.
 
A fatia do orçamento municipal que deve ser devolvida à população na forma de subsídios é uma das decisões a serem facultadas à decisão plebiscitária dos cidadãos.
 
De quanto deve ser, quais serviços deve contemplar  e para quem deve ir o subsídio?
 
São questões indissociáveis de uma São Paulo mais democrática, pluralista e participativa.
 
Quanto a cidadania se dispõe a adicionar ao IPTU para financiar um orçamento que arremeta saraivadas de democracia contra as muralhas da desigualdade do capital na capital?
 
Soa concebível que alguém com o perfil do idealizador do ‘Cansei’, ou o do ‘do engenheiro de rampas anti-mendigo e de sua nova parceira, possa liderar uma travessia dessa envergadura?
 
Há vivos indícios que não.
 
No final de 2013, centuriões do PSDB foram à Justiça e derrubaram a cobrança do IPTU progressivo proposto por Haddad.
 
A mídia conservadora deu legitimidade ao espírito separatista inscrito no  boicote a um orçamento de convergência social.
 
Como é possível construir uma cidade livre dessa angulação capitaneada por personagens da linha de frente do golpe desfechado contra a democracia social que engatinhava entre nós?-
 
Não é possível e nem eles se propõem a isso.
 
Estamos falando de São Paulo, mas não só de São Paulo.
 
Trata-se de afrontar um déficit histórico de democracia.
 
E tornar isso ilustrativo do que se concebe para o país a partir do que se propõe para a maior concentração de gente, riqueza e emergências existente dentro dele.

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