CEZAR CANDUCHO

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domingo, 4 de setembro de 2016

Lula, o próximo alvo? - O sistema político entra em crise, e levará anos para se recuperar. Em plena campanha pelas eleições municipais, o país já pensa nas presidenciais de 2018.

Ricardo Stuckert/Instituto Lula


Do jornal El Espectador


O Brasil termina esta semana já pensando em seu futuro político próximo. Com a saída definitiva do poder da presidenta Dilma Rousseff, o país já entrou na corrida eleitoral de 2018.
 
Apesar de que a primeira mulher presidenta na história do país não roubou um centavo sequer, e não tem acusações por corrupção contra si, 61 senadores – a maioria investigados por todo tipo de delitos – votaram por acabar com o seu governo, que começou em dezembro de 2011.
 
O encerramento do processo de impeachment também colocou fim à era do Partido dos Trabalhadores. Assim, iniciou-se também o cerco à principal figuro do partido: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o brasileiro mais conhecido no mundo, que conta com um importante apoio popular, que o torna favorito para as presidenciais de 2018 – ao menos é o que diziam as pesquisas até julho.
 
Agora, com uma nova situação política instalada no país, o quadro eleitoral pode se alterar. Na reta final do processo contra Rousseff, a Polícia Federal do Brasil acusou formalmente a Lula da Silva, sua esposa, Marisa Letícia, e também a Paulo Okamoto, que dirige o Instituto Lula. A denúncia atribui a eles os crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.
 
“O estranho é que o presidente Michel Temer e seu ministro de Relações Exteriores, José Serra, foram mencionados nas declarações do presidente da empresa Odebrecht, relativas à Operação Lava Jato, e não foram acusados, e Lula sim”, explicou a analista política brasileira Beatriz Miranda. Ela está convencida de que o grande alvo destas investigações é o ex-mandatário Lula da Silva.
 
Octavio Amorim Neto, doutor em Ciência Política da Universidade da Califórnia e membro da Escola Brasileira de Administração Pública, no Rio de Janeiro, assegurou que “não há dúvidas de que Lula enfrentará grandes dificuldades com a Justiça nos próximos dias”. Porém, ele esclareceu também que “ele deverá ter pleno direito de defesa”.
 
A novela política brasileira está longe de terminar com a destituição de Rousseff. Michel Temer, inimigo declarado de Rousseff, foi empossado ontem como presidente do país, enquanto Dilma deverá deixar o Palácio da Alvorada nos próximos 30 dias.
 
“Já se está se trabalhando para as eleições de 2018, e creio que há fortes interesses em tornar a Operação Lava Jato num mecanismo dedicar a incriminar com mais evidência a Lula da Silva. É muito difícil que ele seja preso, porque é uma figura de nível mundial, mas bastaria cassar os seus direitos políticos, e impedir que ele seja candidato daqui há dois anos”.
 
A Era Temer
 
O sucessor de Rousseff não terá muito tempo para celebrar sua chegada ao poder. Recebe um país com desemprego em níveis altos (mais de 11 milhões de pessoas sem trabalho), inflação galopante e um gigantesco deficit fiscal. De acordo com o Banco Central, a economia brasileira se contrairá 3,16% este ano, o que complica o futuro imediato do país.
 
Este será um dos desafios do novo mandatário. Segundo explica Amorim, “Temer terá, nos próximos dias, uma tarefa difícil: construir alianças no Congresso para aprovar as reformas constitucionais mais complexas, que permitam a retomada do crescimento econômico.
 
Outro grande problema que surge no horizonte é o de um caso judicial pendente contra ele e contra Dilma Rousseff na Justiça Eleitoral. Os dois estão acusados de fraude nas contas da campanha presidencial de 2014. Além disso, no nome de Temer está envolvido no caso de corrupção na Petrobras. Vários acusados mencionaram seu nome em delações recentes. O agora presidente nega qualquer vinculação com os esquemas, e que Justiça nunca apresentou acusações contra ele.
 
O que fica como lição de toda essa crise política? Os analistas brasileiros dizem que o que o sistema político brasileiro, construído nos anos da redemocratização, está ferido. “Devemos fazer uma profunda reflexão como país sobre este sistema político, que está baseado na concertação e na aliança entre os partidos tradicionais. O Brasil está representado por uma classe política que carece de legitimidade”, conclui Miranda.
 
Por sua parte, o analista brasileiro Octavio Amorim afirma que “é preciso agir para reduzir a corrupção nos processos eleitorais que acontecerão nos próximos anos, mas o Brasil ainda precisa de muitas reformas políticas para que isso seja realmente possível. Rousseff não roubou. Ela foi derrubada por manipular ilegalmente o orçamento do governo federal. Entretanto, devido ao peso da queda de Dilma, os políticos acusados de corrupção passarão a viver sob uma intensa pressão”.
 
Tradução: Victor Farinelli

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