CEZAR CANDUCHO

domingo, 4 de setembro de 2016

Manter direitos políticos não atenua o que me fizeram, diz Dilma.



Jornal GGN - Destituída da presidência da República na quarta-feira, 31 de agosto, Dilma Rousseff (PT) comentou nesta sexta (2), pela primeira vez, o polêmico fatiamento de seu julgamento, que terminou por cassar-lhe o mandato sem prejuízo dos direitos políticos.
Segundo Dilma, a autorização do Senado para continuar habilitada para cargos públicos não "atenua" o que fizeram: condenaram uma "inocente", porque não havia base jurídica para sustentar crime de responsabilidade fiscal. Para ela, a cassação foi uma "pena de morte política".
"Essa cassação é de fato a pena principal. Você tem um impeachment sem crime de responsabilidade, afasta a pessoa inocente do cargo e, além disso, tira seu direito politico por oito anos, também sem crime de responsabilidade. (...) [Manter direitos políticos] não acho que atenua o que fizeram. Eu acho que são detalhes. O fato gravíssimo é que me condenaram à pena de morte política ao me tirarem da presidência."
Dilma também alertou que está em curso um processo de autoritarismo e repressão contra movimentos de ruas que cobram a saída de Michel Temer do poder. Desde terça-feira passada, um dia após Dilma ir ao Senado fazer sua defesa pessoal, manifestantes são reprimidos violentamente pela Policia Militar, principalmente em São Paulo, onde uma estudante perdeu a visão, vítima de estilhaços de uma bomba usada pela corporação sob autoridade do governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Além de criticar essa postura contra manifestantes, ela ainda disparou contra a ordem de Michel Temer de "não levar desaforo para casa" sempre que seu governo for chamado de "golpista". "Não é possível que não se possa falar o que se quer, por exemplo, 'Fora Temer'. Não é possivel isso. Quando você tem medo das palavras é que inicia-se o processo opressivo."
A presidente destituída ainda rechaçou a mudança de programa de governo que foi imposta aos brasileiros com a chegada de Temer ao poder. "Acho gravíssimo o fato de que, um programa que não é o eleito pelas urnas, seja executado nos próximos anos.
Em entrevista à imprensa internacional, Dilma explicou o Plano Safra, sobre o qual alegou que a presidência da República não tem atuação direta por força de lei, e também afastou sua participação sobre os três decretos de créditos suplementares usados para acusá-la de crime de responsabilidade fiscal.
Ela disse que o impeachment, na verdade, é um golpe parlamentar dado por forças interessadas em escapar da Lava Jato e implantar um programa de governo impopular no País.
"Está registrada na gravação de Sergio Machado com Romero Jucá, com fala do senador no sentido de 'vamos estancar a sangria' porque, caso contrário, nós seremos atingidos. Estou fazendo leitura livre, mas a ideia é essa: ou tira ela, ou as investigações continuam. Esse é um motor do impeachment. O outro motor é que eu fui eleita com 54 milhões de votos. O projeto que estão aplicando no Brasil não teve votos necessários para que fosse aplicado. Que processo é esse que antes mesmo da presidente sair começam a aplicar um programa de governo sem respaldo das urnas?"
Dilma defendeu alteração na lei de impeachment, para evitar que outros presidentes sejam derrubados por crises políticas, sem fundamentos jurídicos.
Advogado de Dilma no impeachment, José Eduardo Cardozo disse que irá recorrer ao Supremo Tribunal Federal alegando cerceamento da defesa e alteração na acusação no meio do processo, entre outros pontos. Ele, no entanto, defendeu que os direitos políticos de Dilma tenham sido votados em separado da pena de perda de mandato.
FUTURO
Dilma disse que não tem um projeto político eleitoral elaborado para essa nova fase, longe da presidência. Mas disse que terá sempre "disposição" em colaborar para o crescimento do País.
"Não tenho projeto político no sentido eleitoral. Mas tenho projeto político no sentido de fazer oposição a este governo, independente de onde eu esteja. Eu posso ir para Porto Alegre ou para o Rio de Janeiro, onde mora minha mãe. Na semana que vem, vou para Porto Alegre. Pretendo fazer isso no início da semana."
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