CEZAR CANDUCHO

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

2016 não vai acabar tão cedo.

2016
Tecnicamente, o ano “útil” termina em 20 de dezembro. É dia de pagamento de 13º salário, de “amigo secreto” na empresa, de muitos saírem do trabalho direto para a estrada (rumo ao litoral, na maioria dos casos), enfim, é dia em que o Brasil mergulha em uma festança de cerca de duas semanas até o ano acabar.
Medimos a passagem do tempo pelo calendário gregoriano, promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1582 e adotado imediatamente por Espanha, Itália, Portugal, Polónia e, posteriormente, por todos os países ocidentais. Essa fórmula privilegia a crença em ciclos temporais.
A divisão do tempo em semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios serve para criar ciclos a serem encerrados de modo a permitir às pessoas deixarem para trás o que não foi positivo ou circunscrever períodos que deixarão saudade.
Encerrar ciclos é uma necessidade humana, para o bem e para o mal. E para o bem a mudança de ciclo acende-nos a esperança de dias melhores.
Nesse aspecto, chegamos ao fim do ano que, seguramente, foi o pior da história recente deste país – e quando se fala de “história recente” busca-se o período da redemocratização brasileira, uma forma de circunscrever o período de trevas que o Brasil viveu durante longos vinte e um anos.
2016, o ano maldito, o ano do golpe, o ano da consolidação da crise, o ano em que direitos dos trabalhadores e políticas de resgate de pobres e miseráveis começam a ser abandonados, o ano do arbítrio contra profissionais de incontáveis áreas, demitidos sumariamente do serviço público apenas por suas opiniões políticas…
Para os basbaques que acreditaram na pregação golpista de que jogar 54 milhões de votos no lixo faria a economia entrar nos eixos como por mágica, o choque de realidade está sendo cruel.
O fato é que, em 2016, a crise econômica se cristalizou a partir do beco sem saída a que chegou a crise política. Sem solução da crise política não haverá solução para a crise econômica simplesmente porque o investidor não tem mais como ter certeza de quem estará governando o país daqui a um ano e se mesmo um governo novamente eleito pelo povo terá condições de implementar suas políticas, já que, no Brasil, presidentes são derrubados facilmente ao sabor de manifestações de rua e ondas difamatórias.
Eis o drama causado pela crise. E esse quadro se consolidou em 2016. O golpe parlamentar contra Dilma Rousseff tornou o Brasil um país imprevisível, no qual investir passa a ser uma temeridade já que as regras do jogo tornaram-se voláteis por conta de grupos de pressão que hoje são influentes e amanhã não serão nada.
2016 não vai acabar tão cedo. Para encerrar esse ano trágico seria necessário eleger um novo governo e um novo Congresso só para começar a brincadeira.
O Judiciário também precisa ser reformulado, assim como o Ministério Público, pois estão eivados de gente irresponsável e que é capaz de paralisar uma nação em afago às próprias idiossincrasias políticas ou interesses políticos de grandes grupos empresariais de comunicação.
A sinalização popular sobre as eleições de 2018 revelada pelas pesquisas de opinião tampouco colabora com o encerramento deste ano fatídico. Apesar de a esquerda ser ampla favorita para próxima eleição presidencial, os principais candidatos figuram em investigações de corrupção.
A forma como essas acusações são feitas e espalhadas muito antes de qualquer conclusão da investigação faz a economia mergulhar em um eterno compasso de espera por conta do que pode ou não vir a acontecer a depender de quem forem os candidatos.
E o que é pior: esse cenário político-eleitoral favorece – e muito – o surgimento de algum malandro que capture a insensatez das multidões gerada pela crise econômica, pela incerteza e pelo medo do porvir.
O conclave punitivista que instalou essa “revolução francesa” ao contrário, em que os ricos se insurgem contra os pobres, tem que entender que o Brasil precisa de um tempo para respirar e estabelecer um pacto político em prol do interesse de todos. Esse é o primeiríssimo passo para encerrar 2016.
Os passos seguintes serão a eleição de um governo e de um Congresso de legitimidade inquestionável e a modificação de órgãos de controle como MP, PF etc. para que interrompam a atuação político-partidária e ideológica que vêm exibindo despudoradamente.
Quanto tempo irá demorar para que tudo isso aconteça? Se me perguntarem, direi que isso é trabalho talvez para uma década. Muitos de nós poderão nem estar mais neste universo quando tudo isso ocorrer. A menos que alguém consiga instilar um pingo de bom senso nessa direita psicótica que está se suicidando sem saber
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