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domingo, 25 de dezembro de 2016

O povo nas ruas: capitalismo, desigualdade e democracia - As pessoas, notadamente jovens, se revoltaram com os rumos do capitalismo em seus países e se expressaram contra desmandos, erros e desvios políticos.

nymag.com


José Carlos Peliano*

Os movimentos de ocupação das ruas, os chamados Occupy, tomaram lugar em alguns países de início em 2011 se espalhando depois para outros tantos países, em manifestações volumosas. Inauguraram novos caminhos para as insatisfações sociais e se repetiam nos mesmos lugares ou noutros a depender das bandeiras prementes ou ocasionais.

As pessoas, notadamente jovens, se revoltaram com os rumos do capitalismo em seus países e se expressaram contra desmandos, erros e desvios políticos e econômicos. Cujas consequências traumáticas foram o desemprego ou a falta de trabalho, salários baixos, alugueis caros, assistência social decadente, educação sem futuro, dívidas colossais e juros altíssimos, entre outros.

Começaram no norte da África na deposição de ditaduras na Líbia, Egito, Tunísia e Iêmen, seguindo para a Europa com ocupações, distúrbios e/ou greves na Espanha, Grécia e Londres, ainda Portugal e França, posteriormente no Chile, Nova Iorque (Wall Street) e Rússia.

A inquietação social ganhou força e consistência política em torno do principal mote que foi a luta contra as injustiças e desigualdades provocadas pela expansão avassaladora do capitalismo no mundo. As pessoas não se contentavam mais com as promessas de seus governos, foram às ruas juntarem-se a outras milhares para bradar mais alto e em uníssono suas decepções e angústias querendo soluções imediatas.

Passou o ano da primavera popular mundo afora, no entanto, e os movimentos se arrefeceram. David contra Golias. Repressão policial, distúrbios localizados, detenções e até mesmo lesões corporais acabaram por arrefecer os ânimos dos insatisfeitos e as manifestações perdendo força e momento.

No Brasil, as manifestações chegaram de início contra os aumentos das passagens de ônibus em São Paulo, posteriormente contra o governo por conta das dificuldades econômicas. Insufladas politicamente pela grande mídia e desiludidos pela perda da eleição presidencial, elas acabaram se dividindo: umas contra o governo, outras em sua defesa. O país partiu-se praticamente ao meio.

Por trás de todas elas, no entanto, é possível encontrar um ponto em comum, apesar das maquinações políticas de ocasião. Trata-se ele da falta de perspectiva e renovação da expansão capitalista no mundo, mais marcante em determinadas regiões que noutras. O sintoma mais grave e crônico é o aumento generalizado da desigualdade social.

A velha e surrada constatação de que muitos ganham pouco e poucos ganham muito continua a prevalecer cada vez de forma mais agravada em todos os países com seus diferentes perfis sociais e econômicos. As pessoas se sentem, então, desprotegidas, desamparadas, angustiadas e se revoltam, cada qual a sua maneira. O que as manifestações fazem é reuni-las em torno do mesmo bordão: abaixo o capitalismo reinante!

É correta a revolta contra as injustiças e as desigualdades do capitalismo. Igualmente as manifestações que buscam unificar suas insatisfações sociais, econômicas e políticas. O povo se faz presente nas ruas para defender seus direitos de trabalho, renda e vida digna, cada vez mais destruídos pelos juros astronômicos, dívidas impagáveis,  desconstrução do estado social e representação política frágil e caótica.

Mas talvez o alvo das insatisfações não seja única e preferencialmente o capitalismo como tal, mas antes dele a própria cara e roupagem da democracia. O conceito de que ela é o governo do povo, pelo povo e para o povo, não resiste hoje a um mínimo de escrutínio e avaliação.

Ao povo, em geral, o resto que sobra do farto banquete de um sistema onde, umas mais outras menos, mandam e desmandam as corporações, o sistema bancário-financeiro, as instituições representativas do estado, da justiça e da sociedade, a grande mídia e os organismos internacionais.

Acaba que a energia de manobra e atuação do povo fica reduzida a espaços exíguos. Um emaranhado de leis, decretos, portarias, disposições gerais e transitórias, que pode manter e perdurar uma determinada situação social, econômica ou política, dificulta, limita, impede e até mesmo processa e condena qualquer pessoa. A depender do autoritarismo ou da democracia em vigor.

Ao fim e ao cabo, no cenário mais autoritário, a pessoa não pode até mesmo dizer nada em contrário ao que o governo faz porque pode ser admoestada, ameaçada, perseguida. Nas democracias modernas, o povo fica acuado e em muitos casos perde a vez, a voz e a esperança.

Resulta daí que é o modelo de democracia que deve e precisa ser alterado. Renascer como realmente o governo do povo, pelo povo e para o povo, não somente de representantes, nomeados e com plenos poderes. Democracia direta deve tomar aos poucos lugar da democracia representativa onde e quando ela fizer por si condições de florescer.

De fato, o conceito universal de democracia não comunga com o sistema capitalista. Tanto é assim que a estrutura institucional e política criada e montada para conviver com o capitalismo é excludente, impermeável, autoritária e punitiva. É a redemocratização das sociedades que levará à redução das desigualdades no capitalismo e a convivência solidária entre todos.

Aí a democratização vai se alimentar não só dos movimentos sociais, mas também das manifestações e das posturas de desobediência civil. O objetivo, o intuito, a energia e a força são os de contestar os governos, defendendo e exigindo seus direitos e mostrar que o povo deve finalmente ter vez, voz e esperança.

Essa tomada de posição é mais urgente e necessária ainda em governos corruptos como alguns desse mundo afora. Inclusive com o daqui com os escândalos que diariamente são noticiados, vazados  ou sabidos pelos corredores. Desempregados, minorias, injustiçados, explorados, destituídos, todos os que são deixados de lado pelo sistema têm seu lugar nesse cortejo de luta e mudança.

A verdadeira democracia rima com redução constante e progressiva das desigualdades sociais e acaba preparando e compondo novo soneto para o capitalismo, onde o trabalho seja valorizado e revalorizado como produtor primordial da riqueza nacional. E esta seja redistribuída em molde cada vez menos injusto e desigual entre todos.

*colaborador de Carta Maior

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