CEZAR CANDUCHO

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Brasil desfruta da santa paz dos cemitérios.

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Seria de alegrar a alma se a realidade por trás das aparências não fosse tão desoladora e cruel. O cenário é embriagante. Fim de tarde em um bairro de classe média alta de São Paulo, olhando pela janela do nono andar, o que se vê é uma tarde gloriosa, ensolarada e verdejante a partir da vista aérea daquela que é uma das artérias da cidade.
Com efeito, as aparências enganam…

Há algo de muito errado nessas imagens. Estamos em um mês de janeiro, mas há muito não se via a avenida 23 de maio – ou qualquer outra artéria da cidade – com trânsito tão bom no horário de pico.
Por estranho que pareça, as imagens do vídeo acima combinam com o noticiário. É estranho ou não é? Mas é verdade. Confira, abaixo, o índice da Folha de São Paulo de 10 de janeiro de 2017.
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No caderno de política, sete matérias. Nos outros jornais não é muito diferente. Nas redes sociais, tampouco. Tanto nas ruas quanto na imprensa ou nas ondas da internet, a sensação é de estar em uma cidade fantasma.
Ou no Paraíso.
Há uma paz opressora pesando sobre a Nação – excluindo, obviamente, as chacinas de dezenas de detentos (muitos dos quais ainda nem tinham sido julgados) em presídios ou causadas por psicopatas de extrema-direita que exterminam famílias inteiras bradando contra os direitos humanos…
Enquanto desfrutamos dessa verdadeira Pax Romana, no Amapá a polícia política do Regime invade uma Casa Fora do Eixo (coletivo de jovens que promove shows e é também sede do grupo de jornalistas independentes Mídia Ninja) sem mandado judicial e sob alegação de perturbação do “sossego” da vizinhança, o que jamais havia acontecido.
No âmbito do país violento, golpista, clivado por grupos políticos em pé-de-guerra, agrilhoado por uma crise política sem fim, sem saída, sem perspectiva de solução, os atos de monstruosidade ou de indiferença pelo direito alheio se tornam banais.
Um ambulante que teve a infeliz ideia de separar uma briga teve a cabeça pisoteada até o esmagamento por duas feras humanas enquanto os transeuntes mal desviavam o olhar do linchamento que tinham diante dos olhos.
Onde estão as pessoas que deveriam estar nas ruas correndo atrás de produzir para o país sair do buraco?
Onde estão as pessoas que deveriam estar nos parlamentos buscando soluções ou propostas?
Onde estão os ativistas que deveriam estar bradando, nas ruas e/ou nas redes, que não está tudo bem, não, e que não podemos nos dar ao luxo de ir salgar a bunda na praia porque instalaram uma ditadura no país?
Essa paz é falsa, é uma Pax Romana (longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano em 28 a. c.)
O grande risco que os golpes e as ditaduras deles decorrentes oferecem é o que está acontecendo no país, é a acomodação e o desalento, diferentes no conteúdo mas idênticos na forma.
As pessoas desistem de lutar e decidem ir “cuidar de suas vidas”. E é com isso que os golpistas contam, é com isso que os carrascos do povo contam, é com isso que os tubarões capitalistas contam, é com isso que os fascistas contam.
O objetivo do fascismo é justamente desestimular reações aos desmandos dos regimes autoritários vigentes ou pretendidos. Uma vez que você não se rebela mais, que esconde suas opiniões políticas, que aceita de cabeça baixa os desmandos dos novos donos do poder, o objetivo foi alcançado e não há mais necessidade de a militância fascista fazer suas blitz do ódio.
O Brasil ainda está vivendo do pouco mais de uma década de bonança econômica e social gerada pelos governos petistas. Ainda tem “gordura” para queimar. Mas a nova realidade irá se impor quando as reservas acabarem.
Só aí, quando o cinto apertar de verdade, é que as pessoas vão se dar conta de que não deveriam ter se acomodado, pois a viagem de volta à democracia só começará no momento em que a sociedade se der conta de que vai ter que se mexer ou continuará afundando na areia movediça do autoritarismo e da injustiça.
Mexa-se, saia do marasmo, não se desligue de tudo, não vá “cuidar da sua vida”, pois sua vida é seu país, sua vida depende da taxa de democracia por habitante que sua pátria tiver. Os problemas não desaparecem quando você os ignora. Pelo contrário, aumentam.
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