CEZAR CANDUCHO

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domingo, 8 de janeiro de 2017

Brasil já tem 4ª população carcerária e criminalidade só aumenta.

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Por incrível que pareça, a crise carcerária que transbordou do tonel de postergação dos grandes problemas nacionais tem muito a ver com o recente episódio envolvendo o agora ex-secretário Nacional de Juventude dito “Bruno Julio”, que não surpreendeu com bobagem de proporções titânicas que proferiu sobre os massacres de presidiários.
Esse indivíduo não surpreendeu ao pregar publicamente que seja perpetrada uma chacina de presidiários por semana porque integra lista de nomeação de filhos de políticos que o presidente Fora Temer divulgou em junho deste ano.
Somente no primeiro escalão, além de Bruno Julio, Temer colocou o filho do senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), o filho do deputado estadual fluminense Jorge Picciani (PMDB-RJ), o filho do ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) e o filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA).
Só podia dar nisso, nomear pessoas por serem filhas de A ou B. E deu. Houve que exonerar com urgência o imbecil que disse uma enormidade dessas, o que mancharia inapelavelmente a imagem do Brasil em TODOS os organismos internacionais que integra e perante a comunidade da nações…
Por isso, e só por isso, Fora Temer o demitiu. Porque, apesar de pensar igual (considera que o morticínio foi “acidente”), sabe que teria problemas com outros países se mantivesse uma besta como essa em seu governo.
Falando sério: que país democrático tem membros do governo pregando massacres de seres humanos?
E atente bem para o seguinte: ainda que você possa achar que presidiários não são seres humanos, essa sua opinião é uma imbecilidade que faria você passar vergonha em qualquer ambiente civilizado em que fosse proferida.
Mas o que tem o lamentável Bruno Julio e o governo golpista com o título deste post?
O título em questão cita um fato que pouca gente sabe, ou seja, que apesar de o Brasil ser o quarto país com maior número de presidiários no mundo inteiro, é um país no qual a criminalidade e a violência crescem na mesma medida em que aumenta a população carcerária. E o Brasil prende cada vez mais gente por conta da opinião do imbecil secretário exonerado.
Após a previsível demissão de quem disse publicamente uma cretinice de proporções tão épicas, o deputado federal Newton Cardoso Júnior (PMDB-MG), outro filho de alguém, divulgou nota em sua defesa. Newtinho, como é conhecido o tal deputado, disse que Bruno Julio “teve a coragem de expressar a opinião e indignação da maioria dos cidadãos brasileiros”.
Agora a grande pergunta: ele está errado? A resposta vem de pesquisa Datafolha divulgada em 5 de outubro de 2015, há pouco mais de um ano.
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Como se vê, esses políticos são mero reflexo de uma parcela descomunal de gente psicótica, estúpida, iletrada, preconceituosa e efetivamente burra que há neste país. Para que se tenha uma ideia da quantidade de animais bípedes com título de eleitor que este país abriga, basta saber que APENAS 45% dos pesquisados pelo Datafolha discordam da teoria nazista de que bandido bom é bandido morto.

Quando alguém vem me falar da “corrupção dos políticos”, gosto de lembrar que a classe política de um país reflete o povo que habita esse país. Como gosta de dizer o filósofo Leandro Karnal, “Não existe país com governo corrupto e população honesta”.
O Drama é esse. E é descomunal. O Brasil tem uma política carcerária e uma política de Segurança Pública, apesar de que a questão carcerária é, per si, uma questão de Segurança Pública. Deveria, pois, ser uma política só.
E notem que, de 2006 para cá, uma lei parcialmente equivocada fez a população carcerária explodir no Brasil; só os presos por tráfico de drogas passaram de 31 mil para 138 mil no país, enquanto que, de 2000 para cá, DOBROU nossa população carcerária, atingindo 622 mil detentos – vide gráfico no alto da página.
Além disso, tráfico é crime que mais encarcera; aumento foi de 339% desde 2006, quando a Lei 11.343 começou a valer. Essa lei deixou o consumidor de drogas livre da prisão, mas estabeleceu uma quantidade drogas acima da qual se a pessoa portasse seria considerada “traficante”.
Contudo, como a lei deixa margem à subjetividade do agente policial, qualquer quantidade de drogas começou a ser vista como tráfico e, assim, o número de presos por esse crime disparou. O tráfico de drogas é hoje o crime que mais resulta em prisões no Brasil, segundo o estudo. 28% dos presos brasileiros respondem processo ou foram condenados por esse crime.
Uma década atrás, havia 31.520 presos por tráfico nos presídios brasileiros. Em junho de 2013, esse número passou para 138.366, um aumento de 339%. Nesse mesmo período, só um outro crime aumentou mais dentro das cadeias: tráfico internacional de entorpecentes (446,3%).
Com isso, a população carcerária do Brasil já é a quarta do mundo, superando países muito mais populosos, como a Índia, que tem seis vezes mais habitantes que o Brasil.
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O número de presos também é alto quando comparado ao tamanho da população. No Brasil, são 306 presos para cada 100 mil habitantes. A média mundial é de 144 presos por 100 mil pessoas.

Além disso, grande parte dos presos brasileiros (cerca de 250 mil pessoas) está detida de forma provisória. Isto é, são pessoas que não foram condenadas nem mesmo em 1ª Instância e que aguardam julgamento.
Segundo o estudo, há indícios de que parte dessas pessoas, caso condenadas, não receberiam penas de privação de liberdade. Ou seja, estão presas injustamente, seja qual for a decisão da Justiça sobre elas.
Por conta da lenda urbana de que as leis e as prisões brasileiras são “frouxas com bandidos”, os políticos covardes (como o povo do seio do qual são extraídos) que têm o Poder na mão, ou seja, governadores de Estado, não investem praticamente nada em estrutura carcerária, sobretudo em termos de humanizar as prisões, por medo de serem acusados de ser “bonzinhos com bandidos”.
A pregação dos programas policialescos da TV (sempre a mídia, com Datenas e outras excrescências) criou uma legião avassaladora de imbecis que sempre que ouvem falar de crimes já sacam suas frases prontas sobre “direitos humanos para bandidos”, sobre “bandido bom ser bandido morto” etc.
O Judiciário, movido por um conservadorismo atroz, um punitivismo canhestro, joga gente que jamais deveria cumprir pena em regime fechado no meio de assassinos, estupradores, monstros de todo tipo. O garoto que roubou um CD player de carro é colocado junto a chefes do tráfico e até assassinos psicóticos.
Além disso, o punitivismo comete injustiças contra grupos sociais imensos, majoritários. Pessoas negras (pretas e pardas) são maioria nas cadeias brasileiras. Segundo o estudo do Depen, 61,6% dos presos pertencem a esse grupo. Já entre o conjunto dos brasileiros, pretos e pardos são 53,6%.
Ninguém duvida de que haverá muito reaça dizendo que negros cometem mais crimes mesmo, afinal o Brasil é um país racista, como mostram os renitentes ataques racistas que se vê até na grande mídia, contra celebridades – imagine o que não sofrem os anônimos.
Os números do Depen também mostram que os presos têm menor escolaridade que a média da população. 75% dos presos só estudaram até o fim do ensino fundamental, e só 9,5% concluiu o ensino médio. Já na população brasileira, 32% terminaram o ensino médio, de acordo com dados de 2010 do IBGE.
Nada disso interessa à direita e a essa parcela da população que a mídia e políticos inescrupulosos imbecilizaram. As pessoas não sabem que essa política de prender indiscriminadamente em masmorras medievais está piorando os níveis de criminalidade em vez de melhorar.
E está piorando a perversidade dos crimes. Nem crianças são poupadas das piores atrocidades. A impiedade dos criminosos é cada vez maior, o volume de crimes não diminui apesar de as prisões estarem cada vez mais lotadas e de as penas serem cada vez mais duras por conta de que os locais de aprisionamento ficam cada vez mais espremidos.
O proibicionismo contra as drogas tem efeito contrário ao pretendido. Cada vez mais gente usa drogas, a oferta de drogas nunca foi tão farta. Proibir as drogas não faz cair o tráfico ou o consumo, apenas faz aumentar a população carcerária – 70% das mulheres presas cometeram crimes ligados ao tráfico.
De que adiantam todos esses dados? Nos comentários do post logo você vai ver palavras de ordem a favor da violência policial, das prisões desumanas e contra os direitos humanos, que deveriam ser unanimidade entre os membros da mesma espécie, mas que foram pintados para a população inculta como “regalias para bandidos”.
Há um dito popular adequado à situação: quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Como a maioria dos brasileiros não quer se informar com tais dados, preferindo recitar bordões (que ouviu de políticos ou na mídia) contra direitos humanos, processo penal justo, prisões decentes, a criminalidade vai continuar subindo e fazendo vítimas.
PS: Liberação das drogas em Portugal fez o consumo despencar http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/22/internacional/1461326489_800755.html
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