CEZAR CANDUCHO

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Caiado quer calar escola de samba do RJ.


Por Altamiro Borges

O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), fundador da sinistra União Democrática Ruralista (UDR) – que ficou famosa nos anos 1980 por acionar milícias armadas contra trabalhadores rurais e povos indígenas –, está enfurecido com a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, do Rio de Janeiro. Para o carnaval deste ano, ela escolheu como tema “Xingu, o clamor da floresta”, que faz críticas aos barões do agronegócio que devastam a natureza, envenenam a sociedade com seus agrotóxicos e expulsam o homem do campo. Em sua coluna no jornal O Globo desta quinta-feira (12), o jornalista Ancelmo Gois informa que o demo está possesso, endemoniado:
“O senador Ronaldo Caiado vai propor, no Senado, uma sessão temática ‘para discutir, debater e descobrir os financiadores da Imperatriz Leopoldinense e os interesses em denegrir o agronegócio’. Como se sabe, as principais entidades do campo estão enfurecidas com a querida escola de samba carioca, que no enredo ‘Xingu, o clamor que vem da floresta’ critica o agronegócio. Veja a justificativa do líder do DEM: ‘Com tantos problemas no país, que sofre com traficantes, bicheiros e facções, causa perplexidade uma escola de samba atacar o agronegócio, orgulho do País, que é o único setor que gera tantos resultados positivos’. Calma, gente”.
Não adianta o jornalista global pedir “calma” ao líder dos demos – um dos articuladores do “golpe dos corruptos” que alçou o Judas Michel Temer ao poder e uma das expressões mais retrógradas do agronegócios no país. A sorte dos foliões da Imperatriz Leopoldinense é que os ruralistas aparentemente não podem acionar seus jagunços para calar a escola de samba. Reproduzo abaixo matéria da CartaCapital que explica o ódio do setor representado pelo demo Ronaldo Caiado:
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Por defesa de indígenas, Imperatriz Leopoldinense atrai a ira do agronegócio
Por Ingrid Matuoka – 10/01/2017
“O índio luta pela sua terra, da Imperatriz vem o seu grito de guerra! Salve o verde do Xingu”, diz o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, preparado para o Carnaval deste ano no Rio de Janeiro.
O tema “Xingu, o clamor que vem da floresta" foi criado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues, 40, que trabalha há 5 anos com a escola, com o intuito de homenagear os indígenas da região e sua luta pela preservação da floresta e de sua cultura.
A música também critica o extrativismo insustentável, a hidrelétrica de Belo Monte e agradece aos irmãos Villas-Bôas, enquanto as alas mostram a exuberância da cultura indígena e os males que os afetam, como desmatamento, uso agressivo de agrotóxicos, queimadas e poluição.
Uma das fantasias, em especial, desagradou parte do setor do agronegócio.
Ela mostra um fazendeiro, com um símbolo de caveira no peito, a pulverizar agrotóxicos. Em nota de repúdio, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) afirmou ser “inaceitável que a maior festa popular brasileira, que tem a admiração e o respeito da nossa classe, seja palco para um show de sensacionalismo e ataques infundados pela Escola Imperatriz Leopoldinense”. No dia seguinte, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando também se manifestou contra a Leopoldinense.
Embora a fantasia não seja uma crítica direta ao agronegócio, nem generalize o setor, é fato que o Brasil precisa rever suas políticas sobre agrotóxicos.
Mais da metade das substâncias usadas aqui é proibida em países da União Europeia e nos EUA, e os agrotóxicos atingem 70% dos alimentos, segundo um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Em um ano, um brasileiro terá consumido cinco litros dessas toxinas, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA).
Responsáveis por 70 mil intoxicações agudas e crônicas anualmente em países desenvolvidos, os agrotóxicos também estão altamente associados à incidência de câncer e outras doenças genéticas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para elaborar o tema, o carnavalesco carioca estudou durante quase um ano os povos do Xingu, e passou quatro dias em uma oca, vivendo ao lado deles.
“Eu vi quanto o índio depende da floresta para sobreviver e quão forte é o contato com a terra, com o verde. Logo pela manhã, quando acordei, vi curumins brincando de correr atrás de borboletas, é a brincadeira preferida deles, e subindo em árvores para pegar uma fruta, descascar e comer com a mão. O índio é a própria natureza. E quando você agride a natureza, está agredindo diretamente a vida do índio”, conta Cahê.
O medo e a ameaça de uma nova invasão, de perderem seu espaço de direito, que os índios vivem quase diariamente também marcou Rodrigues. “Pude sentir na pele essa angústia, e a Imperatriz não está inventando nada, faz parte da história do Brasil”.
Para ele, a ABCZ e outras empresas que seguiram a crítica foram precipitadas. "Nunca foi intenção agredir o agronegócio diretamente. A ala que leva o título de "fazendeiros e agrotóxicos", e aponta o uso indevido da substância que mata os peixes, polui os rios e agride a vida dos índios e a nossa. Estamos falando do caos que cerca a vida do índio”.
Em outra passagem, o samba-enredo diz “o belo monstro rouba as terras dos seus filhos”. Segundo o carnavalesco, é uma analogia à construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e à desapropriação de terras de povos indígenas. Para a ABCZ, foi uma crítica a suas práticas: “Chamados de “monstros” pela escola, nós, produtores rurais, respondemos por 22% do PIB Nacional e, historicamente, salvamos o Brasil em termos de geração de renda e empregos”.
* Procurada pela reportagem de CartaCapital, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu não se manifestou até a publicação desta reportagem.

U D R

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