CEZAR CANDUCHO

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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Os pactos e a rendição do PT - Como todos os partidos de esquerda que tiveram responsabilidade de Governo, o PT adquiriu os vícios e as deformações da profissionalização da política.

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Tarso Genro


Em matéria  de alianças formais ou informais, acordos entre pessoas e grupos políticos que se reúnem em torno de princípios diferentes, armistícios entre inimigos, a história oferece exemplos para todos os gostos. O “Pacto Molotov-Ribbentrop” (agosto de 1939), através do qual Stálin ganhou tempo para preparar a URSS, para enfrentar militarmente a Alemanha nazista; o acordo para o fornecimento do “salvo-conduto” do trem “lacrado” de Lenin (1917) vindo da Suíça para – através de acordo com a Alemanha imperialista – chegar à Estação Finlândia em Petrogrado e liderar a Revolução de Outubro; o consenso de Prestes e Getúlio, em torno da entrada do Brasil na guerra contra o “Eixo”, depois nove anos de prisão de Prestes (que entrara na cadeia em março de 1936) após a entrega de Olga Benário para a Alemanha Nazista, são alguns dos exemplo clássicos nesta matéria de alianças.

Mais recentemente, na Argentina, temos o exemplo do amplo acordo político promovido para a viabilizar a segunda Presidência de Perón (outubro de 1973). Este acordo foi processado entre as distintas forças políticas e paramilitares – da extrema esquerda à extrema direita fascista – que compunham o Movimento Justicialista, cujo objeto seria montar um Governo com  respaldo popular, estável, para superar a  crise econômica e política da ditadura militar ali vigente. Quebrado o pacto e morto Perón, a Argentina mergulhou no caos e na violência sem limites, subjugada pela ditadura mais sanguinária da sua história.

A questão da interdependência entre fins e meios, pela qual os “fins não justificam os meios”, é o que permanece como problema supremo das alianças, relacionadas tanto com o projeto democrático-republicano, como com um projeto revolucionário aberto, contra  qualquer ditadura. Quais os objetivos (fins) principais, que movem o PT e a esquerda republicana e democrática (socialista ou não), nesta conjuntura histórica? Quem são os nossos adversários (ou inimigos) a serem neutralizados ou enfraquecidos? O que precisamos (meios) para formar uma base política e social ampla, visando atingir aquele objetivo? As respostas a estas perguntas singelas, embora não esgotem a questão, são certamente importantes para definir uma estratégia política do campo popular e democrático, tanto contra o ajuste que tramita no Congresso Nacional, como para refazer os vínculos de confiança entre a esquerda e os movimentos sociais, que hoje tem pouco respaldo nas instituições.

Ensaio de respostas: nossos objetivo (fins) são adiantar o calendário eleitoral, para relegitimar o poder político no país e combater a “exceção”, ou – se não for possível – queremos chegar em 2018, fortes para disputar Presidência da República, com maioria parlamentar.  Os nossos adversários (ou inimigos) são os grupos políticos, de cada partido ou partidos da Coalizão Golpista, cujo centro não era combater a corrupção, mas “ajustar” o país ao que querem os credores da nossa dívida pública. Os “meios”, para chegarmos aqueles “fins”, são -de uma parte-  na esfera político-parlamentar, formar uma base mínima para a resistência aos ajustes no Congresso (inclusive com a proposição antecipada das nossas reformas no futuro) e -de outra parte- na sociedade, recuperar a confiabilidade da política, voltando-nos para fortalecer amplas mobilizações sociais contra o Governo usurpador, centrados na crítica às reformas do ajuste liberal-rentista.

Não é uma originalidade dizer que o PT vem se tornando um partido tradicional. Originário de um conjunto de movimentos e organizações democráticas -socialistas, social-democratas, comunistas, cristãs de esquerda e de movimentos sindicais economicistas, com a simpatia de uma larga faixa da intelectualidade, com o passar do tempo, o PT, foi internalizando códigos democráticos e reformistas, para buscar responder a demandas imediatas dos mais pobres e melhorar, em geral, a vida da maioria do povo. E o fez de maneira consciente, nobre e generosa, numa época de “desmanche” das utopias, crise e mudanças radicais nos “socialismos reais” e de crise do sistema imperial tradicional, transmudado no capitalismo rentista, que controla os Estados Nacionais “amigos” lesando a sua soberania.

Neste processo, como todos os partidos de esquerda que tiveram alguma responsabilidade de Governo -sem exceção-  o PT adquiriu os vícios do poder e as deformações da profissionalização da política, que move qualquer partido em qualquer regime de democracia política. Adquiriu-os em grau muito menor do que qualquer outro partido, eleitoralmente importante no país, mas certamente os adquiriu: formulou justificativas e desligou-se moralmente e politicamente da sua ampla base filiada, simpatizante ou militante, que ainda espera uma reversão da nossa parte. Que o PT é o alvo predileto da manipulação fascista de uma parte da imprensa e alimento diário dos colunistas, que se profissionalizaram em cobrar polpudos honorários para os seus serviços, não tenhamos dúvida. Mas também é verdade que somos alvo de gente que confiava em nós, que se movia com as nossas utopias e que se desencantou com o nosso “realismo”, muitas vezes com o sacrifício de princípios.

Quando estamos lidando com esta questão das Mesas – fazer um acordo ou não com o golpismo e o reacionarismo – não estamos no curso de uma “divisão” partidária pré-datada, mas num debate para apontar para onde se move a totalidade partidária. Não estamos separando “esquerda” ou “direita” partidária, “autênticos” ou “tradicionalistas”, “socialistas” ou “social-liberais” ou quem tem mais, ou menos, coragem na luta contra a usurpação e a “exceção”. Não foi uma parte, foi a totalidade do PT, que ficou na dependência das alianças já superadas há quatro anos atrás, continuidade que foi o passo mais profundo para a nossa vulgarização como Partido, cuja caricatura foi a nomeação -durante o Governo Dilma- de Joaquim Levy para resgatar a economia cambaleante.

O que se discute, via de consequência é se revertemos este caminho de tradicionalização partidária ou se apostamos no refundação da utopia socialista democrática, que nos uniu para mudar o Brasil. É certo que isso é difícil e que depende de uma série de condições internacionais que hoje estão em “deságio”, mas quem não se move para o horizonte, não só não chega até ele -ninguém chegará- mas também não escolhe um trajeto.  Entrar em acordo com o golpismo, para participar das Mesas que vão conduzir as reformas anti-democráticas e anti-sociais do Governo de usurpação, é nos enfraquecer perante os nossos atuais e futuros aliados, perante a nossa própria base social e política. E ainda, nos enfraquecer perante os nosso próprios adversários. Eles vão estar ainda mais coesos e legitimados, face ao nosso reconhecimento tácito, que os consagraria -sem qualquer concessão programática da parte deles- como confiáveis, mesmo que sejam todos eles da vanguarda golpista.

A adesão aos acordos das Mesas dificultará, por estes motivos, até mesmo a eventual construção de interlocutores, com força para formar uma nova maioria -num momento de crise ainda mais aguda- para chamar eleições presidenciais antes de 2018. É sabido que numa disputa pelo poder ninguém transitará para apoiar quem não soube ser forte para manter-se Governo, nem soube construir-se com força na oposição para atrair aliados programáticos. Se escolhermos a composição com o golpismo, os meios”, portanto, usados para expandir a nossa influência política, nos colocarão ainda mais longe dos “fins” que pretendemos, cujo pressuposto é o enfraquecimento político do Governo golpista e a inviabilização das suas reformas.

Determinadas decisões que um partido toma em conjunturas especiais, concentram todo o seu passado e desenham seu futuro, como no poema de Eliot, no qual “tempo passado e tempo futuro”, estão condensados no agora. Dificilmente o PT reverterá a sua trajetória descendente, se tivermos um símbolo desta grandeza trágica: após as eleições nas Casas do Congresso, usurpadores e usurpados, golpistas e golpeados, estarão numa foto de compromisso! Sorridentes para a História, nossos parlamentares que ocuparão “espaços”, serão apenas personagens com boas maneiras, num festim de enganos. Todos nós que militamos  na política, já cometemos muitos enganos, mas este a maioria de nós não cometeria. Vender a alma ao diabo e não entregar a alma é legítimo e humano. Mas vendê-la e entregá-la, falsificando um ato de bravura, é um caminho sem volta.


(*) Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.


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