CEZAR CANDUCHO

Minha foto
TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA., MG, Brazil

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O capital de Marx: o que tem a nos dizer sobre o mundo de hoje? - O capital de Karl Marx foi escrito há quase um século e meio atrás. É completamente previsível imaginar que como estamos no século 21 muito pouca coisa não iremos aproveitar de um livro do século 19. Mas o realmente surpreendente é que ele está cheio de ideias e indicações e, na verdade, contém chaves cruciais para se entender o mundo em que vivemos e suas crises, em pleno 2016.


 



Por Gilson Dantas  



A primeira ideia-chave de O capital é a própria concepção de capitalismo. Ao entender que vivemos hoje em uma sociedade comandada pelo capital - que hoje tomou o formato de grande capital oligopolista e financeiro – Marx [e seu camarada Engels] nos brindam com a mais preciosa chave para a compreensão do mundo moderno: uma sociedade capitalista, regida pela acumulação do capital e dividida em classes sociais irreconciliáveis, a patronal burguesa e o proletariado. Sua obra mais conhecida – justamente O capital - explica como é que o capital nasce do chão de fábrica, como é que toda riqueza é criada apenas pelo operário, e como os burgueses distribuem entre si, entre o empresário de fábrica, o banqueiro, o comerciante, o fazendeiro as mercadorias produzidas pelos trabalhadores.

Seu livro é um verdadeiro RX sobre tudo isso e sobre como o capital se acumula e vai, ao mesmo tempo, contraditoriamente, minando as próprias bases do sistema, achatando salários, desempregando e concentrando riqueza.

Por mais que hoje se fale que o sistema se modernizou, se superou, e que se fale em sociedade “informacional”, em sociedade “pós-industrial”, em “sociedade pós-moderna”, em “sociedade civilizada”, em “inteligência artificial” e no que mais se quiser falar, o grande fato histórico é que vivemos em uma sociedade capitalista. É o capital que manda na economia. E vem transformando tudo em mercadoria, ao ponto de a própria política dominante ter se transformado em um balcão de negócios. Desde suas origens é assim que é. Só que com seu envelhecimento e senilidade, o capitalismo fica pior a cada dia.

E entender os movimentos e a crise do grande capital é entender o mundo no real, como ele é e como ele se conforma. Portanto, com todas as mudanças – e foram muitas e profundas – Marx de O capital continua sendo, digamos assim, nosso contemporâneo. Obviamente tais mudanças nos obrigam a quebrar a cabeça para alcançarmos um entendimento adequado, já que o mundo de hoje não é mais o do Manifesto Comunista, nem o de Marx e de O capital.

Mas o fato de continuar sendo um mundo capitalista, fundado na exploração dos trabalhadores pela classe que é dona das fábricas e demais meios de produção, e de continuar sendo uma sociedade que historicamente é contraditória e transitória, eis aqui a primeira chave explicativa do mundo como ele é.

E mais: uma vez que Marx escreveu O capital como parte da preocupação em compreender a sociedade para transformá-la através da revolução proletária, é possível deduzir, com mais razão, que Marx é totalmente atual. Por que? Porque estamos em uma época na qual o capitalismo não dá sinais de equilíbrio estável, para dizer o mínimo, vive uma longa crise econômica, ao mesmo tempo em que o século que passou e o que entra, são palco de grandes lutas históricas do movimento operário procurando romper com o jugo do capital.

E, mais concretamente, Marx definiu várias tendências e contradições fundamentais da sociedade capitalista em movimento e formulou ideias e concebeu perspectivas e cenários históricos sobre elas que seguem de pé, vigentes. Vigentes no sentido de que ou entendemos a lógica de tais ideias ou vamos olhar para o mundo sem entende-lo e não romperemos com a jaula de ferro da exploração capitalista. A jaula fica meio invisível, naturalizada.

Vejamos algumas daquelas tendências analisadas por Marx (que é o mesmo que ver o quanto O capital - pelo seu método materialista e dialético de pensar a realidade, se antecipou ao seu tempo).

A concentração de renda. Marx deduzia das suas investigações teóricas sobre o sistema, que o capitalismo tenderia, historicamente à concentração de renda e à miséria crescente. É um sistema que necessita concentrar pobreza numa ponta e riqueza na outra e não pode ser diferente. É da sua natureza. Pode distribuir renda, pode expandir classe média, e certamente o mundo de hoje é muito mais rico que o do tempo de Marx. Mas ao mesmo tempo, é também e principalmente um mundo muito mais excludente, muito mais polarizado entre ricos do tipo bilionários, trilionários e, do outro lado, uma enorme massa de pobres.

Um estudioso do capitalismo que inclusive não é contra o sistema, Thomas Piketty, recentemente chegou a escrever um best-seller sobre o tema, O capital no século XXI, onde fica claro esse ponto. De que os ricos são mais ricos que nunca e a massa de miséria crescente é sem paralelo. E que isso só vai piorar.

Ou seja, não é um sistema que evolua no sentido da inclusão social, de se humanizar, de ir ficando “mais razoável” com o tempo. Vai azedando, excluindo, descartando pessoas e massas inteiras, como faz com os imigrantes na Europa, no México.

O Esquerda Diário já publicou artigo recente a respeito daquela polarização ricos e pobres. E as grandes massas das periferias urbanas são a evidência a céu aberto a esse respeito. Por isso mais pessoas dependem de um sistema de transporte ruim, mais caro, mais cheio e mais demorado.

Quando se fala em países de grande população como Bangladesh, Índia e a China, a imagem de grande pobreza que nos vem à cabeça é totalmente real: grande parte do planeta vive na miséria absoluta. Marx tinha razão, portanto: é uma tara irrecuperável do sistema capitalista isso de desenvolver, junto com riqueza e a afluência, muitíssimo mais miséria e exclusão na base da pirâmide. Marx estava correto.

Outra ideia de Marx é a de que o capitalismo não pode se livrar da concorrência e que esta conduz aos oligopólios. A concorrência conduz a um punhado de grupos econômicos fortíssimos que passam a dominar cada setor da economia. Poucas cervejarias dominam o mercado, poucas fábricas de automóveis, de geladeiras dominam o mundo dos automóveis e das geladeiras, e assim por diante. O mercado da “livre” concorrência que um dia existiu, gerou seu oposto: a concorrência pesada e surda entre poucos grandes grupos, os oligopólios. No mundo atual, poucos e grandes grupos capitalistas mandam no mercado.

Essa tendência veio só aumentando, desde Marx.

É claro que não se trata de uma linha reta, o capitalismo desenvolve contradições e contratendências, existe aqui e ali alguma pequena cervejaria, por exemplo; mas no geral a concentração industrial e financeira e do agronegócio vem sendo maior que nunca, e de patamar em patamar, tornou-se dominante: vivemos no mundo dos monopólios e oligopólios imperialistas (que concorrem entre si, dividem o mundo entre si e tratam de fazer guerras de grande porte para redividi-lo a partir do momento em que o jogo político e diplomático já não basta).
 

Fonte: Esquerda Diário 

Nenhum comentário: