CEZAR CANDUCHO

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TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA., MG, Brazil

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A corrupção e os privilégios mantêm Lula preso.



Por Aldo Fornazieri



Dilma Rousseff foi derrubada por um esquema corrupto entranhado nas profundezas mais tenebrosas da história do Brasil, que se constituiu na descoberta e na colonização e que se prolonga até os nossos dias. O Brasil foi colonizado por criminosos, governado por corruptos, por promotores de extermínio de índios, por estupradores, por escravocratas, por espoliadores que nunca tiveram misericórdia nem piedade pelo sofrimento alheio e dos escravos e trabalhadores espezinhados que construam as suas riquezas. Esta bestialidade desumanizada foi constituindo a mentalidade de uma elite perversa, sanguinária e predatória. Mesmo que a elite se renovasse e trocasse de setores, a mentalidade pervertida continuou e mesma. Os principais postos do Estado sempre foram ocupados, ao longo dos tempos, por gente portadora de mentalidade assassina, predatória, corrupta.

Raros foram os momentos da nossa história em que pessoas de índole honesta, com propósitos universalizantes, orientados para o bem comum, ocuparam altos cargos na hierarquia estatal ou nas instâncias políticas. Essa mentalidade criminosa e delinquencial incrustou-se na farsa da Independência, na farsa da Proclamação da República e em tantos outros episódios retrógradas que marcaram o século XX e deste pouco de século XXI da nossa história.  
Se em determinados momentos a mentalidade criminosa das elites governou com certo pudor, usando a técnica do disfarce, ou justificando a violência aberta como foi o período da ditadura militar, com o golpe que derrubou Dilma, o despudor, a desfaçatez, a imoralidade, a indecência, a impudência se mostraram à luz do dia, sem rubor nas faces. Os artífices deste tormento não tiveram nem o cuidado de se justificar junto àqueles que enganaram: derrubar a Dilma em nome do combate à corrupção para instalar o governo mais abertamente corrupto da história do país. Aqueles que foram enganados passaram à condição de humilhados. Surgiu daí a conjugação da impotência e do imobilismo: de um lado os enganados humilhados e, o outro, o dos derrotados atordoados.
O esquema corrupto e criminoso não visava apenas derrubar Dilma, mas impedir a vitória de um candidato que representasse os setores populares nas eleições de 2018 - particularmente a vitória do presidente Lula. Por que? Porque Lula, acima de todos, e outros possíveis vitoriosos representam aquele sentido dos direitos universalizantes, orientados para o bem comum, que as elites querem impedir nesse país. Quanto mais igualdade e justiça, menos corrupção e privilégios. Então, neste país, as elites precisam impedir o avanço da igualdade e da justiça, dos direitos, porque isto bloqueia a corrupção e os privilégios.
Mas não são apenas os representantes políticos das elites corruptoras e corruptas que querem impedir que os valores da igualdade e da justiça se tornem minimamente efetivos neste país. Os altos funcionários do Judiciário, do Ministério Público, da Receita e dos organismos de segurança são a outra face do esquema corrupto e criminoso que governa o país. Os governos petistas deram autonomia, aparelhamento e leis para que esses setores pudessem combater a corrupção. Eles voltaram essa autonomia, esses instrumentos e essas leis justamente contra o PT. Por que? Porque esses setores estão corrompidos pelos altos salários e pelo estouro dos limites constitucionais desses altos salários e pela série de privilégios inescrupulosos, escandalosos e corruptos, a exemplo do auxilio moradia, que favorecem esses setores.
Mesmo que um salário de R$ 30.000 seja um salário dentro da lei é um salário que expressa uma forma de corrupção num país em que mais de 100 milhões de pessoas ganham até um salário mínimo e  em que a renda média do brasileiro é de R$ 1.268. Para manter um salário de mais de R$ 20.000 no setor público é preciso que falte educação, falte saúde, falte remédios, falte cultura falte direito para o povo pobre das periferias.
Os juízes, os procuradores, os delegados, os altos funcionários da Receita etc., excluindo-se as exceções, são inimigos do povo porque as necessidades do povo são inimigas dos seus altos salários e de seus privilégios. E, em sendo inimigos do povo, são inimigos dos políticos que lutam para fazer valer os direitos do povo. São os maiores inimigos de Lula porque Lula é a principal potência e possibilidade para introduzir mecanismos de igualdade e de justiça no Brasil. Mesmo que Lula favoreça e instrumentalize esses setores, eles serão inimigos de Lula ou de qualquer outro que represente as lutas por igualdade, justiça e direitos.
Se no setor político os políticos que representam esses esquemas criminosos e corruptos perderam o pudor em mostrar sua face vil, anti-social, antinacional e antipopular, no Judiciário também o despudor, a desfaçatez, a imoralidade, a indecência, a impudência se instalaram como modus operandi de juízes, de desembargadores e de ministros das Cortes superiores. Foi o que se viu com Moro, um juiz fora da lei, com Gebran Neto, com Thompson Flores, com Raquel Dodge com Laurita Vaz que, na última semana, não teceram o manto da misericórdia, mas forjaram a espada da injustiça, do ódio e da impiedade para manter Lula injustamente preso. Esta ordem templária do mal não teme em violar as leis e a Constituição, em destruir a hierarquia e os procedimentos, em rasgar a jurisprudência, em condenar sem provas, em se elevar na condição acusador e de juiz a exemplo dos tribunais da Inquisição, em condenar inocentes, seja porque são alvos dos seus ódios, seja porque os vêem como ameaças aos seus interesses.
Nada detém essa horda que pisoteia a Constituição. Negam aos outros juízes e desembargadores o direito de praticar aquilo que a função prescreve e que eles mesmos praticam. Instalaram o reino da exceção, no qual, a vontade arbitrária deles substitui as leis e a Constituição. Perseguem colegas, como estão perseguindo o desembargador Rogério Favreto, porque não aceitam quem contrarie os seus desmandos. O Congresso não os detém até porque já não há mais Congresso. O Executivo não os detêm até porque o governo está desmoralizado. Nem o STF os detêm porque o STF está tomado pela desordem anárquica e  abre espaços para o motim e para a indisciplina. Parecem não temer mais nenhum poder humano e nem mesmo o castigo de um Deus irado, tal certeza da impunidade que amealharam.
Se no Brasil nunca houve democracia efetiva, só sobram destroços de República porque já não há divisão de poderes. O Brasil vai sendo arrastado para uma destruição sem fim, para o descontrole da violência, vai se afastando da estrada da civilização e vai se embrenhando para dentro da sua própria dor e desesperança. Esta impotência da vida cívica, da coragem e da virtude abre as portas para que os demônios do mal se sintam confortáveis e bem quistos. O que dizer de um país que aceita que Bolsonaro, um candidato à presidência da República, pregue o massacre de camponeses pela política, como ocorreu no Pará? Bolsonaro não é um acaso. Ele é filho do golpe, camarada de Moro e de muitos outros juízes, um rebento do PSDB, conviva de empresários, visitante da grande mídia e até tolerado por progressistas.
Vivemos num país em que tudo é normal: Lula preso é normal, Bolsonaro pregando o crime é normal, uma quadrilha no governo é normal, juízes rasgando a Constituição é  normal, o crime e a violência são normais, a falta de saúde e de outros direitos é normal. O escandaloso perdeu todo o sentido e todo o status. Anormal é querer tratar o escandaloso como inaceitável. Junto com a corrupção e os privilégios, essa trágica normalidade, esta impávida passividade, são outras causas que mantêm Lula preso. Como não temos uma história de lutas gloriosos e nem heróis míticos donde possamos nos socorrer, precisamos olhar como outros povos se libertaram para seguir-lhe o exemplo. É preciso que a coragem e a bravura enfrentem a impiedade e a injustiça e que o nosso valor faça arder as lutas, pois só nelas reside a esperança.
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
GGN

Sem casa, sem emprego e com mais crianças mortas: o Brasil do golpe é um pesadelo.



Duas notícias dão a medida de como o Brasil piorou nos últimos anos, depois que se colocou em marcha o movimento para tirar Dilma Rousseff e o PT do poder.
O Fantástico da Rede Globo mostrou as obras do Minha Casa, Minha Vida que estão paradas em vários Estados do Brasil.
Um motivo é de ineficiência administrativa: o governo que assumiu em 2016 não conseguiu entregar as moradias por não fazer coisas simples, como a ligação de energia.
Outro problema é em razão da falta de recursos: as construtoras abandonaram as obras porque não recebem do governo federal.
Hoje a Folha de S. Paulo informa que, pela primeira vez em 26 anos, aumentou a mortalidade infantil.
Até 2016, o Brasil vinha reduzindo a taxa de mortalidade infantil em 4,9%, em média, a cada ano. No primeiro ano do governo de Michel Temer, essa taxa aumentou em 5%.
Hoje morrem 14 crianças a cada mil nascimentos. A tendência, segundo estudos do próprio Ministério da Saúde, é que a mortalidade infantil tenha crescido em 2017 e cresça também em 2018.
O governo que assumiu na mão grande, conspirando para derrubar a presidente eleita com cerca de 54 milhões de votos, atribui o desastre à herança da administração de Dilma.
Seus porta-vozes na velha imprensa endossam a posição. Mas estas análises já não convencem nem mesmo quem foi às ruas de camisa da CBF protestar contra a corrupção.
Em 2014, último ano em que Dilma pode governar sem estar emparedada pelo movimento, vá lá, golpista, os índices de emprego e renda eram vigorosos.
Na prática, não havia desemprego no Brasil: os 5% registrados indicavam que quem procurava colocação encontrava. Hoje a taxa de desemprego é superior a 12%.
Com renda menor e menos emprego, a economia trava, os impostos caem e o governo fica sem dinheiro para tocar o orçamento.
Não é difícil compreender.
Mas, desde 2016, o Brasil vive de farsa: com a aprovação do teto nas verbas do orçamento, o país voltaria a crescer. Não voltou.
A reforma trabalhista provocaria uma explosão na geração de empregos. Não provocou.
A privatização de ativos públicos provocaria um novo ânimo nos investidores. O que foi privatizado só deu alegria — e muita alegria — a quem comprou, não aos ex-donos, no caso, nós.
A passagem aérea, com a permissão de cobrança por bagagem, tornaria as viagens mais baratas. Não tornou.
Enfim, a lista de fracassos é gigantesca e, por óbvio, explica por que Lula, sem ser visto pelo grande público há 100 dias, lidera as pesquisas.
Explica também por que há um movimento gigantesco para que Lula continue longe do povo, movimento que é liderado por setores do Judiciário, mas que não parecem autônomos.
O Brasil é um país que se move por lobbies, como de resto a maior parte das nações. E Lula, numa definição precisa, é o lobista dos mais pobres.
É ele quem, efetivamente, briga por mais casas — Minha Casa, Minha Vida — e também contra a mortalidade infantil.
Havia um tempo em que se dizia que fazia isso por demagogia. Mas, desde que governou, colocou em prática políticas sociais que atenuaram as mazelas dos mais pobres.
É fato, não é discurso.
Ele e o PT falharam em muitas coisas quando governaram, mas dizer que o Brasil não era melhor com eles é uma mentira que ofende a inteligência.
E, além disso, ajuda a manter as coisas como estão: o pobre sem casa e a criança morrendo.
Alguém deve estar ganhando muito com este estado de coisas, e não é o brasileiro de uma maneira geral.

Por Joaquim de Carvalho - DCM


POR QUE SER DE ESQUERDA.




“É um povo inteligente, intelectual, despojado, meio riponga, meio artista, meio poeta, meio musical, meio antropólogo.
Sobe favela, anda no asfalto, vai nos pagodes de chinelo ou num concerto de smoking, toma cachaça ou um Buchanan´s 18.
Fica feliz quando o filho do pedreiro se forma, mesmo se estiver no nível mais alto financeiro.
Povo de esquerda consome, afinal Marx não disse que não podia consumir. Se produzimos é nosso e temos que usar e abusar.
Esquerdista de Louis Vuitton pode sim, por que não?

Mas o povo de esquerda enriquecido sabe dividir o seu pão.
Ajuda em causas sociais, participa de projetos de fomentos à cultura, apoia financiamentos que ajudam a classe oprimida.

Ser de esquerda e ser rico ou pobre é saber dividir. Se você não sabe partilhar, você nunca será como nós.
Nossa bandeira é vermelha por conta do sangue do povo oprimido. Não por beleza de cores, ou vaidades. O vermelho representa a história de muitas lutas em causas sociais.

O foice e o martelo representam o esforço, o trabalho do proletariado. É símbolo de luta proletária.
Tem quem fala que o MST é coisa de vagabundo, mas consome todo dia o arroz que ele produz, sem saber que o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, além de tanto produto que está em sua mesa.
Povo de esquerda lê, estuda, se informa. Não fica repetindo como um robô matérias de jornais televisivos. Não paga mico dizendo que o Nazismo é socialista ou comunista, porque Hítler colocou a palavra “socialismo” em seu partido para afrontar os verdadeiros socialistas.
Ser de esquerda não é viver em cúpulas, dentro de redomas, com medo do negro, do índio, do asiático, do indiano, do árabe. Não é achar que todo árabe, palestino, israelita são extremistas assassinos. Reconhece a importância de todas as nações, independentemente de seus conflitos políticos e sociais.
A galera de esquerda quer ver todo mundo bem, a empregada, o padeiro, o empresário e o diplomata. Ela quer principalmente a educação para todos, a saúde para todos e emprego para todos.
Ser de esquerda é querer um bem igualitário para toda uma nação.”

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Dilma: Lula está preso porque a justiça deixou de ser imparcial - A presidente deposta pelo golpe, Dilma Rousseff, denunciou a perseguição midiática-judicial contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Neste domingo (15), faz 100 dias que ele está preso. Dilma criticou "parte da Justiça, a mídia oligárquica, que defende os interesses do mercado, e os partidos golpistas".

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"Hoje (15) faz 100 dias que Lula está preso, porque a Justiça brasileira deixou de ser imparcial. Passou, ao invés de absolver inocentes, condenar inocente como é Lula e a persegui-lo, porque no Brasil deram um golpe e Lula pode estancar este golpe e fazer o Brasil crescer, diminuir a desigualdade brutal e ao mesmo tempo ter relações internacionais altivas e não submissas aos EUA", afirmou Dilma, que foi a Cuba para 24º encontro anual do Foro de São Paulo, criado em 1990, o Foro de São Paulo é uma conferência que reúne mais de 100 partidos e organizações de esquerda e centro-esquerda da América Latina e do Caribe.

De acordo com a ex-presidente, "Lula está preso para não ser eleito presidente da República. Mesmo preso, a cada dia que passa, ele tem maior apoio e isso não sou eu quem digo. São todas as pesquisas. O Fórum de SP é um local fundamental desta construção de uma América Latina menos desigual. Os governos populares melhoraram esta situação". "No Brasil, Lula é a nossa esperança. Não iremos tirar Lula do processo eleitoral. A cada dia que passa, Lula se aproxima mais da urna".

O ex-presidente foi condenado sem provas no processo do triplex no Guarujá (SP), com uma sentença questionada por vários juristas. Inclusive, no primeiro semestre deste ano, juristas de todo o Brasil divulgaram uma carta aberta, em cinco idiomas, criticando o uso de normas processuais de “exceção” por setores do Sistema de Justiça no Brasil.

"A deformação de um conjunto de processos contra a corrupção sistêmica no país é a consequência do 'aparelhamento' das medidas anticorrupção para fins de instrumentalização política por setores da direita e da extrema direita do Ministério Público, que hoje se arvoram purificadores da moral pública nacional", diz o documento (veja aqui). 

De acordo com a acusação do Ministério Público Federal (MPF), o ex-presidente receberia um apartamento reformada da OAS, mas, na apresentação da denúncia, o próprio MPF admitiu que não havia "prova cabal" de que Lula era o proprietário do imóvel. 

Atualmente, Lula, mesmo preso, lidera as pesquisas eleitorais. O primeiro levantamento presidencial do Ibope do ano, contratada pela CNI e divulgada no final do mês passado, apontou o ex-presidente em primeiro lugar com 33% dos votos, mais que o dobro do segundo colocado, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), com 15%, seguido pela ex-senadora Marina Silva, da Rede (7%).

Outro levantamento, do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado n dia 8 de maio, apontou que, para 66% dos brasileiros, o Brasil "permaneceu igual" depois da prisão de Lula; e para 22,3%, o País "piorou". Somente 9% acreditam que o Brasil melhorou depois que Lula foi detido. A pesquisa foi feita com 2.002 eleitores em 154 municípios de 26 Estados e Distrito Federal entre os dias 27 de abril e 2 de maio.

“Lula enfrenta um Ministério Público que reflete a classe média antipetista”

Eugênio Aragão. Foto Divulgação.



Por
 Ricardo Miranda

OS DIVERGENTES

O advogado e jurista Eugênio Aragão é, sem dúvida, uma das pessoas que conhece hoje mais de perto Lula – e que, mesmo com fortes ligações com o ex-presidente, consegue traçar, com independência, um cenário cru e realista da realidade política do país hoje. Não só do cárcere de Lula, amparado nas pás rodantes de moinhos de vento, uma boa metáfora da insanidade dos nossos tempos, mas do que se tornaram nossas instituições. Com Ministério Público, com Justiça Federal, com Supremo, com tudo. Mestre em Direito Internacional pela Universidade de Essex (Inglaterra) e doutor em direito pela Ruhr-Universität Bochum (Alemanha), integrante orgulhoso do Ministério Público Federal de 1987 a 2017 e ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, Eugênio Aragão tem emprestado sua pena e sua consciência política, junto com um grupo de abnegados, a denunciar o atual estado de coisas. Preso há três meses – desde 7 de abril, cumprindo uma pena de 12 anos e um mês de prisão pela condenação no caso do tríplex do Guarujá, um desses moinhos -, Lula, segundo Aragão, representa a chance de redenção em que grande parte do país acredita, mas que não é aceita por um Ministério Público, segundo ele, tomada por uma classe média majoritariamente antipetista – que “age pelo fígado”, e que tornou Moro, Dallagnol seus ídolos e opressores. E por um Supremo Tribunal Federal absolutamente perdido em seus deveres. Quem ousa trincar essa unanimidade, como o desembargador Rogério Favreto, é linchado. Leia – e ouça – essa entrevista marcante.



Ricardo Miranda: O sr. foi uma das pessoas que visitou o presidente Lula mais recentemente no cárcere. Qual o estado de espírito dele?
Eugênio Aragão: Estive com ele segunda-feira (09/07) e me pareceu que ele estava muito bem, com disposição alta. Não se deixou abater por essa situação toda (o veto do TFR-4 à sua liberdade concedida pelo desembargador Rogério Favreto) até porque tem um enorme senso de realismo, sabia que essa iniciativa quase não tinha chance de prosperar. Ele tem muita clareza sobre o que aconteceu e isso facilita as coisas.
Ricardo: O sr. não nota nele nenhum sinal de depressão?
Aragão: Absolutamente não. Em alguns momentos o que a gente tem notado é uma certa bronca mesmo, por tudo o que está tendo que passar, por um fato absolutamente fantasioso. Essa injustiça pela qual ele está passando, isso realmente deixa ele injuriado.
Ricardo: Lula é um preso político?
Aragão: Quem o condenou (Sérgio Moro) tem sentimentos contrários a ele, tem simpatias pelos adversários políticos do Lula, a ponto de se deixar fotografar com eles, é uma pessoa extremamente vaidosa, e isso é um quadro de prevaricação. Ou seja, um juiz que julgou para atender seus sentimentos pessoais. Falar que ali existe um complô político de modo a impedir que Lula seja presidente da República, exige uma leitura macropolítica. Do ponto de vista jurídico, o que a gente vê é uma tremenda de uma prevaricação.
Ricardo: Ainda há realmente alternativas jurídicas?
Aragão: Eu acredito que o Superior Tribunal de Justiça, a hora que tiver a oportunidade de confrontar com os fatos que embasaram essa condenação, quando entrarem no recurso especial, com todas as nulidades praticadas pelo Moro, vão realmente se convencer de que Lula foi vítima de uma atuação “alternativista” da Justiça. Que não tem nada a ver com o devido processo legal. E quando isso ficar mais claro, vamos começar a ver a luz no fim do túnel. Até agora, o STJ só se manifestou sobre questões colaterais, como a liberdade de Lula, mas não sobre o mérito do julgamento. Não é preciso ser um profundo conhecedor do direito penal para saber que as coisas foram feitas de forma muito torta.
Ricardo: O calendário judicial concorre com o calendário político-eleitoral. O sr acredita que Lula não só seja solto, mas que possa concorrer?
Aragão: Existe um timing claro do TRF4 em relação a isso. Ele dormitou por 50 dias nos recursos de Lula não foi atoa. As coisas foram todas calculadas para dificultar a participação dele nas eleições. As coisas andaram muito rápidas até sua prisão. O que eles queriam eram prendê-lo rapidamente. Depois isso, o passo mudou, porque não tinham interesse em interferir na inelegibilidade dele. Quando surgiu uma janela para mudar isso na Segunda Turma (do STF), querem decidir a todo custo agora decidir a inelegibilidade dele. Enquanto isso não for decidido, o Lula continua elegível.
Ricardo: Francamente, o sr. acredita que seja possível o presidente Lula concorrer nessas eleições?
Aragão: Olha, esse é um campeonato. Você não tem certeza de que vai ganhar o jogo, mas tem que mandar a bola em direção ao gol. Sabemos que temos adversários extremamente fortes, e na retranca, para impedir esse gol.
Ricardo: Qual sua opinião sobre Moro, Dallagnol, as pessoas que estão do outro lado desse jogo? Elas jogam por uma causa, uma militância..?
Aragão: Eu não vejo militância política forte neles porque essas pessoas são muito superficiais pra isso. Conheço o Dallagnol…são pessoas que não tem certeza ou convicção de nada, a não ser no seu bem estar social. Mas eles fazem parte de uma classe média que, desde o conflito que se estabeleceu no Brasil em torno da destituição da presidente Dilma e do projeto político do PT, tem se estabelecido como uma verdadeira frente com uma bronca quase que visceral com o PT e o Lula. É algo que está dentro de parte de nossa classe média. Essas pessoas não tem proposta política. E, assim, agem muito mais com o fígado do que com a cabeça. Hoje é quase um consenso dentro do Ministério Público de que Lula não merece o destino que espera. Esse apoio a Dallagnol e a Moro é muito forte dentro do MP. Os talvez 20% que não concordam com isso não ousam se manifestar, haja visto o que aconteceu agora com (Rogério) Favreto. Essa máquina de fabricar consensos dentro do Ministério Público é brutal. Ela acaba com reputações, acaba com perspectivas de carreiras das pessoas que resolvem confronta-lo. Um consenso imposto a ferro e fogo autoritário dentro do MP que não permite divergências e não admite a ideia de que Lula ou o PT possam voltar ao governo.
Ricardo: E o discurso do combate à corrupção, pedra de toque da Lava Jato?
Aragão: O discurso do combate à corrupção é essencialmente corporativo, que visa sobretudo a dar mais poder aos atores dessas instituições. E esse poder tem sido muito útil pra eles. O MP tem angariado através desse poder prestígio junto à mídia, junto à sociedade e, na consequência, vantagens remuneratórias muito grandes e outras. O que está no centro dessa dessa discussão são os interesses corporativos.
Ricardo: Em relação ao Supremo, a frase “com Supremo com tudo”, do Romero Jucá, calou fundo. O sr. acredite que o grau de conluio alcance mesmo o Supremo? Eles estão dentro desse jogo?
Aragão: Olha, há quem esteja e já quem não esteja. Mas quem não está, não tem coragem de enfrentar os outros. O Supremo Tribunal Federal se tornou, de uns tempos pra cá, uma instituição extremamente midiática. A mesma mídia que apoia com unhas e dentes o Sérgio Moro e o Ministério Público. Desagradar a esse consenso tem um preço que o Supremo não está querendo pagar. Por conta da imagem que construiu na sociedade. E isso é muito ruim, porque o Supremo se torna refém dessa corrente majoritária, e deixa de olhar as coisas como são.
Ricardo: Muitos ministros do STF foram escolhidos nos anos petistas…
Aragão: Acredito que muito dessa agregação dos atores do Supremo à mídia tem a ver com o processo de recrutamento desses atores. O problema que o PT teve ao longo desses anos em que foi governo é que não estabeleceu nenhum processo racional de escolha desses ministros do Supremo – então, o processo ficou solto. O Partido dos Trabalhadores, a esquerda brasileira, que tinha um protagonismo, não teve a mínima compreensão do que significa o Supremo Tribunal Federal – e quais são os riscos que ele pode representar à governabilidade. Não tendo feito esse levantamento de inteligência, não soube como lidar como as escolhas que encarou. O PT teve a oportunidade de fazer 13 ministros ao todo – e não foi feliz na maioria das escolhas, feitas de forma atabalhoada. Deixou os interessados se apresentarem. Gente que já tinha um elevado potencial de idolatria. Egos extremamente fortes, pessoas com um gás enorme de ambição. E buscaram padrinhos, se cercaram dos áulicos da Corte, daqueles que fazem parte da periferia do sistema. Nessa gincana, os candidatos que faziam questão de aparecer bem na fita tinham uma prática sistemática de destruir eventuais concorrentes. Quem venceu essa batalha não foi a pessoa com melhor conhecimento jurídico e com melhor caráter, mas quem tinha maior resiliência. Uma seleção darwinista. Os mais fortes e vaidosos prevaleceram. Mas a vaidade torna a pessoa frágil. No momento em que arrisca de ficar mal na fita, o vaidoso não faz o que tem que fazer. Então, o Supremo se tornou uma instituição fraca e dividida. Virou um balaio de gatos.
Ricardo: Como o sr. acha que a história contará esse capítulo, Lava Jato, Temer, Moro, Dallagnol, impeachment de Dilma, prisão de Lula, seja lá quem for o eleito?
Aragão: Como um período de profunda crise das instituições, profunda crise existencial do estado brasileiro. Mas só teremos um juízo perfeito do que está acontecendo quando soubermos o que virá depois. Se conseguirmos superar isso em um grande acordo nacional, e o Brasil, com isso, conseguir ter instituições mais legítimas, e melhor aceitas pela sociedade, terá sido uma grande lição. Agora, por outro lado, podemos pegarmos o caminho contrário, do autoritarismo moralista, com com discursos vazios sobre o certo e o errado. Tudo dependerá do que o país fará a partir dessa crise.
Ricardo: Ou seja, depende de quem vai contar essa história no futuro.
Aragão: É, no futuro as pessoas contarão esse capítulo a partir dos resultados dessa crise. Por enquanto, só estamos vendo o túnel, não a luz.