domingo, 18 de novembro de 2018

Quem adormece em democracia, pode acordar numa ditadura - Apesar dos avanços alcançados durante os governos do PT, o Brasil é hoje um país desigual e violento. Os jovens parecem surpreendidos: a ditadura não era coisa do passado?

 


"Vou fazer desse país uma democracia e, se alguém for contra a abertura, eu prendo e arrebento".
– General João Baptista Figueiredo

Manuel Serrano: Jair Bolsonaro foi eleito como novo presidente do Brasil. O que supõe a sua eleição para o seu país, para a América Latina e para o futuro da democracia na região?

Reginaldo Nasser: Quando perguntaram ao ex-presidente dos EUA, Nixon, na década de 70, se ele temia que o Brasil se tornasse numa “nova Cuba”, ele respondeu que não.

Que, na verdade, o Brasil poderia se tornar numa “nova China”. Portanto, sim, tem um efeito em todos os países da região, mas os países também apresentam as suas particularidades em relação aos militares, elites e demais sectores da sociedade.

A ditadura no Brasil foi um tema protelado, para que pudesse haver uma conciliação das classes, ao contrário da Argentina e do Chile. Nesse sentido, é um assunto não resolvido que voltou com uma força nunca antes vista.

Ainda assim, até ao momento, há indícios que se trata duma onda passageira (Trump, Bolsonaro). Contudo, só será assim se houver resistência e mobilização; e se a mesma estiver conectada internacionalmente.

A ditadura no Brasil foi um tema protelado, para que pudesse haver uma conciliação das classes, ao contrário da Argentina e do Chile.

Manuel Serrano: diversos comentadores tendem a descrever o novo presidente como o “Trump dos Trópicos”. Contudo, o professor escreveu recentemente que “Bolsonaro tenta mimetizar a linguagem e o estilo de Trump, mas parece se esquecer de que não está à frente de uma potência mundial”. Onde começam e acabam as similitudes entre um e o outro?

Reginaldo Nasser: até ao momento a analogia que podemos fazer é em relação à campanha eleitoral. Muito provavelmente, Bolsonaro tenderá a manter, durante o seu governo, o estilo Trump de menosprezar a grande midia e usar o Twitter e um tipo de comunicação informal com frases chocantes e polémicas.

O Oxford Internet Institute tem feito um acompanhamento dos conteúdos divulgados por Trump e pelos seus seguidores e concluiu que foram mais compartilhados na última campanha eleitoral norte-americana (intercalares) do que em 2016.

Portanto, ao que tudo indica, Bolsonaro continuará a usar essa técnica, claramente importada dos EUA, uma vez que a mesma ajuda a desviar a atenção dos problemas do país.

Manuel Serrano: que análise faz da nomeação do juiz Sérgio Moro como ministro da justiça? Estamos a falar da “fraude do século”? Coloca esta decisão em causa a operação Lava-Jato e a imparcialidade do sistema judicial brasileiro?

Reginaldo Nasser: Creio que a escolha do juiz Moro como ministro da justiça faz parte de um processo que contem vários elementos. E tal como num grande puzzle, as peças foram-se encaixando pouco a pouco. Teve inicio com o mensalão, tendo tudo o resto ido no sentido de alimentar o principal propósito: impedir o PT de chegar ao poder.

O golpe contra a presidente Dilma mostrou claramente que amplos sectores da sociedade se articularam com diferentes partes do Estado – polícia, judiciário, parlamento – para alijar o PT do poder seguindo as leis e a constituição.

Creio que a escolha do juiz Moro como ministro da justiça faz parte de um processo que contem vários elementos. E tal como num grande puzzle, as peças foram-se encaixando pouco a pouco.

A prisão do presidente Lula e o impedimento das manifestações veio comprovar isso mesmo. O vice-presidente eleito, o general Mourão, chegou a declarar que o juiz Moro foi consultado durante as eleições.

Manuel Serrano: o programa de Bolsonaro inclui medidas que vão contra direitos incluídos na Constituição Brasileira. O direito à vida, por exemplo, seria vulnerado se fosse permitido aos policias “matar à vontade” no decurso da sua actividade.

Acredita que o Supremo Tribunal Federal vai ser capaz de impedir que o presidente viole os direitos fundamentais dos brasileiros?

Reginaldo Nasser: Creio que o governo Bolsonaro encontrará resistência no judiciário, mas, sobretudo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Recentemente, a ministra Cármen Lúcia, determinou através duma decisão liminar que a única força legitimada a “invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais”.

A decisão garante assim a livre manifestação do pensamento e das ideias contra as decisões de juízes eleitorais que determinaram a busca e a apreensão de panfletos e materiais de campanha eleitoral nas universidades, em associações de docentes, e que proibiram aulas com temática eleitoral, assim como reuniões e assembleias de natureza política.

Está é sem dúvida uma acção positiva, mas que revela também que há vários sectores dentro do Estado que atentam sistematicamente contra o estado de direito.

A única força legitimada a invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais.

Manuel Serrano: como foi possível que a extrema-direita tenha chegado ao poder no Brasil? Quais foram para si os principais catalisadores deste resultado?

Reginaldo Nasser: Venho analisando há algum tempo o tema da contra-revolução, que é muito pouco estudado. Se analisarmos com atenção as obras de Marx, tais como o Manifesto do Partido Comunista e o 18 Brumário de Luís Bonaparte, apreciaremos uma preocupação em relação à contra-revolução. É preciso entender que a contra-revolução existe independentemente de a revolução ter acontecido ou não.

No Brasil, estamos falando de um processo que, timidamente, e de forma conciliatória, promoveu o combate à miséria e o acesso à educação superior de um percentual pequeno na sociedade.

E permitiu ganhos substantivos para o empresariado em geral e para os sectores financeiros em particular. Contudo, foi suficiente para despertar uma reacção quando o momento propicio apareceu. E isso acontece quase sempre em época de crise económica.

Foi assim que as elites chegaram a um consenso: colocar um fim na era do PT. Mas, durante essa movimentação, a extrema direita avançou além do que se esperava. Isso pode ser notado agora em jornalistas, políticos, e nalguns activistas que ajudaram a fomentar o antipetismo e agora aparecem como “madalenas arrependidas”. Mas não nos podemos iludir: esses sectores vão-se acomodar se as coisas “forem bem”.

Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão solene do Congresso Nacional destinada a comemorar os 30 anos da Constituição Cidadã. Geraldo Magela/Agência Senado/Flickr. Alguns direitos reservados.

Manuel Serrano: Polarização, ataques à imprensa, militares no governo. É assim que se suicidam as democracias?

Reginaldo Nasser: Quando avaliamos avanços e retrocessos na história, é sempre pertinente situar a situação de que estamos a falar. É inquestionável que a constituição de 1988 e o processo de mobilização social e política no país após a ditadura civil-militar foram avanços importantes.

Assim como o foram uma série de movimento sociais, tais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Contudo, ao mesmo tempo, a democracia tem sido corroída em várias frentes. Apesar dos avanços alcançados durante os governos do PT, o Brasil é hoje um país extremamente desigual e violento, sendo óbvio que são os mais vulneráveis que pagam a conta.

As questões episódicas que afloraram agora são a ponta do iceberg da reacção dos sectores mais conservadores aos anos de progresso.

Estamos a assistir claramente a como alguns grupos querem fazer um acerto de contas em todas as áreas. Nesse sentido, chama a atenção os ataques contra as universidades, os movimentos LGBTs, a livre-manifestação de ideias…

É preciso entender que a contra-revolução existe independentemente de a revolução ter acontecido ou não.

Manuel Serrano: falámos numa entrevista, realizada há um ano, sobre as notícias falsas e a parcialidade dos meios de comunicação no Brasil. Que influência tiveram ambos factores nestas eleições?

Reginaldo Nasser: Nestas eleições, as redes virtuais, principalmente o WhatsApp, foram decisivas. Muitos analistas comentavam que a candidatura Bolsonaro não descolaria, pois não possuía tempo suficiente no horário eleitoral gratuito.

Mas pela primeira vez, isso não foi decisivo. Os seus apoiantes, ancorados numa indústria muito bem organizada, tiveram una enorme influência sobre a eleição.

A jornalista da Folha de São Paulo, Patrícia Campos Mello, revelou como se montou a indústria das fake news em torno da candidatura de Bolsonaro. As eleições revelaram também a incapacidade das instituições de justiça em coibir esse tipo de acções.

Uma reportagem da BBC Brasil revelou a existência de estratégias de manipulação eleitoral e da opinião pública nas redes sociais, semelhante à usada pelos russos nas eleições americanas.

Em Dezembro de 2017, uma reportagem da BBC Brasil revelou a existência de estratégias de manipulação eleitoral e da opinião pública nas redes sociais, semelhante à usada pelos russos nas eleições americanas, que tem sido usada no Brasil desde 2012. Nada foi feito para combater este fenómeno.

Manuel Serrano: Pepe Mujica veio lembrar que “não há derrota ou triunfo definitivo”. O que pode fazer a oposição, e todas aquelas pessoas que defendem os direitos humanos, para garantir que o Brasil continua a ser a maior democracia da América Latina?

Reginaldo Nasser: é compreensível que várias pessoas entrem em pânico com a eleição de alguém que propaga um discurso belicista e ameaça os seus críticos.

Alguns lembram-se de 1964, e com razão, já que Bolsonaro fez questão de elogiar aquele que é o símbolo da tortura no Brasil: o coronel Ulstra.

Os mais jovens parecem tomados de surpresa, afinal de contas, dizem eles, a ditadura era coisa do passado. É preciso estar alerta o tempo todo, mas não podemos entrar num clima de medo: esse é o objectivo do terror.

Não nos podemos esquecer, em termos de votos totais, que o candidato vencedor teve à volta de 40% dos votos. E que em termos de votos válidos – excluindo os votos nulos, brancos e quem não compareceu – estamos a falar de 55% contra os 45% de Haddad.

Bolsonaro fez questão de elogiar aquele que é o símbolo da tortura no Brasil: o coronel Ulstra.

Os votos de Haddad vieram, em sua maioria, da região nordeste, dos mais pobres e das mulheres. Ou seja, a sociedade esta dividida.

Além disso, não nos podemos esquecer que o PT venceu quatro eleições presidenciais seguidas e muito provavelmente venceria a quinta se Lula não tivesse sido preso. Creio que se trata de um facto inédito no Brasil e, possivelmente, no mundo, em que a alternância de poder entre partidos se verifica mais regularmente.

É preciso, portanto, diferenciar o discurso das acções; muito embora as palavras e os gestos acabem por configurar uma estrutura social que encoraje as pessoas a agir por conta própria.

Há elementos nos discursos de Bolsonaro – além de gestos – típicos do fascismo. Mas até o momento, não se pode falar dum conjunto regular e organizado de acções fascistas.

Todavia, ele vai procurar agir “dentro da lei”, pois há uma estrutura institucional permissiva para realizar uma verdadeira “caça as bruxas”. De aí a importância da comunidade internacional.

Se a acção da extrema direita tem características marcadamente internacionais, o mesmo deve acontecer em relação à luta democrática.

Reginaldo Nasser é mestre em Ciência Política pela UNICAMP e doutor em Ciências Sociais pela PUC (SP). É professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

Manuel Serrano is a Portuguese journalist and political analyst. He currently works as a freelance Foreign Correspondent for DemocraciaAbierta. Previously, he worked as a Robert Schuman Journalist at the European Parliament and as a Junior Editor at DemocraciaAbierta (2015-2017). He holds a Bachelor’s degree in Law from ESADE Law School and a Master´s degree in International Relations (IBEI).

Um governo à imagem e semelhança de Bolsonaro - As indicações do presidente eleito Jair Bolsonaro para compor o seu governo conferem um nítido perfil de uma equipe à imagem e semelhança do seu discurso e do seu pensamento, sobretudo no período da campanha eleitoral. Começa pela presença de três generais do Exército (Hamilton Mourão, Augusto Heleno e Fernando Azevedo e Silva) e do tenente-coronel e astronauta Marcos Pontes, indicado ministro da Ciência e Tecnologia.

 


Na área econômica, os postos de decisão estarão em mãos acostumadas a lidar com o mundo financeiro e orientados por cabeças totalmente alinhadas com o pensamento conservador. A começar pelo superministro Paulo Guedes, que vem se acercando de auxiliares como Roberto Campos Neto para comandar o Banco Central (BC) e Joaquim Levy o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Com esse desenho, Bolsonaro cumpre a promessa de entregar a direção da economia a uma orientação concebida para fazer o Estado se amoldar à agenda clássica do neoliberalismo. A tarefa principal será lidar com os dilemas orçamentários, a anunciada redução dos gastos primários — despesas do Estado, exceto os juros — para cobrir o déficit de R$ 139 bilhões em 2019 e controlar o crescimento vertiginoso da dívida pública. Entram nessa conta a “reforma” da Previdência Social, as privatizações selvagens, o desmonte da administração pública e uma parcela das reservas cambias.

Com isso, é possível prever, já no início do novo governo, um brutal arrocho orçamentário em áreas essenciais para as necessidades básicas da população e para o desenvolvimento do país, em especial o setor de infraestrutura. O desmonte do Estado também será um processo acelerado, uma ação de extensão e profundidade superiores ao que vem fazendo o governo do presidente golpistas Michel Temer. Como consequência dessa política de terra arrasada no âmbito do Estado em setores que se conflitam com os interesses financeiros, a equipe de Bolsonaro anuncia mais uma ofensiva contra os direitos sociais e trabalhistas.

Outro ponto importante do novo governo já definido e totalmente alinhado com o pensamento de Bolsonaro é o Ministério da Justiça. A indicação de Sérgio Moro como outro superministro cumpre os prognósticos da campanha eleitoral da extrema direita de levar para o governo a prática persecutória da chamada Operação Lava Jato. Não se pode desconsiderar o simbolismo dessa indicação, uma vez que o estabelecimento de um Estado de exceção em Curitiba resultou em graves prejuízos para a nação, em especial no que diz respeito ao Estado Democrático de Direito. Ela é parte importante do sentido autoritário das promessas do presidente eleito.

Há ainda, como destaque nessa moldagem do governo à semelhança de Bolsonaro, a indicação do embaixador Ernesto Araújo para ministro das Relações Exteriores. Esse é um ponto essencial para se definir a natureza de um governo. A ele estão relacionadas questões como soberania nacional, inserção do país no cenário internacional e posições geopolíticas. O Brasil, que adquiriu elevado protagonismo na gestão do chanceler Celso Amorim nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, agora tende a se subordinar aos interesses estratégicos da geopolítica dos Estados Unidos, um retrocesso de grandes dimensões.

Com esses dados, conclui-se que Bolsonaro vem cumprindo rigorosamente o que anunciou, embora ainda existam setores relevantes do governo para serem preenchidos. O que já se pode antever são dias difíceis para o povo brasileiro. A natureza da crise econômica, que se reproduz na esfera política, com dimensões internacionais e uma profundidade inédita no pós-Segunda Guerra Mundial, deve ser enfrentada com atitudes patrióticas, preservando a soberania nacional e ampliando a democracia, exatamente o oposto do que se vê no caminho que vem sendo pavimentado por Jair Bolsonaro. 

 Da redação do Portal Vermelho

sábado, 17 de novembro de 2018

''O governo Bolsonaro está de joelhos para os Estados Unidos'' - As pessoas chegam e perguntam: é verdade que o juiz que condenou Lula virou ministro da Justiça de Bolsonaro? As pessoas não acreditavam. Mais grave, diziam: foi o juiz que impediu Lula de ser candidato. Me perguntavam: ele não favoreceu Bolsonaro? E virou ministro?

(Marcos Oliveira/Agência Senado)


*Texto de estreia de Lindbergh Farias no Blogue Nocaute:Queria começar minha primeira coluna dizendo que estive na semana passada em Bilbao, na Espanha, representando o PT no Fórum de Partidos Progressistas da Europa. É impressionante como eles estão chocados com o que está acontecendo no Brasil. As declarações do Bolsonaro repercutiram em toda a Europa. Jornais conservadores chocados com as posições dele defendendo ditadura militar, tortura. Preocupação grande com a questão ambiental e grande interesse para saber o que está acontecendo com o Lula.

As pessoas chegam e perguntam: é verdade que o juiz que condenou Lula virou ministro da Justiça de Bolsonaro? As pessoas não acreditavam. Mais grave, diziam: foi o juiz que impediu Lula de ser candidato. Me perguntavam: ele não favoreceu Bolsonaro? E virou ministro?

O mais grave é o que está acontecendo agora, nesse novo processo contra Lula. Porque Moro foi convidado a ser ministro da Justiça, está lá em Brasília andando para cima e para baixo com Bolsonaro. Mas ele está de férias, tem que pedir exoneração. Para que ele pede férias? Para o processo de Lula continuar sob suas asas com essa juíza substituta, que inclusive ontem foi muito desrespeitosa, autoritária com o presidente Lula.

A separação dos poderes é um princípio básico da democracia de lá trás, no liberalismo político, Montesquieu, espírito das leis. É um estado totalitário que estamos montando no país. Moro ministro da Justiça do governo Bolsonaro e ele interfere, continua trabalhando na Justiça para condenar o presidente Lula. Você junta Executivo e Judiciário: isso é estado autoritário.

Tem uma ponte entre o Moro e esse chanceler que está chocando o mundo também. Eu estou vendo a repercussão de todos os jornais do mundo, as pessoas não estão acreditando nesse chanceler Ernesto Araújo, nas ideias que ele defende. A ponte com o Moro é que a crítica dele vai lá atrás. O problema dele não é só com a esquerda. A crítica dele é ao Iluminismo, ao liberalismo político, de Locke, Rousseau, Montesquieu também. Nesse ponto tem uma ligação, uma visão autoritária. O chanceler fala do marxismo cultural que começa com a Revolução Francesa. A Revolução Francesa aconteceu em 1789. O Marx nasceu em 1818. É de uma extravagância, é impressionante. Eu li vários artigos dele, ele é pirado. É uma vergonha para a diplomacia brasileira.

Ele trata o Trump como se ele fosse um adolescente e o Trump o ídolo pop. Ele tem um artigo no qual ele diz que Trump vai reconstruir os valores do Ocidente, é impressionante. É constrangedor o Brasil estar numa situação como essa. O Brasil já está perdendo muito com o governo Bolsonaro. 60 milhões de brasileiros foram prejudicados com o Mais Médicos depois das declarações do Bolsonaro. Agora esse chanceler vai trazer muito prejuízo econômico ao Brasil, vai colocar o Brasil num alinhamento automático aos EUA. O governo Bolsonaro começa dessa forma: de joelhos para os EUA.

*Publicado originalmente no Blog Nocaute



CARTA MAIOR


"Sem cubanos, saúde pública sofrerá como um todo", afirma ex-ministro - Ex-ministro Alexandre Padilha, um dos idealizadores do Mais Médicos, diz que sistema de saúde brasileiro vinha aprendendo com profissionais cubanos e que mais pobres serão os mais afetados pelo fim da parceria com Cuba.

 


Um dos idealizadores do Programa Mais Médicos, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha afirma que, sem a participação dos profissionais cubanos, a perspectiva inicial é bastante pessimista para o futuro do atendimento básico nas áreas mais vulneráveis do país.

Após declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro, Cuba comunicou nesta quarta-feira (14/11) a decisão de sair do Mais Médicos. Mais de 8 mil cubanos atendem atualmente em todos os estados do país e no Distrito Federal.

"Caso a retirada dos médicos de Cuba seja imediata, nós teremos alguns meses de absoluta falta de atendimento de assistência para uma parte importante da população brasileira. Nunca nós conseguimos que, só com médicos brasileiros, fosse possível completar as vagas" disse o ex-ministro em entrevista à DW Brasil.

Lançado em 2013, o programa busca ampliar o atendimento básico de saúde nas áreas mais remotas do país. Ministro da Saúde nos três primeiros anos do governo Dilma Rousseff, Padilha, portanto, participou da gestação do plano e de sua implementação.

Para manter a parceria com Cuba, Bolsonaro exige que os médicos cubanos sejam obrigados a revalidar seu diploma no Brasil, recebam salário integral e possam trazer a família.

DW Brasil: Com a saída de Cuba, o programa Mais Médicos será prejudicado?

Alexandre Padilha: A exaltação do presidente eleito Bolsonaro ao conflito coloca em risco a saúde de milhões de brasileiros, que dependem do programa. Os médicos cubanos não disputavam lugar com os médicos brasileiros. É um revanchismo de alguém que, como deputado, foi contra o programa única e exclusivamente por causa de uma batalha ideológica. O Ministério de Cuba faz parceria com mais de 60 países pelo mundo. A atitude dele [Bolsonaro] mostra o despreparo do presidente eleito.

Qual sua avaliação sobre as propostas de Bolsonaro de exigir o Revalida e impor novas condições para a parceria com Cuba?

O programa teve sucesso exatamente porque criamos uma condição para que esse profissional possa atuar exclusivamente nessas áreas mais vulneráveis. Nós nos inspiramos em programas similares no mundo, como na Austrália. Se você estabelece como condição a revalidação do diploma, esse médico entra no mercado de trabalho como qualquer outro profissional. E, com isso, podem optar por locais mais próximos das grandes cidades.

O Ministério da Saúde disse que nos próximos dias irá lançar um edital para convocar médicos brasileiros e, assim, substituir os cubanos. Isso será possível, considerando que a seleção e o processo podem ser lentos?

Há, sim, uma lentidão nessas iniciativas. Demora de dois a três meses para que o profissional médico chegue ao local de trabalho. Caso a retirada dos médicos de Cuba seja imediata, nós teremos alguns meses de absoluta falta de atendimento de assistência para uma parte importante da população brasileira. Nunca conseguimos que, só com médicos brasileiros, fosse possível completar as vagas do Mais Médicos. Por isso, sempre lançamos mão da parceria com a Opas [Organização Pan-Americana da Saúde] e com o Ministério de Saúde de Cuba. Nós tínhamos um conjunto de áreas para onde não conseguíamos médicos brasileiros. A perspectiva é inicialmente bastante pessimista.

Quem será mais prejudicado com a saída dos cubanos?

Os mais prejudicados serão, em primeiro lugar, os brasileiros mais pobres, de áreas mais remotas, populações indígenas, quilombolas, famílias da região amazônica do Brasil, comunidades ribeirinhas e população das favelas das grandes cidades do país. Os médicos cubanos estão atendendo exatamente nas áreas mais vulneráveis. Sofrerá também a saúde pública como um todo, porque vínhamos tendo uma grande experiência e aprendendo com os médicos cubanos, pelo seu processo de formação, pela sua visão social, pelo seu compromisso com as áreas mais vulneráveis.

Os médicos cubanos ocupavam vagas que não foram preenchidas por brasileiros. Eles não competiam. Como exatamente era essa parceria?

A parceria com a Opas ocorreu quando lançamos o programa e identificamos, naquele momento, que cerca de 11 mil vagas que foram ofertadas a médicos brasileiros ou médicos estrangeiros de outros países não haviam sido ocupadas. E por isso nós fizemos essa parceria para atender as áreas mais vulneráveis. A atitude de Bolsonaro desrespeita a Opas, que é um braço da Organização Mundial da Saúde (OMS). As propostas dele foram derrotadas já no Congresso Nacional, quando ele era deputado e apresentou esses pontos contra o programa. Foram derrotadas no Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou constitucional o Mais Médicos. Foram derrotadas no Tribunal de Contas da União (TCU) e em pesquisas acadêmicas que mostraram a importância do programa.

Qual a sua avaliação sobre a atual situação e sobre o futuro do programa?

Hoje [dia do anúncio da decisão de Cuba] é um dos dias mais tristes para a saúde pública brasileira. O Mais Médicos era uma revolução interrompida já pelo governo Temer. E, agora, sofre um ataque grave. Tudo isso por conta de declarações e atitudes desastrosas do presidente eleito por preconceito e exaltação ao conflito. 

 Fonte: DW

 Portal Vermelho

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Carta de Berlim: Carta aberta ao companheiro e colega Fernando Haddad. E à Manuela.

(Reuters)






Berlim, 15.11.2018, 129º aniversário da nossa República ameaçada.

Caros Haddad e Manuela.

Resolvi escrever para vocês porque me dei conta de que há muitas cartas abertas para cá e para lá, e que eu me lembre agora nenhuma para vocês.

E eu sei como é duro perder uma eleição, ainda mais nesta dimensão de metade de um continente, um terço da América Latina, que é o caso do Brasil.

Há muitas coisas importantes a dizer. Por exemplo: como já ouvi e li, vocês  saíram maiores do que quanto eram na entrada da disputa. Não resta dúvida. Saíram maiores porque combateram o bom combate, com coragem, galhardia, ousadia, elegância, diante de adversários que foram covardes, obtusos, rastaqueras, deselegantes. Sem a timorata fuga dos que se o omitiram ou tardaram na escolha.

Combateram contra forças muito superiores: uma conspirata internacional, fake news, uma mídia mainstream hostil, uma tigrada da toga ávida de demolir a vossa frente política, uma corja de neo fascistas impunes à solta pelas ruas, um empresariado covarde e ávido de dobrar a exploração do povo, amplos setores de classe média e até de gente pobre a se comportar como os conhecidos macaquinhos, tapando os olhos, os ouvidos e a boca e, claro, o nariz, para votar em quem elogiava a tortura, a violência, a ditadura e esnobava os debates.

Assim mesmo, conseguiram quase 50 milhões de votos. Um feito admirável. Um passaporte para o futuro.

É claro que vocês não vão desanimar. O Haddad eu conheci como colega, e sei que não desanima. A Manuela conheci numa entrevista que fiz, para a Carta Maior, em São Paulo, e me encantei com a clareza de suas ideias generosas e o empenho com que as defende. Empenho: isto é diferente do tiroteio de frases mal compostas com que o candidato vencedor vem expondo ao ridículo a posição do Brasil no mundo, agredindo países, programas, organismos internacionais, resoluções da ONU que eu sei que vocês respeitam e promovem. Porque o empenho é uma coisa responsável. E o que o vencedor vem fazendo é o exercício da irresponsabilidade.

Detesto as comparações que situam a Europa (depois de Trump não dá para incluir os Estados Unidos) como algo “superior” ao Brasil, atitude, em geral, de quem adora curtir o transporte público nas metrópoles daqui mas que na nossa terra só quer maior espaço para o seu carrão. Porém devo dizer que por aqui Bolsonaro não se elegeria nem mesmo síndico de massa falida, quanto mais de prédio.

Devo dizer que por aqui a situação, ressalvadas as proporções, também não está fácil. A extrema-direita está acantonada em vários governos: Hungria, Polônia, Áustria, Itália. A direita escancarada dá as cartas em outros: Eslovênia, Eslováquia, República Tcheca, Lituânia, Letônia, Estônia… De um modo geral, a direita vem determinando a pauta política na Europa, inclusive na Alemanha. Os socialistas, social-democratas e verdes estão na defensiva, muitas vezes em crise de identidade. A crise financeira de 2007/2008 entortou ainda mais o espectro político, que já vinha torto desde a rendição dos social-democratas, socialistas e verdes aos princípios do neo-liberalismo ao final do século XX. Temos ensaios de recuperação: Podemos na Espanha, a Geringonça em Portugal, Franciso I no Vaticano, os verdes têm crescido em vários países,  embora venham se mostrando muito permeáveis (demais para meu gosto) a acordos com os partidos de direita, em nome de ascender ao governo. Mas que fazer? O SPD alemão, que se gaba de ser o partido mais antigo da Europa ainda em funcionamento, está reduzido a um puxadinho da União Democrata Cristã da chanceler Angela Merkel. Macron, na França, saiu de um PS tornado exangue pela péssima administração de François Hollande. A social-democracia nórdica soçobrou e se rendeu às iniciativas da direita. Por outro lado, Rússia e China jogam pôker com Trump, que é um jogador destemperado… 

Enfim, estamos numa situação difícil. Mas se algo de novo vai surgir, será daí, destes espaços da América Latina onde a história salta por estertores, arrancos, recua, dá piruetas e se equilibra e desequilibra na corda bamba. Graças a lideranças extemporâneas e surpreendentes, como foi a de Lula, e ainda é. Imaginem: a principal figura da política latino-americana estes num cárcere, injustamente condenado, sem provas de qualquer  espécie de qualquer crime de que seja acusado! Um cara respeitado mundialmente. Não sei se vai ganhar, mas é um forte candidato ao Nobel da Paz - coisa que o governo brasileiro tentaria impedir com todas as suas forças, ainda que no momento paire em nuvem de ridículo, coisa que o futuro governo só fará aumentar. E graças ao sangue novo de vocês, de Boulos, e de outros que se jogam nesta luta valorosa pela ética na política.

O novo governo promete ser uma piada trágica. Ninguém ali está preparado para governar. Nem o presidente e sua prole próxima, nem o astronauta que propagandeia travesseiros, nem o economista que vê o Brasil como um laboratório para retestar teorias pífias e fracassadas ao redor do mundo, nem mesmo o juiz provinciano que digeriu mal teorias alienígenas sobre a desimportância das provas e cometeu toda a sorte de arbitrariedades confessas para atingir seu objetivo… enfim, um cortejo de trapalhadas que produzirão muito mal e dor até que sejam varridas do mapa.

E há vocês, promessas de futuro. Vão em frente. Promovam a união dos democratas. Fujam de debates estéreis, sobre se a frente é popular ou democrática, ou sei lá o que mais, como se fossem coisas excludentes e opostas. Resistam à burocratização partidária, sem renunciar à organização dos partidos, mas com pluralidade e multiplicidade. Percorram o país. Abram-se para uma frente internacional e múltipla. Se preciso for, peçam a bênção do papa. E etc.: vocês sabem melhor do que eu, que fico na arquibancada do jornalismo, na torcida.

Um forte abraço, parabéns.

Flávio

CARTA MAIOR