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sexta-feira, 25 de março de 2016

O vermelho e o medo.

Manifestação no Brasil em 2015

Há mais de um século o anticomunismo tem sido força política relevante, capaz de inspirar militância fervorosa em defesa da ordem tradicional e contra a ameaça revolucionária.


Por Rodrigo Patto Sá Motta*


É difícil considerá-lo uma doutrina ou ideologia, pois mobiliza ideias e valores inspirados em matrizes distintas: catolicismo, nacionalismo e liberalismo. Apesar de heterogêneas, as representações anticomunistas no Brasil originaram uma tradição e inspiraram movimentos políticos convergentes que, em certos contextos, alcançaram grande repercussão. E pelo que se vê atualmente, o fenômeno permanece bem vivo.

Argumentos anticomunistas já circulavam no Brasil no final do século 19, porém se tornaram mais fortes após a Revolução Russa de 1917, que originou uma associação indelével entre comunismo e bolchevismo, tornados quase sinônimos desde então. No cenário político brasileiro, manifestações anticomunistas ocorreram em todo o período republicano, mas houve três grandes ondas mais críticas: de 1935 a 1937, de 1946 a 1948 e de 1961 a 1964. Nos três contextos, o temor da revolução vermelha incrementou a repressão, que atingiu alvos muito além dos círculos comunistas. Nas ondas dos anos 30 e 60, o anticomunismo foi elemento-chave das mobilizações que levaram aos dois golpes autoritários mais importantes do século no Brasil, deflagradores de nossas mais longevas ditaduras.

A chamada Intentona Comunista, em novembro de 1935, originou uma legenda negra reproduzida ao longo das décadas seguintes: o levante foi representado como exemplo das características maléficas atribuídas aos revolucionários, que teriam cometido crimes como estupros, assassinatos a sangue frio e roubos, considerados uma decorrência dos ensinamentos da “ideologia malsã”.

Os impactos políticos desse processo foram importantes. O golpe de novembro de 1937 começou a ser desenhado sob a fumaça dos combates de 1935, que ofereceram justificativa para as medidas autoritárias do governo Vargas. O preâmbulo do texto constitucional do Estado Novo rezava que o regime atendia ao “estado de apreensão criado no país pela infiltração comunista, que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda, exigindo remédios, de caráter radical e permanente”.



Manifestação no Brasil em 1964 


 
Assim, quando a Guerra Fria começou, no fim dos anos 1940, já existia uma tradição anticomunista enraizada no Brasil, tanto no imaginário como nas leis e nas estruturas repressivas. É certo que o empenho contrarrevolucionário dos Estados Unidos trouxe novo ânimo à direita brasileira, mas não foi uma reprodução simples dos modelos estrangeiros, e sim uma recepção seletiva. Os argumentos anticomunistas de inspiração liberal tiveram pouca acolhida, enquanto os valores católicos mantiveram posição dominante. Além disso, a apropriação de princípios liberal-democráticos ocorreu de maneira superficial, com o sentido de “democracia” resumindo-se à mera contraposição ao “comunismo”. Prova disso é que “democratas” não hesitavam em tomar medidas autoritárias.

Durante a redemocratização posterior à Segunda Guerra Mundial, a conjuntura era inicialmente favorável aos grupos de esquerda e ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que colheu votações expressivas e conquistou influência preponderante no movimento sindical e nos meios intelectuais. Amedrontados, os grupos de direita responderam com forte campanha anticomunista. Em 1947, o PCB foi proscrito pela Justiça e retornou à clandestinidade, e o governo de Eurico Gaspar Dutra rompeu relações diplomáticas com a União Soviética, que só seriam retomadas em 1961.

No início dos anos 1960, auge da influência da Revolução Cubana e das lutas terceiro-mundistas, a cena pública brasileira foi ocupada por demandas reformistas, que reivindicavam transformações profundas nas estruturas agrária e política. O aumento da influência da esquerda beneficiou o Partido Comunista e originou novas organizações socialistas, tanto marxistas como cristãs. Com a renúncia de Jânio Quadros e a ascensão do vice-presidente João Goulart, em setembro de 1961, a esquerda brasileira teve sua primeira oportunidade de influenciar efetivamente os rumos da nação, a partir de uma aliança com os detentores do poder federal.

Embora fosse um rico estancieiro gaúcho, Goulart era político trabalhista sensível aos argumentos de esquerda, principalmente às demandas dos movimentos por reformas sociais. Durante seu governo houve aumento no número de greves, ocupações de terras e mobilizações estudantis, o que levou muitos ativistas de esquerda a se imaginarem às portas da revolução. Concomitantemente, a direita provocou nova onda de mobilizações contra o comunismo, potencializada pela Guerra Fria e pelo interesse dos Estados Unidos em fechar o caminho à esquerda revolucionária.

Em parte, o recurso à tradição anticomunista era uma estratégia para facilitar o proselitismo da campanha contra Goulart, ou seja, resultava da “indústria do anticomunismo”, expressão criada para criticar os manipuladores do perigo vermelho. Mas o oportunismo não explica tudo, pois os comunistas eram de fato percebidos como os líderes mais influentes à esquerda. A sensação de que o campo socialista estava em ascensão no mundo, especialmente na América Latina, também contribuía para tornar convincente o apelo direitista.

Outros fatores influenciaram o golpe de 1964, como a crise econômica, com inflação descontrolada e redução das taxas de crescimento, e denúncias de corrupção contra o governo. Entretanto, a crença na “ameaça comunista” foi o tema mais importante na mobilização golpista, com destaque para as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Os argumentos nesta direção uniram grupos que divergiam em outras questões, com a vantagem de expressar a crise em linguagem compreensível para amplos setores sociais, há muito acostumados a ouvir discursos sobre o “perigo vermelho”.




Além de superar as divergências dos golpistas, o anticomunismo contribuiu para a legitimação do novo regime, pois seus líderes continuaram usando o “perigo vermelho” para convencer a opinião pública da justeza das ações autoritárias. Entre os militares, o discurso foi igualmente útil para superar divisões internas, configurando um sentido de missão: o anticomunismo garantia aos oficiais o papel de defensores da ordem e justificava o engajamento em atividades de coleta de informações e de repressão política.

Com a saída dos militares do poder e a redemocratização nos anos 1980, o “perigo vermelho” tornou-se secundário no debate político e nas manifestações públicas. Por isso, a força da mobilização anticomunista observada desde a campanha eleitoral pela reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, é surpreendente. Seria este revival uma nova onda, ou apenas marola?

Em certos momentos, parece que o Brasil retornou a 1964, tal a intensidade com que certos atores brandem palavras de ordem parecidas com as da época. Nas ruas de algumas cidades, militantes antipetistas gritam “Vai para Cuba!” quando encontram seus adversários. O burburinho é especialmente forte nas chamadas redes sociais, com o surgimento de um sem-número de comunidades virtuais reverberando ataques anticomunistas.

Para tentar entender o fenômeno, vale compará-lo com a tradição anticomunista anterior. A sensibilidade religiosa, ainda que presente nas manifestações recentes, perdeu o seu tradicional lugar de proeminência. Assumem lugar de destaque os argumentos liberais contra o comunismo, o que revela mudanças importantes nos valores da sociedade brasileira: nos dias atuais, a defesa das virtudes do mercado, acompanhada de críticas ao Estado e à sua suposta ineficiência, sensibiliza número maior de pessoas do que em décadas passadas.

O medo das forças estrangeiras continua presente, mas a ameaça externa, evidentemente, não é mais a União Soviética, tampouco a China. É Cuba que permanece presente no imaginário anticomunista, apesar de sua fragilidade e das recentes mudanças de rumo no país. A contratação de médicos cubanos para atuar em áreas carentes do Brasil serve aos mais imaginosos como prova da infiltração comunista. Na linha da ameaça externa mobiliza-se ainda o perigo “bolivariano” de governos vizinhos, sobretudo a Venezuela.

Fica clara a expansão da influência dos valores de direita, cujo impacto político e cultural é visível nos últimos anos no Brasil e em várias partes do mundo. Até em espaços tradicionais de esquerda, como as universidades, percebe-se a intensificação de discursos conservadores. Isto significa que há um núcleo ideológico sustentando tais campanhas, baseado em militantes convictos e temerosos em relação à ala esquerdista do governo Dilma.

Além disso, a boa recepção aos discursos anticomunistas deve-se a um sentimento difuso de desconforto com as mudanças da última década, que provocaram a ascensão social de pessoas pobres e não brancas no Brasil. Por lentas que sejam, essas transformações ferem a sensibilidade de segmentos privilegiados: acostumados com a abissal desigualdade social brasileira, eles clamam contra o “comunismo”.

Apesar disso, a atual mobilização anticomunista não parece ter a mesma força das grandes ondas históricas. Afinal, a sensação de “perigo” não é muito convincente: os comunistas verdadeiros são pouco influentes, já não existem forças estrangeiras poderosas sob esse regime interessadas em fomentar a revolução, não há mais potências empenhadas em virulentas cruzadas anticomunistas. Nem mesmo os militares da ativa parecem acreditar que a pátria corre perigo por causa dos vermelhos. O governo Dilma não demonstra interesse em políticas radicais, apenas em continuar diminuindo algumas desigualdades sociais, com cuidados para acalmar o mercado financeiro.

É improvável uma reedição de 1964 pela via do anticomunismo. Menos mal, pois, historicamente, os verdadeiros perigos para a democracia brasileira se concretizaram não pela ameaça comunista, mas justamente pelas tentativas de combatê-la.
 

*Rodrigo Patto Sá Motta é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de Em guarda contra o perigo vermelho, o anticomunismo no Brasil: 1917-1964

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