CEZAR CANDUCHO

domingo, 23 de outubro de 2016

Marco Aurélio Garcia defende autocrítica do PT, sem aceitar agenda conservadora - Seminário promovido pelo PT e pela CUT de MG debateu 'O Golpe e a Desconstrução do Estado Democrático de Direito', na Assembleia Legislativa em BH.

EBC



Eduardo Maretti - Rede Brasil Atual


São Paulo – Ex-assessor especial para assuntos internacionais dos governos do PT, Marco Aurélio Garcia convidou o público do seminário O Golpe e a Desconstrução do Estado Democrático de Direito, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte, hoje (20), a fazer uma reflexão sobre o golpe que derrubou Dilma Rousseff da presidência da República e, mais do que isso, a respeito do processo em curso no país e o papel da esquerda e do PT. Segundo ele, apesar do ataque da direita e do contexto internacional em que ainda se prolonga a crise mundial iniciada em 2008, as forças que governaram o país precisam reconhecer seus erros.
 
"Costumamos atribuir tudo a componentes externos, julgar que a responsabilidade é externa. Precisamos fazer uma análise crítica do país e das responsabilidades que nossos governos, nossos partidos, nossos sindicatos têm no processo. Não foram só nossos inimigos, mas também nossos erros", disse. Garcia ressalvou que não são os adversários ou a imprensa que têm de fazer tal análise, como vêm fazendo, mas que ela cabe às próprias forças de esquerda. "A autocrítica, vamos fazê-la sem que seja imposta a nós a agenda conservadora que querem nos impor."
 
O dirigente disse ainda que a proposta de mudar a direção do PT e antecipar o congresso do partido do segundo para o primeiro semestre de 2017 deve ser discutida, mas que isso não é o fundamental no momento. "O que não pode prevalecer são os interesses sobre as ideias. Os interesses têm que ser submetidos ao império das ideias. Temos de pensar a crise e o futuro do país. O que está em jogo não é o PT, embora também seja o PT, mas o país. Que a mudança do PT sirva para a mudança do Brasil."
 
Garcia afirmou que as forças progressistas precisam reconhecer terem sofrido uma derrota, e que ela “é estratégia e tática”. Ele destacou a atualidade do livro O 18 Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx, e sua semelhança com o Brasil de Michel Temer. "Mais do que entender como um personagem medíocre ascendeu a chefe de Estado, o que temos que entender é que circunstâncias permitiram isso. Um personagem medíocre está promovendo uma contrarreforma extraordinária no Brasil." Em sua opinião, o quadro do país é grave, mas não irreversível. O livro de Marx analisa os fatos (entre 1848 e 1851) que levaram ao golpe de estado pelo qual Napoleão III se autonomeou imperador na França.

Influência dos EUA


Com uma fala carregada de ironias, o diplomata Samuel Pinheiro discorreu sobre a contrariedade dos Estados Unidos com os governos progressistas que se espalharam pela América do Sul a partir da primeira metade do século 21, e agora substituídos por governos que voltam a representar os interesses do império.

Segundo Pinheiro, um dos aspectos que mais preocuparam os estadunidenses foi a crescente influência da China no subcontinente americano, já que o país oriental passou a ser o maior aliado comercial do Brasil. “O que define a política americana não é ser democrática ou não, mas se os Estados contrariam seus interesses.”

Apesar do governo Dilma ter feito até esforços para agradar o mercado financeiro internacional, observou o diplomata, como nomear Joaquim Levy, “um funcionário de quinta categoria do Bradesco”, para ser ministro da Fazenda, o governo petista acabou não resistindo porque “tinha um pecado de origem”, disse Pinheiro.

Esse pecado nunca foi perdoado pelas elites e pelos grandes interesses nacionais e internacionais: “Pela primeira vez, um operário na história do Brasil assumiu a presidência, com tudo o que isso envolve, à frente de um partido dos trabalhadores. Coisa extremamente desagradável para o império.” Diante das risadas do público, ele acrescentou: “Vocês estão rindo? O império não ri, não. Ele está filmando tudo.”

O sociólogo Emir Sader, que após o seminário lança o livro “O Brasil que Queremos”, que ele organizou, também destacou os interesses norte-americanos contrariados pelos governos Lula e Dilma. “Em julho de 2014, em Fortaleza, se deu a mais importante reunião estratégica desde o fim da Segunda Guerra, quando os Brics fundaram o Banco de Desenvolvimento para atender aos países como alternativa ao FMI.”

Para Sader, a “virada” na América do Sul, com a retomada do poder por aliados dos Estados Unidos, “está sendo implementada de maneira selvagem”.

Com Emir Sader, Samuel Pinheiro e o coordenador da Federação Única dos Petroleiros, José Maria Rangel, Garcia participou da mesa 2 do seminário, “A relação e as consequências do golpe com a crise econômica mundial: a reorganização do capitalismo, o fator petrolífero e os ataques aos Estados democráticos”.

Indústria


"O governo Temer, golpista, está destruindo a política de conteúdo nacional que construímos (nos governos petistas), disse o secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre, na mesa 1, pela manhã. Segundo ele, está sendo incentivado novamente no país um tipo de indústria que foi combatida pelos sindicatos e centrais comprometidos com os interesses dos trabalhadores.

“Querem que o Brasil volte a ser exportador de minério e compre produtos industrializados de fora do país, atendendo aos interesses das multinacionais. Se esse tipo de indústria prevalecer, nossos alunos de engenharia, por exemplo, vão ter que trabalhar na Alemanha, no Canadá e Estados Unidos, porque a indústria não vai demandar esse tipo de mão de obra. O que vai ficar para a classe trabalhadora é o trabalho de dois salários, mal remunerado. É isso que está em curso no Brasil”, afirmou Sérgio Nobre.

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