Sai de cena o líder político e adentra o palco de batalhas ideológicas o mito, a figura simbólica que vai inspirar a luta por justiça social e defesa dos menos favorecidos, a legitimação da soberania nacional e o protagonismo sul americano nas contendas internacionais.
As demonstrações de dor coletiva contradizem, inequivocamente, a imagem que a grande imprensa latino americana, inclusive a brasileira, construiu e difundiu de forma mesquinha: a de que Chávez governava como ditador em um ambiente sem espaço democrático para todos.
Cortejo fúnebre mostrou que o povo venezuelano sofreu a perda de um grande líder, um amigo. Milhões foram às ruas dar o último adeus e prestar sua homenagem.
Tiranos ou ditadores quando depostos, derrotados ou mortos, o povo sai às ruas, mas para comemorar a vitória sobre a opressão e seu opressor, se apressa em destruir todo o conjunto de sentidos, sejam políticos, sejam ideológicos ou que sejam objetos que representem tal período que tiveram que passar sendo subjugados contra a própria vontade. Não foi o que se viu, muito pelo contrário. As imagens transmitidas de Caracas para o mundo inteiro desmentem tamanha deformação dos fatos.
Àqueles que chamam Chávez de ditador não tem conhecimento sobre a Venezuela suficiente para poder opinar desta maneira e, como os reacionários da política tradicional ou das redações, não entendem porquê governos populares, por estes condenados, se mantém de pé apoiados pela maioria do povo. Preferem, contraditoriamente, elogiar governos impopulares mundo afora, que são alvos da ira da população por suas medidas que somente penalizam os mais pobres e suas escolhas de privilegiar os interesses de quem detém a riqueza. Como já fizeram por aqui nos anos 1990...
Conservadores se apressaram em relativizar legado do presidente morto e pôr em dúvida o futuro da revolução bolivariana.
A Veja chegou a afirmar, categoricamente, que o Chavismo morreu junto com Chávez.
Os holofotes midiáticos agora iluminam Caprilles, adversário que Chávez derrotou. Imprensa tenta, desde já, vender a ideia de que o opositor é o personagem que unificará a Venezuela.
Unificar o que?
A grande maioria à uma pequena minoria, derrotista, entreguista e pró-Washington?
A favor de quem?
Absolutamente, não em nome da maioria...
O que virá é de difícil previsão, mas Nicolas Maduro, presidente em exercício, é favorito e conta com imenso capital político a seu favor: a imagem do mito para o qual colaborou e o desejo expresso de Chávez de que o povo o apoiasse como seu sucessor, quando teve que fazer a quarta cirurgia em Cuba.
Rodrigo Vianna acompanhou o evento histórico dos mais dolorosos para a Venezuela e trecho de seu relato expressa aquilo que se viu e a dimensão do mito que se ergue no pantheon dos heróis latino americanos:
"...Do alto, imagem que impressiona. Mas é preciso baixar à rua e olhar a história da América Latina para compreender de que multidão se trata.
De táxi, eu tentava me aproximar do Forte Tiúna - sede do comando das Forças Armadas da Venezuela, onde ocorre o velório de Hugo Chávez. O motorista que me conduzia olhava a multidão nas ruas e dizia: "quanto estão pagando a essa gente para vir até aqui?" Ah, os taxistas...
Desci do carro, segui a pé com o cinegrafista Josias Erdei. Multidões desciam dos morros. Mães com crianças de colo, homens jovens de mãos dadas com as mães já alquebradas pela idade, pais conduzindo famílias inteiras pelas ruas. Tristeza, sim, mas sem desespero. E os gritos: "Chávez vive, la lucha sigue".
Essa é a multidão da democracia, tantas vezes pisoteada na América Latina. Pisoteada no assassinato de Gaitán na Colômbia em 1948, no suicídio de Vargas em 54, nols golpes militares do Cone Sul dos anos 60 e 70. A multidão vermelha de Caracas é a mesma que baixou dos morros, em 2002, e garantiu o mandato de Chávez. Os golpistas tinham as televisões, os empresários, a classe média. Chávez tinha o povão. Ou seria o contrário: o povão tinha Chávez, e dele não abriu mão.
É preciso lembrar sempre: a multidão precede Chávez na história da Venezuela. Não foi Chávez que inventou a multidão, mas a contrário: a multidão é que inventou Chávez."
Os conservadores terão que se reinventar e/ou inventar o antídoto que destrua tão genuíno orgulho popular para vencer esta batalha, ou apelar para o golpe e cooptação, como de costume.
Chávez agora é História e transcende como símbolo de luta e resistência popular.
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TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA = ALAGOA - AIURUOCA - DELFIM MOREIRA - ITAMONTE - ITANHANDU - MARMELÓPOLIS - PASSA QUATRO - POUSO ALTO - SÃO SEBASTIÃO DO RIO VERDE - VIRGÍNIA.
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