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terça-feira, 4 de outubro de 2016

O PT corre atrás das mudanças que ajudou a despertar.

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por Luiz Carlos Azenha
Quando o PT foi formado, em 1980, o Brasil lutava contra a ditadura militar. O partido surgiu como frente de intelectuais, militantes das Comunidades Eclesiais de Base da igreja Católica e o operariado do ABC paulista, onde estava o mais moderno da indústria brasileira. Era o auge da presença da indústria no PIB, com cerca de 22%, um aumento vertiginoso em relação aos anos 50 (mais ou menos 10%).
A tarefa principal da ditadura tinha sido a de organizar a mão-de-obra brasileira dentro dos parâmetros necessários à expansão multinacional dos Estados Unidos: arrocho salarial, controle absoluto sobre a organização sindical, supressão contínua de direitos. A Globo, como hoje, fazia o roteiro do golpe: festejava periodicamente o Operário Padrão, que ganhava premio por bom comportamento e aparecia no Jornal Nacional como exemplo de ascensão social. Era a versão retrô da ‘meritocracia’, ascensão individual obtida pelo estudo e pelo trabalho, nunca pela organização coletiva ou — Deus que nos livre — pela reivindicação de direitos.
Para a ditadura o PT era uma péssima notícia, mas menos ruim que o retorno de algum Partido Comunista que àquela época ainda pregava “derrubar o sistema” — vivíamos em plena Guerra Fria. O caráter reformista do partido estava claro desde o início: a luta se daria dentro das instituições  e as grandes greves do ABC, ainda que abalassem a credibilidade da ditadura, tinham como pressuposto a luta por melhores salários e condições de trabalho.
O horizonte reivindicatório sempre foi dado por Lula e ainda hoje o ex-presidente repete que o brasileiro quer uma casinha, um carrinho na garagem, o churrasco no fim de semana, comprar o mesmo perfume que a classe média, voar de avião, fazer três refeições por dia e colocar o filho na universidade — ambições extremamente ligadas ao aumento da capacidade de consumo, ainda de tremenda repercussão social num dos países mais desiguais do mundo.
Mas, o que mudou nestes 36 anos desde o surgimento do PT?
Aquela sólida base industrial sobre a qual emergiu o PT se esboroou. Em primeiro lugar, as montadoras migraram do ABC em busca de salários mais baixos em outras regiões do Brasil. Em segundo, a participação da indústria no PIB voltou às taxas dos anos 40: é, agora, de novo, de mais ou menos 10%. Na divisão internacional do trabalho, o papel relegado ao Brasil é eminentemente o de exportador de grãos e matéria prima. Grande parte do capital e, portanto, do lucro, é internacional.
Basta viajar pelas novas fronteiras agrícolas do Brasil para constatar isso: no interior do Maranhão, à beira das estradas, ficam os campos de testes das sementes. Os brasileiros entram com as terras, a água, o sol e a mão-de-obra barata. O dinheiro mesmo fica com as empresas que controlam as sementes, exportam os grãos e produzem os venenos — nenhuma delas brasileira. No entorno de Carajás ou ao longo da ferrovia através da qual o Brasil exporta minério de ferro, a pobreza estabelece um doloroso contraste com o valor internacional da carga que deixa o país pelo terminal marítimo de Ponta da Madeira — é a Vale, privatizada, exportando dinheiro.
Nas últimas três décadas e meia desde a fundação do PT, as metrópoles brasileiras incharam. Houve uma explosão de empregos de baixa qualidade no setor de serviços. E mais alguns milhões no chamado “precariado”, dos quais se destacam os terceirizados da limpeza, da segurança e os atendentes de telemarketing. Aqui não se trata de saber se o PT poderia ou não ter feito mais, mas de constatar a falta de relação política substantiva entre o partido e este gigantesco número de trabalhadores brasileiros. O sindicalismo ligado ao PT perdeu grande parte de sua capacidade de mobilização.
É legítimo que o PT, como verdadeiro partido social democrata brasileiro, tenha se deslocado para as tarefas da institucionalidade: governar prefeituras, estados e, durante 13 anos, organizar uma coalizão no Planalto que permitiu a ele fazer o chamado “reformismo fraco” calcado, acima de tudo, na promessa de consumo. Promessa duramente comprometida desde que a crise de 2008, adiada, alcançou o Brasil em cheio.
Um dado muito significativo apareceu numa pesquisa do Datafolha divulgada durante o período eleitoral de 2014: na faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos, fortemente inclinada a votar no PT, apenas 9% acreditavam que o Estado tinha tido algum papel em sua relativa ascensão social, enquanto 89% atribuiam o avanço à “meritocracia”, aquela mesma do Operário Padrão.
Quando as ruas explodiram, em 2013, a reação automática de uma parcela razoável de militantes do PT foi… culpar o povo. Ou o Movimento Passe Livre. Ou o PSOL. Praticamente não se falou na inabilidade política do prefeito Fernando Haddad, que posou ao lado do governador tucano Geraldo Alckmin no Palácio dos Bandeirantes. Obviamente, no início das manifestações não se falava em 20 centavos, mas nas demandas sociais reprimidas, criadas pela frustração das expectativas de consumo e serviços que o próprio PT no poder tinha alimentado.
Expectativas, diga-se, muito saudáveis: arroz, feijão, saúde e educação, como se costumava gritar contra a ditadura — só que agora era o PT quem estava na fonte mais visível do poder.
Escrevemos aqui, não exatamente nestes termos, que eram as criaturas devorando o criador, que preso à política de conciliação de classes não tinha como impor perdas aos de cima.
Financiada pelo PT, a mídia demonizou o partido ao longo de ao menos 10 anos? Sim. A investigação da corrupção no Brasil é parcial e politicamente motivada? Sim. A Justiça brasileira atua com dois pesos e duas medidas? Sim. Porém, é sempre bom enfatizar — como já enfatizamos — que não houve esquema de financiamento de campanha dos tucanos que o PT não tenha herdado e levado adiante. É só observar a sobrevivência nos bastidores do poder nacional de figurantes como o doleiro Alberto Yousseff, o operador Marcos Valério, o senador tucano-petista Delcídio do Amaral, o engenheiro tucano Dimas Toledo e o executivo tucano-peemedebista Sergio Machado — estes últimos comandaram, respectivamente, as estatais Furnas e Transpetro sob o PT. Dimas ficou em Furnas por acordo entre Lula e Aécio Neves e só caiu depois de denunciado no mensalão petista.
Trancado nos gabinetes em meio a todos os conchavos políticos que acreditou necessários para manter a governabilidade, o PT não entendeu que na complexidade de 2013 emergia também uma nova forma de fazer política, uma horizontalidade que diminui o poder dos caciques e dispensa a mitologia em torno de um grande guia condutor. Foi com ela que o PSOL, com apenas 11 segundos de TV e sem marqueteiro, conseguiu passar ao segundo turno no Rio de Janeiro.
As eleições de domingo foram um choque para o PT. Uma saída é culpar o eleitor e, nos moldes do ditador Figueiredo, dizer que afinal o povo não sabe votar. Outra é tentar entender, por exemplo, porque em São Paulo o partido perdeu em toda a cidade, de ponta a ponta, inclusive em todos os seus redutos eleitorais, com metade de seus tradicionais 30%. Ou analisar a furiosa migração de seus quadros para outros partidos ao longo da temporada eleitoral.
Num quadro de desencanto generalizado com a política, expresso por taxas recordes de abstenção, votos nulos e brancos, o PT deve à sua militância uma reflexão interna que não fique apenas em apontar o dedo para os outros. Longe de “acabar”, como quer o Merval, partidos como o PT, que ainda preservam “cognição sumária” com setores importantes da sociedade brasileira, são agora mais necessários do que nunca.
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