CEZAR CANDUCHO

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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Lições fundamentais deixadas por Fidel para as organizações de esquerda.

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Sugerido por Igor Felipe Santos
Lições fundamentais deixadas pelo gigante Fidel Castro para as organizações de esquerda e os povos de todo o mundo, sistematizadas pelo Ronaldo Pagotto. Neste momento de desesperança,  desorientação e oportunismos,  esses apontamentos e o exemplo de vitória do povo cubano se constituem como balizas para a reorganizacao da esquerda no Brasil e no mundo.
Por Ronaldo Pagotto
No Brasil de Fato
“Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu último pensamento será para o povo e especialmente para ti, que te digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, ao que tentarei ser fial até ás últimas consequências dos meus actos”
Ernesto Guevara de la Serna, Che. Carta de despedida, 1965. Lida por ocasião da notícia do assassinato de Che na selva boliviana.
Os processos históricos são, e sempre serão, sociais, obra dos povos. Especialmente as revoluções – triunfantes, como Cuba; ou interrompidas, como a brasileira e da maioria dos países latinos. Mas a constatação de que a história é obra das grandes massas, é dizer, do povo, não deve ofuscar o que ficou consignado como “O papel do indivíduo na história”, em referência à obra com esse título do pensador Menchevique russo Guiorgui Valentinovitch Plekhanov. Fidel é a expressão máxima de uma geração que foi capaz de fundir intenção e gesto. E demonstrar o quanto isso é potente na história dos povos, especialmente na luta revolucionária.
Muitos são os especialistas no pensamento de Fidel, capazes de sistematizar a obra do Comandante com maestria. Mas apresento algumas formulações de Fidel que engrandeceram o pensamento transformador, o pensamento revolucionário.
Não se trata de uma centralização na figura dele dos êxitos de uma revolução e da ação do povo cubano, mas destacar o papel do Fidel como formulador e construtor de concepções atuais e relevantes.
1. A Teoria da Revolução: o papel dos países não desenvolvidos é fazer a revolução
Ao final da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, combinada com o triunfo da Revolução Chinesa, teorias sobre a chamada coexistência pacífica entre o bloco Imperialista com o bloco liderado pela URSS (a unidade entre os dois blocos foi responsável pela derrota do Eixo), bem como as teses de superação do capitalismo a partir do progresso econômico do bloco socialista conviviam com as tensões da Guerra Fria.
A URSS passou a defender uma posição de coexistência e a buscar o apoio dos povos do mundo para manter e avançar o Socialismo Soviético. Isso resultava em uma política de baixar a temperatura da luta revolucionária em nome da defesa da sustentação da URSS. Isso está no centro da cisão – sino-soviética – e gerou uma reação de diversos cantos do mundo em contestação a posição oficial da URSS. Uma dessas posições veio de Fidel Castro, que a partir Cuba afirmava: o papel do revolucionário é fazer a revolução (em detrimento da linha de que o papel seria defender a URSS). Essa concepção é chave para compreender o pensamento do Comandante.
2. A questão nacional na luta revolucionária
A expansão do marxismo foi acompanhada de diversas características – ou especificidades – da Europa como sendo conteúdos universais. O tema da chamada “questão nacional” no marxismo era tratado como parte de um problema: o nacionalismo burguês expansionista. Entretanto, diferentemente dos países do centro econômico do mundo, os países dos chamados países subdesenvolvidos, terceiro mundistas ou em desenvolvimento, eram absolutamente distintas.
Duas distinções se destacam: a emergência do imperialismo como força econômica, militar, política, cultural e tecnológica e as formações econômicas e sociais oriundas do colonialismo e submetidas as novas partilhas do mundo (séculos 19 e 20). A bandeira nacional se combina com os interesses do povo, em parte pelo destino comum abaixo da exploração colonial-imperialista e em parte pela atuação das classes dominantes sem projeto nacional e associadas (como sócias subalternas) às classes dominantes dos países centrais.
Portanto, falar em defesa nacional e em pátria nesses países é falar em interesses populares e democráticos. Por isso, ao Cuba defender a Revolução Cubana com os símbolos nacionais e em nome da Pátria (sob a palavra de ordem “Pátria ou morte”) em nada se confunde com o nacionalismo burguês, ao nacional chauvinismo que fermentou os preparativos da Primeira Guerra Mundial.
Com essa posição, Fidel constrói, juntamente com diversas outras figuras da luta revolucionária, outro “lugar” para a questão nacional, unida com as bandeiras democráticas e populares na luta revolucionária.
3. Marxismo vivo se produz a partir da realidade
O marxismo deve ser capaz de preservar suas formulações de conteúdo universal e com vigência temporal para o futuro, combinadas com o desafio de compreender as realidades específicas, concretas no dizer de Lenin, e para tanto precisa ser permanentemente construído.
Esse pensamento se distancia de concepções no interior do campo marxista que valorizam as formulações clássicas como absolutas e de conteúdo universal, incorrendo em uma universalização de formulações particulares – por que não dizer quase sempre eurocêntricas ou a partir dos debates dentro da URSS – conformando um marxismo dogmático e que desmerece um princípio caro ao pensamento: a teoria advém da realidade, da ciência e da história.
4. A política e a aplicação das táticas
Fidel ficou conhecido pelo triunfo em Cuba. Mas sua marca sempre foi a capacidade política de conjugar táticas distintas, nunca aplicadas isoladamente, mas o contrário, a partir da combinação delas. Por isso, sua formulação da guerra de guerrilhas (guerra irregular) não foi isolada, mas combinada com uma política para a cidade, os operários, estudantes e para a ação internacional. Uma engenharia política que soube combinar as distintas táticas de forma a dotar as ações de maior capacidade de mudar a correlação de forças, de ampliar o apoio, enfraquecer os inimigos e conquistar apoio internacional e do povo cubano.
Essa concepção nos permite compreender a ação militar integrada com ações variadas – de caráter legal e ilegal, militar e civil, de ação direta e de propaganda, etc.
5. A política e as alianças
A política de alianças parte de dois pressupostos de origem militar: inimigos unidos e fortes são quase imbatíveis e as forças em luta devem conviver com as diferenças em nome da unidade em torno de objetivos comuns. Em outras palavras, isso exigiu dos cubanos a identificação do inimigo principal, a quem se deve dividir, isolar e neutralizar, e dos inimigos secundários, que, embora inimigos, diante dos objetivos políticos centrais, se encontrariam em um lugar secundário, cabendo aos revolucionários não ajudar na unificação, mas o contrário. E do outro lado, compreender as forças sociais e políticas com contradições com os inimigos principais e tecer uma política de alianças capaz de unificar forças distintas, em alguma medida até antagônicas, para a formação de um bloco de alianças centrado nos objetivos imediatos e nos desafios diante dos inimigos principais. Essa é uma formulação herdada de Lenin, Mao e Ho Chi Minh, mas que recebeu de Fidel aportes ousados em buscar uma ampla aliança para isolar, fragmentar, neutralizar e até mesmo aniquilar as forças de Batista. E como sabemos, vitoriosa.
6. A teoria militar como um desdobramento da política
A ação militar não tem nenhuma autonomia da política, mas, segundo Carl Von Clausewitz (autor do livro “Da Guerra”), é a sua consequência e desdobramento. Por isso, buscou aplicar na guerra os princípios e a política condutora do processo revolucionário. Um exemplo é a força moral como arma de guerra, que nos enfrentamentos militares não se mostra – já que estão no meio do conflito – mas se apresentam quando da tomada de prisioneiros, tratados com respeito, com cuidados médicos, alimentação e apresentando as avaliações da luta para os aprisionados. Isso impediu a tortura, os justiçamentos indiscriminados e ajudou a quebrar a força inimiga, que pregava lutar contra bárbaros materialistas sem alma e desprovidos de qualquer traço de humanidade. Parte dos prisioneiros se somaram e foram leais à revolução, parte se desligaram do Exército – alguns punidos com a morte – e parte atuaram como informantes e sabotadores no interior das forças da ditadura de Fulgêncio Batista.
Isso é aplicar no campo militar, em meio a uma guerra sangrenta, princípios e posições da política, dotando a luta em Cuba de muita força política-militar-ideológica-moral.
7. O lugar da luta ideológica
A luta ideológica, ou a capacidade de disputar corações e mentes, é um desafio da luta revolucionária, embora seja um tema quase sempre mal tratado. Fidel, com uma grande capacidade de apresentar ideias complexas de forma simples, capazes de serem compreendidas pelas pessoas mais simples e sem escolaridade, associada a uma ousada proposta de uso da tecnologia – rádio e TV – para difundir ideias.
Isso é um traço característico de Fidel e podemos compreender como uma forma de compreender o papel das massas: não como espectadoras, mas como forças ativas. Não conduzidas por lideranças que apenas apresentam consignas e os próximos passos da luta, mas capazes de compreender cada momento da luta e os desafios.
E, após o triunfo, a primeira grande batalha da revolução foi enfrentar o analfabetismo, gerando anos de mobilização de toda a sociedade para enfrentar esse traço das formações tardias e suas classes dominantes virulentas, sócias subalternas, atrasadas ideologicamente e que usam o conhecimento como privilégio e não direito.
8. Imperialismo é o inimigo número 1 da humanidade
A vitória e os momentos seguintes puderam demonstrar – em fatos e ideias – a existência de uma força em ascendência e que se convertera no inimigo número 1 da humanidade: o imperialismo. Não como um país, tampouco um povo, mas a ascensão de um complexo industrial-militar combinado com poderosas empresas transnacionais, denunciada até mesmo pelo presidente Eisenhower (discurso na íntegra). Ao afirmar que o imperialismo é o inimigo número um da humanidade, não poupou esforços para ajudar os povos em luta contra esse inimigo, sem jamais ter incentivado a postura de ataque ao povo dos Estados Unidos, aos símbolos desse povo – como sempre afirmou que em Cuba nunca haviam queimado uma bandeira dos EUA.
9. Intenção e gesto: moral inquebrantável
Como seguidor das ideias de Jose Martí, foi um praticante da ideia de que “a melhor forma de propor é fazer”. E foi capaz de unir a proposta política, especialmente as mais ousadas, com a ação, não como um dirigente de gabinete, mas um comandante em campo, correndo os maiores riscos e fundindo a proposta com a ação, ou a intenção e o gesto.
Isso fez de Fidel uma força moral e política que atraiu os principais inimigos – especialmente o aparato político-militar dos EUA, centralmente a CIA – para derrotá-lo politicamente e diante da impossibilidade, em ações e planos para o seu assassinato.
10. A solidariedade é a ternura dos povos
Uma pequena ilha caribenha é responsável por ações de solidariedade portadoras de uma mensagem de esperança e confiança na humanidade. Não se trata de uma ação de propaganda, tampouco algo episódico. Cuba é linha de frente em ações de combate ao analfabetismo no mundo, às doenças chamadas sociais, em educar povos do mundo nas Universidades na ilha, em compartilhar tratamentos médicos e avanços científicos, além da ação no plano militar.
Isso se tornou uma característica da Revolução Cubana e tem como figura de expressão na proposição, o seu líder máximo.
Não houve luta popular, catástrofes, conflitos e crises sociais entre os anos de 1960 até hoje que não tenha recebido o apoio direto, ativo e generoso de Cuba e seu povo. Isso é parte de uma concepção do processo marcada pela mensagem e ação sempre ativa do seu comandante.
Os povos do mundo, a América Latina e especialmente Cuba perderam um gigante. Uma força moral e política que não pode ser destruída e seguirá como referência dos povos do mundo em luta contra os velhos problemas e os mesmos inimigos da Humanidade. A obra gigantesca de Fidel foi e seguirá sendo uma referência e guia dos povos.
Como ele mesmo formulou:
“Pronto deberé cumplir 90 años, nunca se me habría ocurrido tal idea y nunca fue fruto de un esfuerzo; fue capricho del azar. Pronto seré ya como todos los demás. A todos nos llegará nuestro turno, pero quedarán las ideas de los comunistas cubanos como prueba de que en este planeta, si se trabaja con fervor y dignidad, se pueden producir los bienes materiales y culturales que los seres humanos necesitan, y debemos luchar sin tregua para obtenerlos. A nuestros hermanos de América Latina y del mundo debemos trasmitirles que el pueblo cubano vencerá.”
Fidel, en el VII Congreso del Partido
Hasta la victoria, siempre.
Viva o Comandante Fidel Castro Ruz.
* Ronaldo Pagotto é advogado e militante da Consulta Popular
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