quarta-feira, 28 de agosto de 2013

As renúncias de Jânio.

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Por Laerte Braga(*), especial para sua coluna no QTMD?
Ao tomar conhecimento que o presidente Jânio Quadros havia renunciado à presidência, em 25 de agosto, por volta das 13 horas (o anúncio público mais tarde), o governador de São Paulo, Carvalho Pinto, lamentou que, ao lado de Jânio não estivesse alguém preparado para essas “crises” do ex-presidente, pois “às vezes ele renunciava ao governo de São Paulo, me entregava a carta renúncia e eu rasgava. Horas depois, quando eu ia despachar ele sequer tocava no assunto”.
O despreparo no entendimento de Carvalho Pinto teria sido do ministro da Justiça, o jurista Pedroso Horta que assim que recebeu a carta renúncia, depois de uma série de apelos, levou-a ao presidente do Senado o paulista Auro Soares de Moura Andrade, o mesmo que em 1964 viria a decretar a vacância do cargo de presidente com a viagem de Jango para o Rio Grande do Sul.
Afonso Arinos, ministro das relações exteriores e senador, reassumiu seu mandato e queria levar a carta a votação do plenário. Moura Andrade negou seu pedido alegando que renúncia era um ato de vontade pessoal e não dependia de julgamento. Arinos era da UDN e Moura Andrade do PSD.
Jânio. havia se desentendido com Carlos Lacerda às vésperas de sua renúncia, numa atitude inusitada, mandou colocar as malas de Lacerda – governador da antiga Guanabara – às portas do Palácio e o troco veio num pronunciamento irado e furibundo, bem ao seu estilo, do governador Lacerda em rede nacional de rádio e tevê, acusando o presidente de propósitos ditatoriais.
Na manhã do dia 25 o presidente participou normalmente das solenidades do Dia do Soldado e à tarde comunicou a renúncia aos ministros militares, Odilio Denys (Exército), Grum Moss (Aeronautica) e Silvio Heck (Marinha). O que esperava ouvir não ouviu. Queixava-se da impossibilidade de governar o Brasil com “esse Congresso” – era minoria – e as investidas feitas pelo governador Lacerda. Acusou Lacerda de ter ido ao Planalto pedir dinheiro para a TRIBUNA DE IMPRENSA, então de sua propriedade e em mãos de seu filho. Os militares não lhe disseram que fechariam o Congresso e afastariam Lacerda, apenas apelaram para rever seu ato, todos atônitos diante do fato.
Saiu do palácio dirigindo um Vemag e disse a uns jornalistas “esta é uma cidade maldita, jamais torno a por os pés aqui”. Acabou sendo levado para a base aérea de Cumbica, em São Paulo.
Os sinais de porre e ressaca eram evidentes. Os propósitos ditatoriais estavam claros na conversa que teve com os ministros militares.
Há um ano atrás, em 1960, o marechal Teixeira Lott, seu principal opositor nas eleições (o outro era Ademar de Barros) dizia publicamente “esteve homem vai levar o País ao caos”. Jânio renunciou a 25 de agosto de 1961, sete meses após assumir o governo, proibir briga de galos, uso de biquíni em concurso de miss e instroduzir o slack como uniforme dos servidores públicos, aumentando o “ponto” em 30 minutos.
O preço do feijão, mote de sua campanha, continuou o mesmo.
Eleito deputado federal pelo PTB do antigo Paraná em 1958, para não ter que renunciar ao governo de São Paulo, enfrentou Juraci Magalhães na convenção da UDN abençoado e patrocinado por Carlos Lacerda. Venceu e renunciou por não concordar com a indicação do senador Leandro Maciel para seu companheiro de chapa. Queria o mineiro também Milton Campos, também senador. Campos fora derrotado por Goulart, companheiro de Lott na eleição de JK.
De joelhos a UDN lhe pediu que aceitasse de novo a candidatura e Mílton Campos substituiu a Leandro Maciel , do Sergipe.
A Constituição de 1946 não exigia a maioria absoluta de votos e nem previa, lógico, segundo turno. Uma dissidência no PTB que, aparentemente favoreceria Mílton Campos acabou favorecendo Goulart, a candidatura de Fernando Ferrari (com o slogan “mãos limpas” que hoje serve à direita). Ao contrario de Danton Coelho, vice de Ademar em 1955, em 1960 Ferrari empolgou a classe média e teve milhões de votos transformando-se numa alternativa trabalhista a Goulart. Morreu pouco depois num acidente de helicóptero.
Jânio era um demagogo com visíveis sinais de desequilíbrio mental, alcoólatra, que espancava sua mulher, D. Eloá, gostava de assistir aos filmes de John Wayne ao contrário, do fim para o princípio.
Subia bêbado aos palanques e dizia que estava exausto, arrotava e dizia que estava com o estômago vazio pois não tivera tempo para comer e adotou a vassoura como símbolo eleitoral, para dizer aos brasileiros que varreria a corrupção.
Há uma disputa na justiça da Suíça sobre sua fortuna pessoal de 100 milhões de dólares, reivindicados por setores antagônicos da família e que se estende à justiça brasileira. Sua propalada honestidade era no mínimo “relativa”.
Já ex-presidente voltava de uma viagem a Europa, tinha fixação por Londres, com alguns amigos, dentre eles o jornalista Carlos Castelo Branco, seu secretário de imprensa nos seus sete meses de governo. Segundo Castelo contou Jânio bebera tanto durante o vôo que houve apostas entre os passageiros sobre se levantaria sozinho e sem cair quando o avião aterrissasse. Levantou e saiu andando normalmente.
Era o que se chamava à época de “fogo eterno”.
Eleito prefeito de São Paulo protagonizou um dos mais hilários episódios da campanha de 1985, num debate com seu adversário, o então senador Fernando Henrique. Perguntou ao senador se ele sabia onde ficava Sapopemba. FHC se enrolou, não respondeu e Jânio fulminou – “é um bairro da cidade que o senhor quer governar”. Isso entre outros massacres.
E antes de viajar para a Europa num cargueiro uruguaio após a sua renúncia, respondeu assim aos jornalistas que lhe perguntaram o que faria – “vou ser pedreiro em Cuba”. O que menos pesou em sua renúncia foi a concessão da medalha do Cruzeiro do Sul a Chê Guevara. Foi apenas um gesto politico para dizer aos norte-americanos “ou me dão o quanto preciso e o apoio que quero (para o golpe), ou corro para o outro lado” Nem uma coisa e nem outra. Já em 1962 tentou voltar ao governo de São Paulo e foi derrotado por Ademar de Barros, a quem havia derrotado em 1954.
Ficou famoso por duas expressões. Uma a de atribuir a “forças ocultas” sua renúncia e outra ao responder aos repórteres porque renunciara – “fi-lo porque qui-lo”.
Jânio foi o maior blefe da historia politica do Brasil. Sua eleição marca também o início das transformações do jeito de ser tacanho das elites políticas e econômicas do Brasil, seu ministro da Fazenda era Clemente Mariani, um banqueiro. As elites continuam tacanhas, corruptas, fétidas, mas aperfeiçoaram o modo de ser, descobriram o garfo e a faca como instrumentos auxiliares para alimentarem-se além da corrupção. O retrocesso foi a troca de Paris por Miami, mas sentido, é terra de mafiosos.
*Laerte Braga é jornalista e colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Empodera Povo“.

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