Dilma e Raúl Castro.
Publicado originalmente na DW.
Brasil e Cuba têm mais em comum do que as críticas aos Estados Unidos – os dois países mantêm uma cooperação especial, que se tornou mais intensa nos últimos anos. Enquanto médicos cubanos desembarcam em território brasileiro, a ilha caribenha recebe produtos agrícolas. Agora, ambos trabalham juntos no megaprojeto do Porto de Mariel, cuja primeira parte foi inaugurada nesta segunda-feira (27/01) pela presidente Dilma Rousseff.
O Brasil se vê no momento como um dos motores do desenvolvimento, ainda que lento, da economia cubana. E mira, segundo especialistas, um eventual fim do embargo americano, que já dura mais de cinco décadas. Em discurso na ilha caribenha, Dilma não escondeu o desejo de reforçar a cooperação com o governo de Raúl Castro.
“Laços profundos unem os nossos países, um sentimento de amizade aproxima nossas sociedades. O Brasil acredita e aposta no potencial humano e econômico de Cuba”, afirmou a presidente. “O Brasil quer tornar-se parceiro econômico de primeira ordem para Cuba.”
Mais empréstimos.
Não é coincidência que o Porto de Mariel, maior projeto de infraestrutura em andamento em Cuba, esteja a cargo de uma empreiteira brasileira, a Odebrecht. O financiamento da obra também tem o governo brasileiro por trás: o BNDES aprovou empréstimos de 682 milhões de dólares para financiar a construção, que tem custo total de 957 milhões de dólares.
Nesta segunda-feira, Dilma ainda ofereceu um crédito adicional de 290 milhões de dólares, dinheiro a ser destinado também para a zona econômica especial do Porto de Mariel. “É a expressão do compromisso brasileiro de apoiar o desenvolvimento econômico de nossos irmãos caribenhos”, disse o Itamaraty em nota à DW.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram o crescimento da parceria comercial entre os dois países. As exportações do Brasil para Cuba aumentaram de 80 milhões de dólares em 2003 para 568 milhões em 2012. De janeiro a setembro de 2013, o valor das exportações já atingia cifra próxima a 515 milhões de dólares.
Desde 1998, o BNDES garantiu empréstimos no total de 703 milhões de dólares a empresas brasileiras que investem em Cuba. Em 2013, Cuba foi o terceiro maior destino de financiamentos do banco para exportação de bens e serviços do Brasil. Para especialistas ouvidos pela DW, não há dúvida: os investimentos são estratégicos.
“O porto é visto como uma maneira de se antecipar aos investidores americanos”, explica Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV. Segundo ele, tem-se no Brasil a concepção de que numa Cuba pós-Castro a liberalização da economia prosseguirá mais rapidamente e pode levar, em consequência, ao levantamento do embargo americano.
À espera do fim do embargo.
A agência de investimentos alemã GTAI já aposta há um bom tempo no relaxamento do embargo a Cuba. Peter Buerstedde, especialista da agência, observa que, como Raúl Castro quer permanecer na presidência apenas até 2018, existem indicações de mudança em médio prazo nos rumos da ilha. “O Porto de Mariel poderá se tornar um centro de logística no Caribe quando os EUA levantarem o embargo”, prevê.
Na próxima reunião de cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), nos dias 28 e 29 de janeiro, em Havana, já são evidentes alguns sinais de uma diminuição das animosidades.
Pela primeira vez, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, aceitou o convite para participar do evento. Insulza quer impulsionar as conversações com Cuba, que foi excluída da organização em 1962 por pressão dos EUA.
“O modo como os EUA lidam com Cuba é visto em toda a região como nada construtivo”, explica Stuenkel. Para ele, o Brasil se prepara para entrar no lugar da Venezuela como o principal parceiro do regime cubano. “A Venezuela não consegue mais transferir, em longo prazo, ajuda de grande porte a Cuba, porque luta internamente com seus próprios problemas econômicos.”
Na opinião de Stuenkel, a intensidade dos confrontos ideológicos entre a esquerda latino-americana e os Estados Unidos está diminuindo. Sem Hugo Chávez, Cuba não poderia ir muito longe. “Se governo cubano perder um apoio de grande porte, as mudanças em larga escala serão inevitáveis”, aposta.
O Ministério das Relações Exteriores já busca, de longa data, fortalecer os laços políticos com Cuba. “As relações Brasil e Cuba atravessam excelente momento. Por trás da cooperação existe uma visão compartilhada”, afirmou o Itamaraty à DW. “Nossos governos acreditam que não basta crescer; é preciso promover o desenvolvimento social e melhorar as condições de vida dos mais necessitados.”
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O dia em que morreu Che Guevara.
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Capturado em vida, EUA ordenaram execução sumária de Che Guevara. Cadáver do líder latino-americano desapareceu durante 30 anos. Até morto, ele representava um perigo para as classes dominante.
Depois de ter sido, ao lado de Fidel, Camilo e Raul, um dos principais comandantes da Revolução Cubana, de ter assumido o Ministério da Indústria e o Banco Central de Cuba, de ter organizado a guerrilha na África, determinado a impulsionar a Revolução na América Latina e construir um mundo novo, no dia 5 de março de 1967, Che Guevara e o primeiro grupo de 44 guerrilheiros chegaram à Bolívia, numa fazenda cedida por Roberto Peredo, integrante do Partido Comunista Boliviano (apoio pessoal, pois o Partido nunca se comprometeu com a guerrilha).
Falhas cometidas por alguns guerrilheiros e a delação feita por dois desertores deram ao Exército a certeza de que havia um grupo armado na região e sua localização. Preparam o primeiro ataque, que acontece no dia 23 de março, mas a guerrilha já os esperava e, numa emboscada, derrota o Exército sem sofrer baixas. A segunda batalha também é positiva para os rebeldes, tendo ocorrido a 10 de abril.
A seguir, há uma dispersão de forças e tudo transcorre sem maiores novidades até 31 de agosto, quando a traição de Honorato Rojas, camponês que apoiava a guerrilha, proporcionou a emboscada de Vale Del Ieso, quando foi dizimada toda a retaguarda. A essa altura, o exército aprendera com os erros cometidos nas investidas anteriores e com o treinamento de três meses efetuado por enviados do Governo dos EUA: um coronel, quatro capitães e 12 sargentos.
O cerco vai se fechando e, no dia 8 de outubro, Pedro Pena, um camponês interessado em receber a recompensa de US$ 4.200, delata a presença de 17 guerrilheiros (é a vanguarda, comandada por Che). Eles são cercados por 70 homens e há 1.500 nos arredores bem armados e alimentados, enquanto os guerrilheiros estão famintos, maltrapilhos, com fome e sede.
O combate encarniçado começa em torno do meio dia. Às 15h, Che é atingido na perna, sua arma inutilizada; Willy (Simon Cuba) tira-o da linha de fogo. Os dois são detidos: Che, com ferimento leve; Simon Cuba, ileso. Levados para o povoado de La Higuera, são custodiados numa escola, cada um numa sala. No dia seguinte, o presidente da Bolívia, René Barrientos, após consultar seus patrões, o Governo dos Estados Unidos, autoriza a execução sumária de ambos e de qualquer prisioneiro da guerrilha, temendo uma mobilização internacional por sua liberdade e que o julgamento fosse transformado em tribuna, como Fidel o fizera em Cuba. Assim, no dia 9 de outubro, às 12h50, Che e Simon são executados à queima roupa.
No dia 11, desapareceu o cadáver de Che. Até morto, ele representava um perigo para as classes dominantes. Só foi encontrado em 1997, após 19 meses de buscas iniciadas desde que o general Mário Vargas Salinas, um dos que comandaram as tropas contra a guerrilha, revelou que o tinham enterrado em Vallegrande (área da luta). Os restos mortais foram trasladados para Cuba, onde, recebido com honras de herói nacional repousa em Santa Clara.
BRILHANDO PELO MUNDO INTEIRO.
Mas, apesar de sua morte, a cada ano que passa, a cada nova geração, aumenta o número dos admiradores e seguidores de Che Guevara em todo o mundo. E não são apenas os comunistas e revolucionários. Os moradores de La Higuera o veneram como San Ernesto. Milhares de jovens nem entendem o seu pensamento e sua luta, mas têm-no como referência por sua dignidade e sua coerência, tão raros em nossos dias em que a degradação moral do capitalismo se espalha por todas as classes sociais. Por que isso? É Jean Paul Sartre, filósofo francês, quem responde: “Foi o ser humano mais completo de nossa era. “O braseiro boliviano de Ñancahuazu foi provisoriamente extinto, mas a sua luz continua a brilhar, a incendiar por toda a parte novos braseiros, a fazer brotar novas centelhas, a guiar os povos como uma tocha na noite. Nada poderá apagar essa luz”.
Ao discursar na Praça da Revolução, em Havana, no dia 18 de outubro de 1967, Fidel Castro assim definiu Ernesto Che Guevara: “Não é fácil conjugar numa pessoa todas as virtudes que se conjugavam nele. Não é fácil que uma pessoa de maneira espontânea seja capaz de desenvolver uma personalidade como a sua. Diria que é desse tipo de homens que é difícil igualar e praticamente impossível superar. Porém diremos também que homens como ele são capazes, com seu exemplo, de ajudar que surjam homens como ele. (…) Muitas coisas ele pensou, desenvolveu e escreveu. E há algo que deve se dizer num dia como hoje: é que os escritos de Che, o pensamento político e revolucionário de Che têm um valor permanente no processo revolucionário cubano e no processo revolucionário da América Latina”.
Hoje, o nome de Che, suas ideias e seu exemplo, tornaram-se verdadeiras bandeiras de luta contra as injustiças, contra a opressão do imperialismo capitalista e pelo socialismo e, a cada dia, o pensamento de Che torna-se mais vivo e mais atual.
A HONRA.
“Eu creio que a primeira coisa que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que se sente por ser jovem comunista. Essa honra que o leva a mostrar-se a toda gente na sua condição de ser comunista, que não o submete à clandestinidade, que o não reduz a fórmulas, mas que ele manifesta em cada momento que lhe sai do espírito, que tem interesse porque é o símbolo de seu orgulho.
Junta-se a isso um grande sentido do dever para com a sociedade que estamos construindo, para com os nossos semelhantes como seres humanos e para com todos os homens do mundo.
Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Paralelamente, uma grande sensibilidade a todos os problemas e uma grande sensibilidade em relação à justiça.” – Che Guevara.

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