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Por Erick da Silva.
Algumas vezes, um aparente pequeno e isolado ato pode ser emblemático para nos ajudar a compreender um processo conjuntural mais amplo e complexo.
Desde as chamadas "jornadas de junho", o rumo das manifestações passaram por inúmeras transformações e neste inicio de 2014, avizinha-se uma migração definitiva para um outro caráter político, bastante distinto de uma perspectivava de esquerda. Não pretendemos aqui uma analise conclusiva e definitiva, mas as ações dizem muito.
Em Porto Alegre, na quinta-feira (20/02), o coletivo "Bloco de Luta pelo Transporte Público" realizou protesto em Porto Alegre que tornou nítido o caráter político que as manifestações podem estar assumindo. Poucas centenas de pessoas protestaram, entre outras pautas, contra a realização da Copa do Mundo.
Mas não é o mote do "Não vai ter Copa" que se apresentou como "novidade" neste protesto. Ao marcharem pelas ruas da cidade, o grupo passou na frente do diretório do PT de Porto Alegre, embalado por vaias e palavras de ordem contra o PT, um "mascarado" pichou a frase "Dilma = Maduro" na fachada da sede, em clara referência aos protestos na Venezuela.
Um novo golpe de Estado está sendo gestado na Venezuela, (veja aqui), pretendem derrubar o presidente Nicolás Maduro, democraticamente eleito. Ao pichar a frase "Dima = Maduro", explicitou a intenção de alguns com relação aos protestos: derrubar o governo Dilma.
Ainda que aparentemente tenha sido uma ação "isolada" - conforme relatam integrantes do Bloco nas redes sociais, ela é significativa da mutação política que ocorre nestes tipos de protesto. É pouco provável que os integrantes da vanguarda do Bloco de Lutas tenham nos protestos golpistas contra a revolução bolivariana uma referência política. No entanto, o que é inegável é o crescimento de elementos nitidamente conservadores no bojo dos protestos. Não é algo que já não tenha ocorrido em junho, no entanto, frente aos acontecimentos políticos com nossos vizinhos venezuelanos, a situação exige uma atenção redobrada. A frase escancara o sequestro dos protestos pela direita.
A presença da direita nos protestos não se ocorre apenas de maneira organizada, pelos seus diferentes grupos, mas também é fruto da ação espontânea e despolitizada de alguns. Protestos que, em essência são multifacetados, sem uma pauta política "classista" mais definida, com uma agenda política difusa e pouco organizativa, permitem que uma parcela deste ativismo espontâneo, organizado em rede, seja "sequestrado" de uma perspectiva transformadora e levados para a direita. Pautas como "combate a corrupção" e "democracia" são exemplos claros de como uma agenda "progressista" pode facilmente ser penetrada pelo conservadorismo.
Dima = Maduro.
A frase pichada é emblemática e correta. Dilma é igual a Maduro. Não pelos seus governos e posturas políticas, que guardam inúmeras e notáveis diferenças. Dilma e Maduro são iguais pelo que representam. Ambos os governos dão continuidade a um processo de integração latinoamericana que busca um caminho autônomo e posneoliberal, que se iniciou em 1998 com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela e com a de Lula no Brasil em 2002, seguindo com a vitória eleitoral de inúmeros governos progressistas na América do Sul.
Frente a ausência de uma oposição consistente, com condições de derrotar eleitoralmente, o golpismo torna-se a opção adotada por setores que almejam o regresso aos tempos de subordinação ao capital internacional, ao imperialismo e aos privilégios para poucos dos tempos de governos neoliberais.
As recentes pesquisas eleitorais apontam para uma grande possibilidade de vitória ainda no primeiro turno da presidenta Dilma. Os protestos contra a copa podem ser a tão sonhada "bala de prata" da oposição para derrotar a candidata petista, como bem observou Flávio Aguiar, "Ao invés de apostas programáticas – já que os verdadeiros programas de direita no Brasil são inconfessáveis pelos candidatos, embora existam –, só lhes resta apostar nos antiprogramas, nas catástrofes políticas e sociais possíveis e imagináveis. E nas inimagináveis também."
Conseguirá se consolidar o sequestro dos protestos pela direita é uma questão ainda em aberto. A própria capacidade de mobilização dos protestos está em xeque. Ser crítico ou radicalmente contrário a Copa do Mundo, ou defensor da mesma não é, por si só, um ponto de clivagem que determina a posição política como mais de "esquerda" ou de "direita". É um debate necessário, complexo, mas que não é, de nenhuma forma, pontualmente definidor. A necessidade de se politizar a "voz das ruas" é difícil e necessária. Uma saída possível é uma aposta na rearticulação dos movimentos sociais "tradicionais" (CUT, MST, UNE, etc.) em uma agenda de mobilizações por pautas que dialoguem com as necessárias mudanças no Brasil, como a do Plebiscito da Reforma Política. Tornar o tema da Reforma Política uma agenda com uma efetiva mobilização social pode ser um bom caminho, mesmo com as evidentes dificuldades conjunturais.
Disputar "corações e mentes" para evidenciar que está em jogo, na conjuntura nacional e internacional, vai muito além da realização da Copa é uma tarefa que se impõe. No ano que se completam 50 anos do golpe militar, não podemos permitir que lutas legitimas sejam transformadas em instrumento para golpismos.
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TERRAS ALTAS DA MANTIQUEIRA = ALAGOA - AIURUOCA - DELFIM MOREIRA - ITAMONTE - ITANHANDU - MARMELÓPOLIS - PASSA QUATRO - POUSO ALTO - SÃO SEBASTIÃO DO RIO VERDE - VIRGÍNIA.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Pichação na sede do PT de Porto Alegre escancara sequestro dos protestos pela direita.
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