domingo, 30 de março de 2014

“Muito Além do Cidadão Kane”: a incrível atualidade do único documentário sobre Roberto Marinho.


O documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, de 1993, é uma daquelas obras com a rara capacidade de ficar mais atuais à medida que o tempo passa — um, por sua qualidade, dois, pela falta completa de algo parecido.

Conta a história de Roberto Marinho e da Globo. Nos 50 anos do golpe, ajuda a compreender uma relação umbilical e uma, digamos, retroalimentação em que uma das partes teve fim — a ditadura — e a outra seguiu firme e forte.

“Beyond Citizen Kane” foi produzido pelo Canal 4 britânico e dirigido por Simon Hartog, cineasta independente que começou a carreira nos anos 60. Hartog morreu quando o filme estava sendo editado. Não pôde ver seu impacto.

Foi exibido na Inglaterra. A Globo tentou comprar os direitos para se livrar dele, mas Hartog já havia se precavido contra isso numa cláusula. Em seguida, entrou na Justiça para proibir sua exibição no MAM do Rio em março de 1994 — e ganhou, naturalmente. Os pôsteres foram recolhidos pela polícia.

A cópia que passaria no MIS, em São Paulo, foi confiscada a mando do governador Luiz Antonio Fleury. Outras puderam circular legalmente em universidades só nos anos 2000. Hoje, graças à internet, “Muito Além do Cidadão Kane” está no YouTube na íntegra.

O tom não é de libelo, não é histérico, não é conspiratório. Ao contrário, é uma longa reportagem, extremamente sóbria, contando uma história que não tinha sido contada sobre a maior rede de televisão do Brasil e seu dono. Isso é notícia.

Hartog e equipe falaram com mais de 40 pessoas — de Chico Buarque a Armando Falcão, de ACM ao ex-diretor de jornalismo da Globo Armando Nogueira. Acompanham, também, a “família Silva”, moradora da periferia de Salvador. Pai, mãe e filhos num barraco escuro, cujo maior foco de luz vem de uma telinha de tevê na mesa da sala/cozinha, ligada no Fantástico.

Há vozes críticas, evidentemente: Brizola (que compara RM a Stalin, já que ambos mandavam seus desafetos para a Sibéria ou para o “esquecimento”); Chico Buarque, lembrando do poder “assustador” da emissora e dos jabás; Lula, pré-Lulinha Paz e Amor, reclamando do “senhor” que manda em tudo e da cobertura das greves do ABC.

Mas ali estão também empresários, publicitários (como Washington Olivetto), políticos, funcionários e ex-funcionários. Armando Falcão, ministro da Justiça durante a ditadura, lembra com carinho do amigo e diz, candidamente, que ele já era “revolucionário antes da Revolução de 64”. “Doutor Roberto nunca me criou nenhum tipo de dificuldade”, diz ele. Roberto Civita, dono da Abril, explica como sua empresa não conseguiu as concessões que queria em 1980 após a falência da Tupi.

Hartog mostra, com imagens e depoimentos da época, como a Globo se esforçou para sedimentar a boa reputação do regime militar. Lembra que a fatia do bolo publicitário da propaganda governamental já era grande na época e que, em 1990, a Globo detinha 75% da verba total no país.

Walter Clark, chefe da emissora antes de Boni, conta que Roberto Marinho o demitiu porque Clark “já tinha montado o trem elétrico e agora ele podia brincar à vontade. É uma pessoa bem parecida com o Cidadão Kane, mas acho que ele não tem o Rosebud”.

Marinho, obviamente, não deu entrevistas. Surge ao lado de todos os generais e, em seguida, com Tancredo, Sarney e Collor. “Doutor Roberto é meu amigo há mais de 30 anos. O pessoal tem muita inveja”, afirma Antônio Carlos Magalhães, feito ministro das comunicações por Roberto Marinho no governo Sarney.

A certa altura, menciona-se a minissérie “Anos Rebeldes”, que tratou da inquietação da juventude brasileira no fim dos anos 60. Ficou manca: faltou um papel para a Globo, que não é coadjuvante.

Meio século após o golpe, “Muito Além do Cidadão Kane” reforça esse ponto: um relato honesto e abrangente sobre a ditadura tem, obrigatoriamente, de levar em conta o protagonismo da TV Globo e de Roberto Marinho. Sem o doutor Roberto, provavelmente nada teria sido possível.



*** in English below and subtitles available ***
Simon Hartog "Beyond Citizen Kane" é um trabalho notável e fascinante que mostra a dimensão e a influência da Rede Globo na vida do brasileiro (Uma influência maior que a vida). O documentário mostra filmagens da rede em seus maiores momentos e mostrando que por trás de toda essa glória e sucesso reside uma empresa poderosa, com um enorme poder sobre as pessoas, incluindo artistas, políticos, e muitos outros. Controvérsias envolventes a criação da rede, aliados com o regime militar durante 20 anos, a notícia falsa ea cobertura infame do debate presidencial em 1989 são mostrados com os comentários de várias pessoas famosas, incluindo os ex-diretores e jornalistas que trabalharam na Globo .

Este documentário ia ser lançado nos cinemas no Brasil, mas por causa do poder da Globo, foi proibido após uma exibição para a imprensa, em 1994. Nunca foi mostrado na televisão. Os brasileiros só puderam ver estas imagens quando cópias foram publicadas na internet (Globo ainda não controla a internet ...).

O título é uma comparação entre Charles Foster Kane (interpretado por Orson Welles em "Cidadão Kane") e Roberto Marinho, ex-presidente da Globo Corporation. Que é o mesmo tipo de poder que esses dois homens detinham em seus braços.

*** in English below and subtitles available ***
Simon Hartog's "Beyond Citizen Kane" is a remarkable and fascinating work that shows the dimension and the influence of Rede Globo in Brazilian's life (An influence larger than life). The documentary shows footages of the network in its greater moments and showing that behind all that glory and success lies a powerful company with tremendous power over people, including artists, politicians, and many others. Controversies enfolding the creation of the network, allies with the military regime during 20 years, false news and the infamous coverage of the presidential debate in 1989 are shown with the commentaries of several famous people, including ex-directors and reporters who have worked at Globo.

This documentary was going to be released on theaters here in Brazil but because of Globo's power it was banned from release after one exhibition to the press, back in 1994. Never was shown in television. The Brazilians could only see this picture when copies were posted on the internet (Globo still doesn't control the internet...).

The title it's a comparison between Charles Foster Kane (played by Orson Welles in "Citizen Kane") and Roberto Marinho former president of Globo Corporation. Which is the same kind of power that both of these men held in their arms.

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