A vitória da extrema esquerda nas eleições gregas representam, de fato e assim pode ser comemorada, uma alternativa regional às políticas de austeridade, que só possuem este significado quando usadas para privar os mais pobres e a classe média de serviços públicos plenos e taxá-los tal qual os ricos?
A eleição de uma maioria de esquerda do partido Syriza, que elevará o jovem Alexis Tsipras ao cargo de Primeiro Ministro grego, poderá representar uma ruptura do encadeamento político-econômico vigente no velho mundo e influenciar eleições, como na Espanha, e diretrizes de governos em todo o planeta.
Para isso Tsipras terá que ser hábil, convicto e virtuoso, manter seus discursos e impingir uma dura derrota àqueles que impuseram um sacrifício ao povo da Grécia, assim como ocorre atualmente na Espanha e em Portugal.
FMI, BCE e a Alemanha de Angela Merkel são estes que tem de ser derrotados, não imediatamente, mas aos poucos.
O enfrentamento do novo gabinete de governo grego, sem rompantes demagógicos, contra estes agentes conservadores e do rentismo mundial, já será o suficiente para representar o revés daqueles que encurralaram Atenas e lhes roubaram um bom horizonte de curto prazo.
A conquista histórica do Syriza poderá ser o sopro de esperanças para toda a Europa e também para os países em desenvolvimento, como o Brasil.
Joaquim Levy, em um contexto de avanço político da esquerda na Europa, manterá seu discurso recessivo para seguir adiante com cortes orçamentários, ou terá que recalcular a rota por um caminho já conhecido e exitoso?
À conferir.
Breno Altman, em Opera Mundi, faz uma análise deste momento e do quão complexo pode ser o caminho do governo eleito na Grécia. A austeridade estará ficando fora de moda ou a recessão será apenas repaginada, cumprindo seus nocivos receituários, fielmente?
A envergadura histórica dos resultados eleitorais vai além: pela primeira vez desde o final da União Soviética, um partido de esquerda, anticapitalista, conquista o governo de uma nação do velho continente.
A vida política da região esteve marcada, desde os anos noventa, pela dança de cadeiras entre duas variáveis do neoliberalismo: a conservadora e a social-democrata.
A exceção é o nacionalismo russo de Putin e outros Estados menores, ex-integrantes do antigo espaço soviético, mas cuja identidade não está marcada por paradigmas socialistas.
As agremiações sociais-democratas, contudo, foram paulatinamente deixando de ser expressões reformistas do campo progressista para se converterem em opção mais branda da hegemonia do capital financeiro.
Suas gestões pouco ou nada se diferenciam, no fundamental, do que é defendido e praticado por legendas propriamente de direita. Chegam mesmo a compor governos de unidade nacional, como é caso alemão e o da própria Grécia até este domingo (25/01).
O Pasok, aliás, virou pó, com menos de 5% dos votos, com os eleitores esculachando a aliança de governo dos sociais-democratas com a principal legenda da direita, a Nova Democracia.
O fato é que a esquerda europeia esteve circunscrita, antes da ascensão do Syriza, a papel secundário, desempenhado por partidos comunistas e outros grupos com sérias dificuldades para se viabilizarem como alternativa de poder.
O jogo, agora, mudou.
O Syriza (em grego, abreviatura para Coligação da Esquerda Radical) tem fisionomia semelhante ao PT brasileiro.
Mais do que partido clássico, trata-se de frente orgânica. Aglutina inúmeras correntes, em espectro que vai do trotsquismo à social-democracia, ao redor de um programa de caráter socialista.
Sua principal força propulsora são os movimentos sociais e populares que se rebelaram contra o garrote financeiro imposto sobre a Grécia desde a crise de 2010.
Mas o cenário com o qual Tsipras e seus correligionários irão lidar é oposto ao percurso petista após a conquista eleitoral de 2002.
O ex-presidente Lula pode implementar políticas públicas de natureza distributiva a partir do reordenamento orçamentário, sem graves choques com o sistema financeiro mundial e sem a obrigatoriedade de reformas estruturais.
Ainda que esta orientação viesse a entrar em fadiga, como vem ocorrendo nos últimos quatros anos, a verdade é que o petismo pode promover a expansão de emprego, renda e direitos, durante longo período, sem confrontar o modelo rentista e as forças que o sustentam.
O Syriza, no entanto, somente será capaz de enfrentar a calamitosa herança social e econômica deixada por seus antecessores se fizer mudanças profundas e enfrentar o centro dirigente do imperialismo europeu.
O nó górdio é a dívida pública.
Sem estancar esta sangria, o Estado grego continuará insolvente para atender as reivindicações das ruas e retomar o crescimento.
Tsipras sinalizou, nas semanas derradeiras de campanha, disposição para negociar, evitando a ruptura com a União Européia e o euro.
Mas seus interlocutores, particularmente França e Alemanha, estão em sinuca de bico.
Se aceitam um pacto que alivie a vida helênica, outros países engastalhados — como Portugal, Espanha, Itália e Irlanda — podem pedir as mesmas facilidades. Os grandes bancos e fundos não admitem concessões dessa magnitude.
Caso a opção da chamada troika (formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) seja bater o pé em defesa dos acordos firmados pelo governo de centro-direita que foi derrotado nas urnas, o Syriza viverá sua hora da verdade.
Teria, grosso modo, em circunstâncias de intolerância das instituições financeiras, dois caminhos pela frente.
O primeiro seria o da ruptura unilateral dos compromissos de ajuste fiscal e pagamento da dívida, além do vínculo com a moeda única, colocando em xeque todo o sistema europeu.
As consequências iniciais poderiam ser dramáticas para o povo grego, até que a retomada da soberania nacional pudesse fazer a economia respirar, liberta das sondas predadoras de seus credores.
Além da maioria parlamentar que formou graças à composição com um pequeno partido nacionalista de direita, o Gregos Independentes, Tsipras eventualmente contrabalancearia dificuldades materiais com a mobilização dos trabalhadores gregos e o alastramento desse estado de ânimo por outras nações do sul europeu.
Outro caminho seria o da submissão, acatando ditames da troika e aceitando, como compensação, algumas alterações cosméticas. Mas pagaria elevadíssimo preço político por tamanho recuo.
O Partido Comunista, por exemplo, com 15 deputados eleitos, hipotético aliado, anunciou que se recusa a compor o novo gabinete porque sua direção está convencida sobre a tendência de Tsipras à capitulação, além de criticar sua disposição de continuar na União Europeia e na Otan.
Quem viver, verá.
Aconteça o que acontecer, porém, a Grécia se transformou no epicentro dos principais lances políticos dos próximos tempos.
A Europa está aturdida por um fenômeno que talvez abra novo ciclo político, no qual se viabilize uma esquerda antagonista vocacionada para conduzir o continente a outro modelo de desenvolvimento.
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