Por J. Carlos de Assis*
Quando uma situação de crise social, econômica e política aguda evolui para uma guerra civil? As pessoas em geral não gostam de falar nisso porque se trata de um assunto extremamente incômodo. Força-nos a pensar em coisas inconvenientes. Por exemplo: Quando uma guerra civil, se vier a acontecer, nos atingirá pessoalmente, e à nossa família, aos nossos parentes, aos amigos, a nós mesmos? Em geral, as pessoas preferem não falar do tema e seguir a vida em diante, metendo a cabeça debaixo da areia como todo bom avestruz.
Vou falar nesse assunto inconveniente. O maior cientista político da história, chamado Karl Marx, explicou com grande grau de clareza a evolução material da história mediante processos cíclicos de tese, antítese e síntese. Para esclarecer isso de um ponto de vista não acadêmico, a história avança por conflitos de classe, que opõem classes antagônicas da sociedade, e que se resolvem numa síntese superior. Por exemplo, o conflito entre classe operária e classe burguesa se resolveu, de forma intermediária, pela social-democracia.
Marx não viveu para ver a social-democracia. Quem a viu foram dois marxistas teóricos de extrema argúcia, Kautsky e Bernstein. Foram repelidos pelos marxistas ortodoxos como renegados. Entretanto, tinham razão. Algum tempo depois um marxista italiano genial, chamado Antonio Gramsci, deu uma formulação teórica extremamente refinada da luta política que deveria ser travada no século XX. Nada de revoluções sanguinolentas. O caminho seria uma convergência de interesses entre burgueses e trabalhadores em termos objetivos.
Isso aconteceu na Europa Ocidental do pós-guerra com a ampla vitória do Estado do bem estar-social, ou a social democracia real (para não confundir com a social democracia de Aécio e de Fernando Henrique, que é um engodo repulsivo). Comunistas ortodoxos, nessa altura, haviam se colocado simplesmente fora da história. Ninguém pode por na agenda política contemporânea, tendo em vista o estado da arte dos armamentos químicos, físicos e eletrônicos militares, uma guerra civil num país, por exemplo, das dimensões e do nível de industrialização do Brasil. No entanto, pode acontecer.
Nenhuma guerra civil começa como guerra civil. É um crescendo de desorganização e anomia social que, desde o assalto de banco, o domínio de milícias nas favelas ao arrastão na praia, acaba tomando a forma de convulsões sociais que terminam em conflitos organizados. Claro, uma vez instalado o caos social absoluto, os militares, que no nosso caso, depois do trauma da ditadura, tem tido um comportamento até certo ponto imparcial, serão convocados a intervir porque são a única força organizada, disciplinada e hierarquizada que pode colocar em ordem o caos geral da República. O custo disso é a ditadura.
Por que chegaríamos a esse ponto? Aí, voltamos a Marx. Esse limite só é atingido numa situação em que as relações na superestrutura da sociedade chegam a um estágio de contradições entre si de tal forma que nenhuma das instituições republicanas tem credibilidade suficiente para liderar as demais, e ao conjunto da sociedade, numa agenda de reordenamento, sobretudo para evitar o caos na economia. Alguma coisa em comum com a situação política em que vivemos? Ou não estamos numa situação de derretimento geral das instituições do Estado?
Em situações como essa a superação da crise depende de articulações no nível mais profundo da sociedade, a saber, sua infraestrutura material, o setor produtivo ou as classes sociais. Numa palavra, ou teremos uma grande acordo social, inicialmente de classes, entre patrões e trabalhadores, ou caminharemos para um conflito aberto, cujas consequências é impossível prever. Até onde eu vejo, as Centrais sindicais estão dispostas a contribuir para um acordo, em troca de uma política de recuperação e promoção do emprego. Também as organizações patronais, sobretudo as Confederações, podem chegar à mesma conclusão, em troca de uma política imediata de promoção do crescimento econômico. O quadro é esse. Alea jacta est!
*José Carlos de Assis é economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015
É necessário pensar no pior para que possamos evitá-lo.
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