Por Timothy Bancroft-Hinchey*
Jornal Pravda (Rússia) - O texto original pode ser lido aqui
No último domingo, a Câmara dos Deputados brasileira decidiu, por 367 a favor e 137 contra, iniciar um procedimento de impeachment contra Dilma Rousseff, a presidenta eleita democraticamente, contra a qual não existe qualquer fragmento de comprovações criminais. Não é o caso de vários deputados, muitos deles salvos de processos legais apenas porque se beneficiam da imunidade parlamentar.
República das Bananas
Aqueles que assistiram à sessão de dez horas no último domingo, mesmo os que conheciam o Congresso brasileiro pessoalmente, ficaram chocados ao testemunhar o show de imbecilidade pueril demonstrado pelo que parecia um grupo de crianças do jardim de infância sendo impertinentes em uma excursão escolar, uma imagem espelhada de macacos no zoológico depois de alguém importuná-los em sua gaiola ou de tê-los jogado uma banana. Uma imagem apropriada para o que se tornou, na última semana, uma República das Bananas.
Permitam-me descrever a cena na Câmara dos Deputados. Depois de um debate, se é que aquilo pode ser chamado assim, houve uma sessão de votação na qual cada “deputado” fazia um discurso e apresentava seu voto a favor ou contra o impeachment. Apenas imagine – é bom se sentar, porque você vai cair na risada – apenas imagine trezentos e sessenta e sete homens adultos, muitos dos quais com pendências criminais a serem julgadas assim que deixarem o Congresso (isso se eles não manobrarem para ficar lá por período suficiente para que o caso prescreva por causa do tempo), levantando-se e fazendo declarações como essas:
“Eu declaro, pelo meu filho de quatro anos, pelos meus amigos, por Deus, que eu voto sim!”, em uma lamentação boba e estridente com lágrimas em seus olhos, se mexendo com teatralidade histriônica - quando quem fazia tal declaração era um criminoso, talvez um estuprador, um homicida, um estelionatário, sem um pingo de moral. Um deles, Bolsonaro, até dedicou seu discurso a um torturador, aquele que afligiu a presidenta Dilma quando ela era uma prisioneira política mantida pelos fascistas. Talvez ele curtisse ser torturado para que possamos dedicar um discurso a ele: “Ode a um PORCO fascista”.
Que legitimidade tem a Câmara dos Deputados?
Que legitimidade tem uma Câmara dos Deputados para impedir uma presidenta que foi eleita democraticamente por mais de cinquenta milhões de brasileiros em voto livre e justo, contra a qual não há nenhum fragmento de evidência que aponte para uma atividade criminal (no máximo, sua equipe de governo apresentou cenários mais favoráveis nas contas, fazendo o que qualquer governo no mundo tem feito, com a diferença de que Parlamentos em outros países não são feitos do mesmo... material... que a Câmara brasileira)?
Que legitimidade tem um punhado de elitistas que sempre tiveram privilégios nas áreas de educação, saúde, segurança, privilégios em acessos a empregos, para julgar uma presidenta cujo trabalho e cujo partido tem dado benefícios sociais visíveis a milhões de pessoas?
Que legitimidade tem um grupo de colegiais de jardim de infância, quando nada é feito pelos direitos das mulheres, nada pelas minorias étnicas, nada pelas minorias religiosas, nada pela comunidade LGBT?
Que legitimidade tem esse bando de políticos egoístas e arrogantes para tentar demover uma presidente politicamente eleita do país quando o caso não foi analisado pelo Supremo Tribunal, quando nenhuma peça de evidência foi apresentada contra Dilma Rousseff?
Que legitimidade tem a Câmara dos Deputados que permite, por si própria, ser liderada por um Eduardo Cunha, a cara por trás do golpe, o homem a quem se imputa onze contas bancárias ilegais na Suíça, cujo nome aparece nos Panama Papers e que é, ele próprio, investigado pela Suprema Corte?
Eles insultam as pessoas que trabalham duro
Que legitimidade tem um sistema endemicamente corrupto, que envolve os próprios juízes, juntamente com parlamentares (que recebem um monte de grana dos lobbies que financiam suas campanhas, controlam a sociedade para, depois, fecharem-se em sua posição social a fim de protegerem-se uns aos outros), para tomar qualquer decisão que afeta milhões de brasileiros, se eles não compartilham suas receitas com o resto do país? Então eles procuram riquezas para si próprios aceitando suborno para daí falar em nome das pessoas que trabalham duro? Eles estão insultando a população brasileira ou o quê?
Agora vamos examinar a “Comissão Especial do Impeachment”, com 65 membros consistentes. Que legitimidade eles têm para opinar em qualquer coisa quando 36 desses 65 são objeto de acusação ou formalmente condenados por crimes?
Essa imundície repugnante, mais suja que qualquer coisa nadando em qualquer esgoto, tem a audácia de acusar a presidenta democraticamente eleita sobre quem não pesa nenhum elemento ou prova contrária?
Então vamos investigar as histórias desses ilustres deputados e colocá-las todas sob domínio público. A partir daí, vamos ver quem ri por último. Enquanto isso, vamos deixar a comunidade global ver este novo Golpe no Brasil como aquilo que efetivamente é. Estes oportunistas transformaram o gigante acordando em uma chacota da comunidade internacional novamente – samba, futebol, políticos corruptos e a República das Bananas!! Parabéns, Eduardo Cunha. Agora, deixe-nos investigar o SEU passado e expô-lo em público para que o mundo todo veja...
*Timothy Bancroft-Hinchey trabalhou como correspondente, jornalista, editor-adjunto, editor, editor-chefe, diretor, gerente de projeto, diretor executivo, sócio e proprietário de publicações impressas e online diárias, semanais, mensais e anuais, estações de TV e grupos de mídia impressa e distribu®ida em Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné Bissau, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Passou as últimas duas décadas trabalhando em projetos humanitários. Ele é diretor e editor-chefe da versão em português do Pravda.ru.
(Tradução livre, com grifos e links do autor do texto, realizada sem fins comerciais ou lucrativos, apenas para conhecimento do povo brasileiro sobre seu conteúdo)
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terça-feira, 26 de abril de 2016
República das Bananas! Tentativa de golpe no Brasil: que legitimidade tem o Congresso?
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