Por Sérgio Mendes(*), especial para o QTMD?
Faz algum tempo vem ganhando contraste, as cores de
nossos grandes do jornalismo em descompasso com a realidade das ruas. E
antes que possam questionar o que vou escrever, ainda antes de escrever,
gostaria de propor um teste muito simples:
Saia pela periferia da sua cidade, seja ela qual for,
e procure pelos personagens e fatos de onde você vive em qualquer
veículo de comunicação.
Se encontrar algum que seja mais que uma caricatura num grande jornal, aguardo o comentário no final desta página.
A explicação é simples:
Concentração, monopólio, manipulação.
Para constatar, conte quantos jornais tem circulação
nacional e quantos existem na sua cidade. Quantos canais de tv tem
alcance nacional e quantos cobrem a sua região desde onde você está.
Quantas estações de rádio estão nas mãos de quem e quantos são esses
felizes proprietários.
Nossos arautos nem sequer disfarçam a vontade que tem
de voltar com os tapumes de antes da internet e tornar a ditar
realidade ao invés de cumprirem seu papel, e dar voz aos mesmos
personagens da rua que você e eu não encontramos mais, ou melhor
dizendo, raramente vemos ou vimos nestes mesmos veículos.
Desgraçadamente, este comportamento não é novo, nem
exclusivo de nosso jornalismo pátrio. É fenômeno do mundo e da História.
Já aconteceu no passado, e até bem recentemente se tem notícia de
redações fechadas por dispensarem a Ética e por terem sido achadas em
falta com a utilidade pública a que em tese, se prestam.
Nossos arautos nem disfarçam a contradição de entortar com palavras, os números dos seus próprios institutos de pesquisas.
Estamos outra vez num ponto em que precisamos optar
pelo que nos serve como sociedade e descartar o peso morto, ou morrer
junto com ele. Morremos a Democracia?
Pode apostar!
Recentemente com o julgamento do chamado ‘Mensalão’,
ficou ainda mais claro que não estão dispostos a cobrir a História de um
país em busca de estancar o sangrar de alguma chaga, mas a derrocada de
quem se oponha no seu caminho rumo ao poder. E poder sem
responsabilidade.
Pouco ou nada se compromete este tipo de noticiário
com a cidadania, senão reforça as raízes mais profundas da segregação
social. A mesma segregação banida do primeiro mundo, lugar que no
imaginário dessa gente, é onde vale a pena estar. Naquele mesmo primeiro
mundo, observa-se exatamente o contrário, a cidadania conquistada vai
se perdendo pela força do dinheiro. Aqui, pelo mesmo dinheiro e a
concentração exagerada dele, tornam iguais em superiores e ou inferiores
faz tempo demais.
A imprensa é a primeira memória de qualquer
sociedade. É ela quem aponta o que as pessoas lembram, debatem e opinam
todos os dias. Mas isso acontece pela credibilidade que constrói ou não,
posto que não tem fé pública.
Vou repetir um comentário a respeito de recentes declarações de um condenado na mesma ação penal que citei e que não é meu:
“Nada mudou. Nada passou a ser verdade depois que o Valério falou, ou nada deixou de ser verdade depois que o Valério falou. Tudo ainda é embate político…” Pra mim, é mais impressionante perceber o quanto do nosso achar e pensar é decidido pela mídia, do que o que ela publica. Neste caso específico, ela está editando isso há um mês. Por outro lado, o Cachoeira percebeu que, enquanto ele entregar apenas Demóstenes e tucanos, tá ferrado. Por isso saiu hoje dizendo que é o “garganta profunda” do PT. Ele sabe quem é o público dele…” O pior que pode acontecer para um veículo de comunicação, é perder a credibilidade e ficar falando para as paredes. É quando começam a aparecer nas pesquisas de opinião justamente o contrario de tudo que eles pregam. Daí passam a desdenhar da capacidade que a sociedade tem de decidir seus próprios caminhos, e trocam a História por propaganda. Mas propaganda não subsiste a História. E a sociedade não escreve propaganda. A História é segunda memória, a mais importante e duradoura. Mas demora um pouco mais que a propaganda para se estabelecer, ainda que sempre venha.
Quem viver, verá não ser mais possível afirmar que uma mentira dita mil vezes, torna-se em verdade.
Nem nunca foi por que mentira sempre será mentira.
Mesmo repetida mil vezes, basta que a verdade seja dita uma vez apenas e
o engodo estará desfeito.
Opiniões todos temos. Podemos e devemos debatê-las a
exaustão. Mas opiniões estão para notícias como suposição está para
jornalismo bem feito.
Se não é possível que jornalistas sérios e
comprometidos com sua gente possam trabalhar para noticiar e construir a
memória em cada rincão, que não desçam os grandes a desqualificá-la e
ao debate neste espaço democrático que se abre para nós.
Que venha a História, e que venha logo.
*Sérgio Mendes é professor de inglês e escritor. Colabora com o Quem tem medo da democracia?, onde mantém a coluna “De olho na História”. http://quemtemmedodademocracia.com/de-olho-na-historia-2/
=> A charge é do cartunista Carlos Latuff.
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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Que venha a História, que venha logo, porque o jornalismo não tá dando conta.
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