Os próximos passos serão disputados por todos os lados, assim como a narrativa do que foi a campanha e os últimos 12 anos.
Por Marcel Farah*
Dilma foi reeleita.
A margem de votos que colocou Dilma à frente de Aécio foi muito pequena. Nunca antes na história deste país tivemos uma eleição tão apertada.
A votação foi muito parecida, mas os projetos são muito distantes um do outro.
Houve uma identificação crescente do projeto do PT com um projeto das classes trabalhadoras e do projeto do PSDB com um projeto das classes proprietárias. Contudo, esta identificação não se massificou a ponto de que trabalhadores e trabalhadoras votassem no projeto petista por ser um projeto classista. Pelo contrário, muitas trabalhadoras e trabalhadores votaram nos tucanos, crentes de que isso resultaria em mudanças para melhor em nosso país.
O que tiramos de aprendizado e o que se pode fazer a partir deste resultado eleitoral?
Os aprendizados tem que ditar o ritmo do que será feito a partir daqui.
A diferença dos 12 anos de governos petistas para os 8 anos de governos do PSDB é muito maior do que a diferença de votos conquistada nestas eleições pela presidenta Dilma em relação a Aécio. De duas uma, ou esta afirmação é incorreta, ou está sendo encoberta e perdendo nitidez na disputa do discurso sobre nossa história recente.
Temos que deixar de perder a disputa ideológica por W.O.
Tão diferente quanto os projetos em disputa nesta eleição é a leitura que cada setor faz da realidade brasileira. E qual das leituras se afirma como predominante.
De um lado temos as mudanças que ocorreram nos últimos anos, a saída de 40 milhões de pessoas da miséria, a saída do Brasil do mapa da fome, a sensação de pleno emprego, o crescimento das universidades e do mercado interno de consumo, o fortalecimento da democracia participativa e a inserção soberana na geopolítica mundial.
De outro temos a corrupção, a incompetência gerencial, a “petralhada” do governo atual, o aparelhamento do governo, bancos e estatais – isso beira o absurdo… mas vamos lá… temos também o alerta sobre o descontrole da inflação, o baixo crescimento da economia, a fraca relação com os EUA, o salário mínimo muito alta e a competitividade industrial baixa.
Um outro olhar que defende os avanços do governo petista mas acha que muito mais poderia ser feito no sentido da construção de um projeto popular, com as reformas de base que defendemos historicamente não entrou no centro da pauta, mas apareceu no debate.
Outro olhar ainda, mais conservador, que prega o golpe militar para dar fim ao comunismo petista também esteve presente em alguns momentos, inclusive em vários discursos de quem foi contra o Decreto da Participação Social recentemente derrubado na Câmara dos Deputados.
Podemos dizer que são quatro projetos, em ordem um da centro-esquerda, outro da centro-direita, outro da esquerda e o último da direita. Contudo, apesar desta classificação facilitar o entendimento estático destes grupos, dificulta o entendimento sobre a dinâmica de relação histórica dos mesmos. Portanto, abandono esta classificação.
Os próximos passos serão disputados por todos os lados, assim como a narrativa do que foi a campanha e os últimos 12 anos.
A presidenta começou esta batalha nova em seu discurso da vitória, colocando a reforma política e o diálogo em primeiro lugar. Deu sinalizações de que vai lutar para a construção de consensos como sua pequena margem de vitória recomenda, ao mesmo tempo em que dá uma resposta positiva e sintonizada com a crescente polarização e distinção de projetos que vivemos nas eleições. São sinais trocados… pra variar.
Vai começar tudo de novo?
Acho que não. Principalmente a depender de dois atores. De um lado uma oposição revigorada pelo resultado eleitoral. De outro, uma militância motivada e com muita política na cabeça para entrar de vez no jogo e enfrentar a reação do Congresso mais conservador de nossa história recente.
O tempo e a luta nos dirá o que vai acontecer, sei que serão anos quentes, e tomara que nossas organizações populares consigam manter e fortalecer o espírito de utopia real que no guiou até aqui e que isso resulte em muitas vitórias no sentido da construção de um projeto democrático e popular para o Brasil.
* Marcel Farah é militante do PT
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domingo, 2 de novembro de 2014
Próximos passos.
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