quinta-feira, 9 de junho de 2016

Dilma sobre programa de Temer: 'é ultraliberal e não passou nem em reunião de condomínio'

Roberto Stuckert Filho/PR

Naira Hofmeister

Em uma inédita participação em um ato político em Porto Alegre, com direito a dois discursos - um deles de quase uma hora - e presença na popular Esquina Democrática, a presidenta da República afastada Dilma Rousseff teceu críticas ao governo “interino ilegítimo e provisório de Michel Temer (PMDB)” e a seus aliados, como o também afastado presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB).

“É bom vocês gritarem ‘Fora Cunha’ porque ele não só indicou o líder do governo provisório e ilegítimo na Câmara mas talvez a maior parte do seus ministros. Suas práticas beiram as de uma organização criminosa”, atacou.

Dilma analisou as políticas já anunciadas por Temer embasando suas observações com números e argumentos. “É uma agenda ultraconservadora, de restrição de direitos e ultraliberal e que sequer passou por votação de condomínio”, sintetizou.

Ela exemplificou com a escolha do presidente interino em cortar benefícios sociais para equilibrar o orçamento. “Numa crise, diante de dificuldades econômicas, o governo tem a opção distributiva. Mas criminalizaram os impostos e com isso, a retirada de direitos passa a ser a única forma de fazer o ajuste”, lamentou, lembrando a ameaça de corte de 5% no Bolsa Família, que segundo seus cálculos, atingirá 37 milhões de beneficiários.

Dilma também condenou as manifestações do governo interino sobre o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS). “Dizem que não cabe no orçamento, mas é um direito garantido pela Constituição de 1988”, lamentou, para completar em seguida: “O que querem, é acabar com o Mais Médicos”.

Segundo a mandatária afastada, caso o programa de incentivo à contratação de profissionais de atenção básica seja extinto, 63 milhões de brasileiros ficarão sem atendimento. “Não se trata de ideologia, mas de como atender o povo nos postos de saúde”.

Na educação, avaliou como equivocada a nomeação do ministro Mendonça Filho (DEM) “que foi contra a lei de cotas” nas Universidades.

“E a extinção do MinC, então! Em um país que em que a diversidade cultural e étnica se constitui um elo sentimental entre a nação como o nosso caso?”

A sequência de críticas prosseguiu com a tentativa de desindexar o reajuste das aposentadorias do salário-mínimo - “Setenta por cento dos aposentados ganham salário-mínimo no Brasil, isso significa empobrecer 23 milhões de aposentados” - e só se concluiu bem ao final da fala na Assembleia Legislativa, quando Dilma se referiu ao novo presidente da Petrobras, Pedro Parente, fazendo uma brincadeira com seu nome e o título de um clássico do cinema italiano: “O Parente é serpente acha agora que a Petrobras não precisa do Pré-Sal, depois que já atingimos a marca de extração de 1 milhão de barris por dia nessa camada”, lamentou.

“Estamos tendo nossos direitos cerceados”

A presidenta afastada Dilma Rousseff também fez um desabafo ao público, reclamando de decisões do governo Temer, como a de restringir a autorização para uso de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) apenas para deslocamentos entre Brasília e Curitiba. “É um escândalo! É muito grave porque eu não posso, como qualquer outra pessoa, pegar um avião comum. É preciso ter todo um cuidado com a segurança, é a Constituição que manda”, observou.

Mas avisou: “Eu vou viajar, essa questão terá de ser resolvida!”

A Casa Civil do governo interino entende que Dilma não possui agenda oficial por estar afastada de suas atividades e portanto, não possuiria justificativa para viajar a outros destinos.

Dilma também recordou recentes decisões do Congresso - como a proibição para incluir em sua defesa os áudios que derrubaram o ex-ministro Romero Jucá (PMDB) por ter dito que o impeachment era a única saída para “estancar a sangria” da Lava Jato. “Estamos sendo cerceados em nosso direito à defesa. Se eles são incapazes de garantir esse direito, não são democratas, são golpistas”, completou.

Dados para resistir aos ataques

Assim como fez ao analisar as primeiras semanas do governo Temer, Dilma lançou mão de didatismo ao explicar aos militantes do que estava sendo acusada - explicando detalhadamente no que consistem as chamadas pedaladas fiscais e porque não há fundamento em considerá-las crime - e ainda fez questão de desconstruir denúncias que vinculam seu nome à corrupção. “Eu sou uma pessoa incômoda porque não tenho acusação, nunca usei o bem público em meu benefício”, ponderou.

Dilma se referia a uma matéria do jornal O Globo publicada na sexta-feira (03), indicando que ela teria pago serviços do cabelereiro Celso Kamura com dinheiro desviado da Petrobras durante o episódio da compra da refinaria de Pasadena. “É uma estratégia do Globo para atingir a minha imagem”, condenou.

Dilma garantiu que ela mesma pagava os serviços do profissional. “Sabem o que é melhor disso? É que eu tenho todas as notas e comprovantes da compra das passagens de avião (do cabelereiro)”, assegurou

A presidenta afastada ainda mostrou que as datas não coincidiam: “conheci Kamura na campanha de 2010, e Pasadena foi comprada em 2006, quando eu nem sonhava que seria candidata à presidência”, comparou.

Alerta para eleição indireta em 2017

Outro importante alerta feito pela presidente afastada foi com relação ao processo democrático brasileiro. “É preciso acompanhar com muito cuidado como essa conjuntura se desdobra”, observou.
Segundo Dilma, já está sendo costurada uma alternativa caso o governo Temer se inviabilize: a convocação de eleições indiretas em 2017. “O que está em jogo, sobretudo, é o amanhã democrático do Brasil”, apontou.

Ela fez essa relação ao lembrar que no caso de uma eleição indireta, quem escolheria o representante do poder Executivo seriam os parlamentares brasileiros, que são “sempre muito mais conservadores”. Ela sublinhou o fato de que a eleição para o Legislativo está muito mais sujeita à influência do poder econômico e por isso, os eleitos acabam muitas vezes comprometidos com seus financiadores de campanha.

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